A MORTE COME PRIMEIRO POR DENTRO
não chega com foice
chega com fome
ela rói o osso do pensamento
mastiga a memória
faz banquete no fígado da esperança
e bebe o sangue morno do medo
a carne não apodrece de fora
apodrece em silêncio
entre as costelas
onde a fé mentirosa foi plantada como tumor
as igrejas erguem catedrais
com pedras roubadas de cadáveres
rezam sobre fossas
e chamam o fedor de milagre
vestem ouro
enquanto a morte aprende a comer devagar
dente por dente
dentro do homem ajoelhado
os bastardos de jesus
paridos pela hipocrisia
pregam amor com a boca
e ódio com as mãos sujas de dízimo e culpa
deus não sangra
quem sangra é o povo
rasgado por promessas ocas
engolido por salmos podres
a morte ri
porque sabe
que a fé cristã é um altar de carne humana
onde a dor é santa
e o grito é pecado
por dentro
ela mastiga as vísceras da alma
transforma sonhos em pus
esperança em vermes
e fé em fezes
é um banquete lento
com pratos de angústia
copos de desespero
e sobremesa de silêncio eterno
eu não rezo
eu cuspo
não ajoelho
eu quebro
minha essência é diabólica
porque vê
porque sente
porque não aceita ser devorada
enquanto canta hinos
o diabo não mente
ele mostra os dentes
a igreja esconde os dela
atrás de crucifixos e incenso a morte me habita
mas não me engana
ela rasga
ela dói
ela ensina
cada dor é uma mordida
cada noite um gole de sangue
cada lembrança um nervo arrancado
sem anestesia
sem perdão
não há salvação
há decomposição consciente
e enquanto eles rezam
eu observo a carne sendo comida por dentro
ouço os gritos abafados
sinto o estalo dos ossos da fé
isso é poder
não o céu
mas a lucidez que nasce no inferno
a morte não promete eternidade
ela cumpre
devorar
até o último vestígio de mentira e no fim
não sobra deus
não sobra igreja
só carne vazia
e o silêncio satisfeito
de quem finalmente se alimentou.











