Lute pelo seu lugar ao sol. Busque a luz em cada espaço, onde ela estiver. E quando acabar, agradeça, e agradeça quando ela voltar. Essa foi a maior lição que ele me deixou. Agora pouco, cheguei e ele não veio miar na porta. Depois de dezoito anos. Quando a Gabriela nasceu, ele tinha um ano mais ou menos, e cuidava dela, dormindo no berço. Ela sempre o chamou de irmão. Esse felino metódico vivenciou toda uma história, de dias felizes, de dias tristes, de vitórias e quedas, e passou a entender o que acontecia. Quando ficou entre lá e cá durante a separação, sentiu muita falta da irmã, e me salvou ficando aqui comigo. Ele ele me ouviu. Viajou comigo para um lugar feliz, viu meu esforço, defendeu a propriedade brigando com outro gato, e experiente de vida, venceu. Ele caminhava pelo mato molhada durante a garoa, fingindo ser um leão na savana, e caçava pássaros de longe com seu laser ocular. Era incrível presenciar aquilo! Dormia no beliche comigo lá naquela casa em Antonina, viu dias de luta, de felicidade, e me fez superar a queda. Me fez superar muitas quedas. E sempre que eu chorava, ele pedia comida, ou água, ou colo, como se me dissesse “Para com essa coisa de chorar, cara. Se liga! Vira a página que eu estou aqui pra te ajudar!”, e assim sobrevivemos. Desde fevereiro, enfrentamos juntos as dificuldades que o câncer trouxe pra ele, e uma pandemia de precedentes. E não fosse ele, eu teria me machucado mais neste tombo. Fomos fortes, pacientes, e insistentes. E agora, aqui, só, eu não sei muito o que fazer. Olho para as coisas dele, e involuntariamente o procuro. Não é insanidade. É instinto, e logo vira saudade. Forte o Fredo! Quando eu perguntava se era chegada sua hora, ele se levantava e dizia “Hoje não!”, e assim foi até ontem. Mas nesta manhã, quando perguntei, ele me olhou em silêncio, e não levantou. Eu esbravejava por uma ou outra coisa, e ele absorvia em silêncio. Eu reclamava da vida, e ele me ouvia, olhava, e soltava uma certa vocalização compreensiva. Não era um gato que apenas miava. Eu o acariciava, e ele ronronava. Eu brigava, e ele nunca baixava a guarda. [continua...] (em Curitiba, Paraná) https://www.instagram.com/p/CDAfCX7lkfQ/?igshid=pe8pcm0ntyz1