Apaguei você
com a delicadeza
de quem limpa sangue
de uma toalha branca.
Primeiro, o nome.
Depois, a rua,
a hora,
o vestido
e aquela mentira
que chamávamos de destino.
Rasguei as fotografias,
mas os olhos ficaram.
Fechei as janelas,
mas a noite
continuou entrando.
Há lembranças
que aceitam o esquecimento
como uma mulher ofendida:
em silêncio,
com os lábios imóveis
e uma vingança
atrás dos dentes.
Você morreu em mim
diversas vezes.
No entanto,
toda madrugada,
alguma coisa sua
arranha a porta.
Talvez seja o perfume.
Talvez seja a culpa.
Talvez seja apenas
meu coração,
esse animal indecente,
cavando o mesmo túmulo.
Não me lembro
do seu rosto.
E isso é o pior.
Porque agora
posso encontrá-lo
em qualquer pessoa.