Sobre sexo e a cidade
Estou olhando o perfil de “Discreto.36″, que está a 18 km de mim, neste momento. Não vejo seu rosto, mas seu tronco é forte, sem ser definido, com algumas dobrinhas e pelos (muitos). Para ver seu perfil completo, devo preencher um cadastro no aplicativo, com minhas informações gerais e alguns detalhes sobre meu corpo e minhas preferências sexuais. Passo. Enquanto isso, em um aplicativo menos invasivo, deixo algumas conversas sem resposta, parte por preguiça, parte por insegurança.
Seriam os aplicativos de relacionamento uma boa maneira de otimizar a relação sexo-território, ou essas redes sociais estão intensificando as neuras de uma geração ansiosa, nos transformando em produtos, e estabelecendo novas relações via marketing?
As comédias românticas serão removidas para a sessão de filmes sci-fi, porque elas mentiram para nós. Atualmente, as chances de se encantar por um total estranho com quem dividiu um taxi, ou esbarrar no cara dos seus sonhos (trocando olhares enquanto recolhem os pertences do chão awwwwn), são quase tão remotas quanto um tornado levando tubarões para a cidade. Hoje a ~moçada~ curte relacionamentos online!
Pera, você lembra da época em que ter um perfil no Match.com era coisa pra gente de meia idade, frustrados ou desiludidos? Esse tempo passou, coleguinha! Os Tinders da vida colocaram os relacionamentos na palma da mão de uma geração que, segundo os ~especialistas~, é racional, imediatista, impaciente, e superficial. Somos procrastinadores e preguiçosos, e preferimos ter no conforto do nosso lar o flerte que antes, precisaríamos cair na noite para executar - e o preço da cerveja anda muito inflacionado. Fomos criados na frente da TV e crescemos na frente do PC. Não gostamos de gente, lidamos melhor com máquinas, e precisamos aparentar força e poder. Será?
Outro dia, vi uma reprise de “Sex and the city” e no episódio da quinta temporada Carrie, depois de inúmeros bad dates, encontra-se desiludida do amor e amarga. Ela, um mulher superficialmente bem sucedida, segura e independente, vê-se frustrada por não ter ninguém para dividir momentos românticos. Foca então nas amigas, que tentam ajudá-la, cada uma a sua maneira. Encontros às cegas, online e workshops, e todos parecem passar a mesma mensagem, de que o cara certo está lá fora, no mundo. O episódio então levanta algumas dúvidas: E se o cara não estiver? E se nem mesmo existir? E se ela não quiser um cara? Porque as pessoas se tornam amargas em busca de algo que nem deveria ser imposto ou obrigatório?
Me soou familiar.
Tive então uma epifania: Contrariando estudos que sugerem que a adolescência, nos tempos atuais, se estende até os vinte e poucos anos, percebi que, na verdade, os dilemas da meia idade estão chegando mais cedo! Porque nós já somos superficialmente bem sucedidos, pra ostentar no facebook. Check. Já sofremos pressão social pra resolver tudo AGORA, e para sustentar um relacionamento AGORA, que a gente nem sabe se quer. Check. Já temos até nosso sistema de encontros online, que parece moderninho mas é bem antiquado. CHECK CHECK CHEK!!!
Consegui entender com clareza os dilemas que, há 15 anos atrás, eram pertinentes à um mulher de 40 anos, mesmo vivendo em um mundo onde os 40 são, supostamente, os novos 20. Faz sentido??
Trazendo pro lado arco-íris da força, percebo que alguns meninos, de tanto se encobrirem, desenvolveram o mal da timidez. Daí, lidar com fotos e conversinhas meia-boca é muito mais conveniente do que suar frio num encontro tete-a-tete. E as inseguranças? Arrisco dizer que são maiores! Nossa comunidade não é tão receptiva quanto pensa, e nela há preconceitos que não cabem na dispensa! Sou feio sou baixo sou alto sou magro sou gordo sou ativo sou passivo esse cabelo essa espinha essa falta de academia esse excesso de trabalho...MAH TÁ TUDO ERRADO COM ESSA GALERA! A gente até troca likes com o bonitinho, mas não manda “oi :)” pois pensamos que a areia dele não vai caber no nosso caminhãozinho.
Vivemos em um mundo que, em tese, é mais receptivo à diferenças mas que, na prática, bate recordes de cirurgias plásticas e tem uma juventude especializada em retoques de imagem. E eu achava que era muito bem resolvido com isso, sabe? Mas só até abrir o Scruff, e o conceito de “detalhe seu corpo e suas preferências para uma fast foda” me assustar DEMAIS. Isso, e o medo de mandar “Oi” pros bonitinhos. Ah os bonitinhos...
Entre tantas idas e vindas, nesse grande “Sex and the city” da minha existência, me vi Carrie. Cansado e amargurado por não aguentar mais o ritual do oi-tudo-bem-mora-onde?, e ser familiar demais com todo o cinismo do primeiro encontro e das mensagens do dia seguinte. Não consigo mais pensar como a eterna romântica Charlotte, que em uma das cenas do episódio que citei no começo do texto, diz que conhecer alguém novo e esperar por algo espacial faz parte das emoções naturais da vida. O ritual do faz-o-que?-gosta-do-que? não me parece NADA natural.
Acho que Clarice está certa. Não a Lispector - a Falcão! A gente até se gosta, mas como quem gosta de um vídeo do youtube de alguém cantando mal. É irônico. Isso é irônico! Tinder é fogo que arde sem se ver, meu bem, e ghosting é ferida que dói, e se sente. Ah, como sente! Desconhece o termo? É quando a sua alma gêmea de anteontem, depois de madrugadas em claro, trocando conversas deliciosas e dividindo friozinho na barriga, some, puff, como um fantasma. A gente sempre acha que o problema é a gente, mas o ponto é que a “Quadrilha”, de Carlos Drummond de Andrade, está virando uma realidade. João amava Teresa que amava Raimundo, que amava Maria que amava Joaquim, que amava Lili que não amava ninguém. E talvez sejamos a geração das Lilis.
Ainda sobre gerações, li por aí que a nossa não entende muito bem o amor. E qual entendia? A das nossas avós, que se casavam com alguém ali pertinho, só pra não ficar mal vista pela cidade? A dos nossos tetravós, que uniam famílias na base do trato, para então unir terras e bens? RISOS. A realidade sobre a galera do “Y” é uma só: somos humanos tapados, e assim como as gerações de outros carnavais, nos desdobramos para cumprir as expectativas dos outros e não conseguimos nos entender. Somos todos a mesma farinha, nesse grande saco que é a vida!
Se nem Carrie Bradshaw estava satisfeita, meu amor...












