( Atenção esse texto não é recomendado para quem sofre de depressão / Attention, this text is not recommended for anyone suffering from depression.)
Um dia em setembro, vim a este mundo vil, ainda no ventre daquela que mão de mim abriu, minha primeira emoção em vida, o medo, medo do abandono, medo do vazio, medo da ausência, medo da frieza, medo da indiferença.
Um dia, não só em setembro, o medo me sucumbia, entre centenas de bons casais... Nenhum deles de fato seu coração para mim abria. Dormia em centenas de quartos adornados de pelúcias e bonecas, mas sempre na velha beliche do orfanato novamente eu amanhecia.
Um dia, mesmo que setembro não fosse, um casal me queria, um pai? Uma mãe? Seria agora que a sorte me sorria? Agora eu tinha sobrenome, materno e paterno, minha vida mudaria? O medo se extinguiria?
Em cada setembro, mesmo agora adotada e registrada, um buraco em minha alma se abria e um novo hematoma eu ganhava, quem poderia imaginar? Um pai permissivo e uma mãe narcisista?
Um dia em setembro, no culto eu estava, com outra criança do lado de fora eu brincava, mas como eu poderia notar a forma que o pai daquela menina me olhava? Ainda tão jovem, maldade eu desconhecia, enquanto para o banheiro eu ia, aquele velho me seguia...
Tocou-me então a parte íntima, gritei em seguida, mas a culpa? A culpa foi minha, mesmo sendo apenas uma pequena menina... A culpa foi minha, oque minha mãe dizia se tornava lei em seguida, a culpa foi minha!
Um dia em setembro, minha mãe bebia... Com fome eu estava, mas fui em busca de seu colo, buscando amor e companhia, ainda uma criança, não entendia o porque ela me despia... E no profundo silêncio em seguida quebrado por mim de dor, após ela abrir minhas pernas, seu cigarro pressionava contra minha parte íntima.
Um dia em setembro, casei-me com o pretendente que minha mãe queria, um dia em setembro meu divórcio eu conseguia, ainda no mesmo setembro meu ex sogro meu corpo usava, enquanto eu apenas convulsionava...
Um dia em setembro, mas em como vários de minha vida, mesmo que em um setembro não fosse, física e psicologicamente ainda carrego essas feridas...
Um dia em setembro, hei de ter coragem, um dia, vou embora, não faço a mínima diferença para quem está aqui, um dia em setembro talvez encontrem meu corpo sem vida.
One day... in September...
One day in September, I came into this vile world, still in the womb of the one who never embraced me. My first emotion in life? Fear. Fear of abandonment, fear of emptiness, fear of absence, fear of coldness, fear of indifference.
One day, not only in September, fear consumed me. Among hundreds of good couples... none of them truly opened their hearts to me. I slept in hundreds of rooms adorned with stuffed animals and dolls, but always woke up again in the old bunk bed of the orphanage.
One day, even if it wasn't September, a couple wanted me. A father? A mother? Could this be the moment when fortune smiled upon me? Now I had a surname, maternal and paternal, would my life change? Would the fear go away?
Every September, even now adopted and registered, a hole opened in my soul and a new bruise I gained. Who could have imagined? A permissive father and a narcissistic mother?
One day in September, I was at church. I was playing with another child outside, but how could I notice the way her father looked at me? Still so young, I did not know evil. As I went to the bathroom, that old man followed me...He then touched my private part, I screamed right after, but the blame? The blame was mine, even though I was just a little girl... The blame was mine, what my mother said became law, the blame was mine!
One day in September, my mother was drinking... I was hungry, but I went to her seeking comfort, searching for love and company. Still a child, I did not understand why she undressed me... In the deep silence, soon broken by my pain, after she opened my legs, her cigarette pressed against my private part.
One day in September, I married the suitor my mother wanted, and one day in September, I got my divorce. Yet, in the same September, my ex-father-in-law used my body while I could only convulse...
One day in September, like so many others in my life, even if it wasn't September, I still carry these physical and psychological scars...
One day in September, I will have the courage. One day, I will leave. I make no difference to those who are here. One day in September, perhaps they will find my lifeless body.