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@robson-amadeu
...
A estrada segue sempre avante
Da porta onde é seu começo.
Já longe a estrada vai, constante,
E eu vou por ela sem tropeço,
Seguindo-a com pés ansiosos,
Pois outra estrada vou achar
Onde há encontros numerosos:
Depois? Não posso adivinhar.
- J.R.R. Tolkien, A sociedade do Anel; tradução Ronald Kyrmse, pag. 132, ano 2020.
O que dizer dos seus olhos
O que digo sobre você diz mais sobre mim do que sobre você.
Mas, porque raios todas as minhas palavras são frustrantemente tão despresadas e ignoradas? Porque todo meu esforço é em vão?
Eis o real motivo: eu não sei me expressar de modo a ser compreendido.
Eis a mentira que conto para mim: você não é capaz de entender uma vírgula sequer, pois ainda pensa que sou aquela pessoa... aquela que te magoou. Completamente guiada por suas emoções predominantes — raiva e remorso —, aponta veementemente o dedo para o meu peito dilacerado, acreditando que este infeliz seria capaz de suportar toda a culpa do nosso fim.
Nada mudará o que houve, nada mais será recuperado. Mas eu preciso que sua fúria seja aplacada para eu poder saber o quanto sou compreendido.
Então não direi mais nada até que ao menos uma frase não tenha sido escrita para as paredes lerem.
Eu sinto, você sente
Eu sinto rancor
Eu sinto ódio
Eu sinto raiva
Você não deveria ter me trocado,
Você não deveria ter me deixado sofrendo,
Você não deveria ter me deixado sozinho.
Somos bons em ofender um ao outro.
Porque ainda me agarro a essa dor?
Eu sinto, você também sente
Uma mulher me admira,
Eu vejo ela e tenho pena dela.
Eu vejo outra mulher, tenho admiração por ela;
O que essa outra mulher sente por mim?
Será pena?
Se sim, eu devo me sentir frustrado?
Como saber?
Frustrado
É tão tediante escrever sobre a realidade e as coisas como elas são, que eu enfeito com elementos decorativos que dão ar elevado e espiritual aos textos.
Talvez fosse mais fácil dizer que minha vida não tem emoção alguma e que encontrar uma mulher linda durante uma prática esportiva é, ao mesmo tempo, a coisa mais incrível e a mais desesperadora que pode me acontecer. Incrível, porque ela parecia uma flor intocável. Desesperadora, porque é um acontecimento tão banal quanto respirar.
Ora, bem sabemos que as flores perdem toda a sua beleza depois de serem arrancadas da planta. Eis o motivo de ela ser intocável. (Que coisa ridícula de se dizer! Nenhuma mulher deseja ser intocável — e tampouco as flores deveriam sê-lo).
Respiro fundo, deixo o ar encher meus pulmões para que o sangue circule com mais eficácia pelo cérebro e este consiga produzir algo de maior valor nestas linhas, feitas de letras e palavras que parecem brotar de modo tão aleatório...
Mas minha missão não é fácil. Falar de algo valoroso torna-se árduo quando se tem um nó na garganta. Frustrado, inquieto, claudicante… eu talvez nem devesse ter começado a escrever. Ainda assim, teimoso que sou, insisto. E veja só: sem nenhum ornamento, sem nenhum artifício que empreste ao texto um ar elevado ou espiritual. Eis apenas a descrição quase exata da realidade e das coisas como elas são — tediosas
Havia una mulher tão cheia de potencial que ninguém era capaz de enxergar. Eu via nela aquilo que homem nenhum enxergava, via nela muito mais que só uma atendente, uma operadora, uma pessoa confusa e insegura.
Realmente, ela é tudo isso, mas é alem de tudo uma líder, alguém a respeitar e alguém que tem algo divino dentro de si. Sim, eu vejo tudo isso nela ainda... aquilo que ela sabe que tem dentro de si mas que esqueceu de ver. Eu confio nela, eu acredito nela.
Não consigo não fazer contraste dela com o ideal que tenho de uma esposa. Esse contraste me constranje, me aflinge, me devora porque ela é algo que idealiso como independente, alguém livre. E parece ser o exato oposto da mulher casada. Mas, só parece!
A minha esposa terá a plena liberdade em fazer o que seu coração mandar e obter todos os frutos de suas escolhas, certas ou erradas. Já eu, como bom marido que sou, devo receber de braços abertos tudo aquilo que me vier, qual eu não puder evitar, sem reclamar e sem perecer. Serei o escudo emocional, a força falíca da relação (se é que isso tem alguma coisa haver com alguma coisa). Terei sim um tom bolachão, libidinoso e asperoso; no entanto, serei a primeira e ultima linha de defesa dela, alguém que segurará toda a barra, aguentará aquilo que for justo e, sendo seu esposo para o resto da vida, deverei suportar a injustiça, acemelhando da melhor maneira possível, a mesma força que o mais heroi de todos deveras demonstrou.
Na nossa despedida, que um dia haverá, o mais fúnebre momento saldará com ar de confiança a bravura que este homem teve em cumprir seu propósito, aparentando aos olhos destreinados, o pior dos piores, mas concretizando nas linhas da eternidade a sua melhor obra, aquilo que sempre lhe foi pedido pelo silêncio da eternidade. E essa mulher, apartir de amanhã, olhará para essa obra desse homem que fui com olhos de criança, com ar respeitoso e semblante contemplativo.
As vezes a coisa que a gente mais quer não pode acontecer...
E não é porque o desejo é fraco, mas porque a realidade é insuportavelmente insuperável.
Apenas palavras
La estava eu, correndo contra o relógio da insanidade, mostrando ao mundo o homem ajustado que procuro ser, buscando um momento de glória na luta pelo conforto na vida; foi quando o homem me avistou, temeroso ele pensou que não lhe daria conta da sua existência, teve medo de não ser reconhecido devido a desgracência que acreditava estar passando na vida.
Ele me interpelou, falou qualquer coisa do tipo "Não era você o anjo que passou pelo inferno há anos atrás?"
"Sim, certamente que sim. Sou eu mesmo, meu glorioso andarilho."
"Veja o que houve comigo, olha a vála que estou", ele me disse. "Você está na gloria, eu na miséria: Você come o nectar, eu o polém; você caminha entre as núvens de algodão, eu piso descalso no húmus dos animais; sua luta é contra pensadores e ideais, minha luta é contra soldados desgraçados, infames e inoportunos; no seu amor existem pesares, no meu coração pesos existem para que deixe de amar; sua vida é deleitosa, minha vida é uma prisão eterna."
Dito isso, eu me aproximo da verdade que o silêncio me grita, serro meus dentes uns aos outros, eles ligados aos meus nervos floridos em minha pele, pisco três vezes para dar sorte, mordo meu dente canino sem relutar, assusto surpreso de não controlar sequer um impulso ja conhecido, e prontamente lhe respondo "Qual anjo eu sou!", e mais alguns pormenores que ele não ouviu e tão pouco eu quero lembrar.
"Certo, caro anjo, certo" falou ao fim. "Mas, nessa nova estrada que devo caminhar, num dado momento ei de lhe cruzar; trarei uma espada, ou duas, para dessa ou daquela outra te lançar; num duelo você ha de me encarar e a sua vida na minha mão vai estar."
Eu olho para os olhos da loucura: tentadores. Mudo o passo, ajusto os ponteiros, vejo o que sobra... Ah loucura, você vai ter que esperar.
Naoby
Nabab
Floresta tropical