Tudo pra te ver sorrir (Natal parte 2)/Cashe (a bit long) Minific (Ashe X Cassidy - Overwatch 2)
“Vamos lá, de novo!” Enquanto terminavam de se arrumar, Cole via Frankie bater os saltos das botas de um lado para o outro, um casaco felpudo nos ombros, brincos dourados balançando nas orelhas e um longo vestido lavanda feito sob medida esvoaçando atrás dela a cada passo que dava na frente da porta da cabine. “Como a gente se conheceu e com o que a gente trabalha?”
“Somos colegas de trabalho que se conheceram online.” Ashe respondeu, desgostosa por B.O.B. não deixá-la sair sem pentear o cabelo, mesmo que planejasse cobri-lo ao sair da cabine — embora Frankie insistisse que não seria necessário.
“E trabalhamos com vendas de produtos usados.” Cassidy completou, dando uma piscadinha para o próprio reflexo na janela. Apesar das roupas novas: uma camisa branca por baixo da jaqueta emprestada e uma calça social azul-escuro, ele não largava as botas gastas de montaria e nem seu fiel chapéu de caubói, que dava a ele seu charme pessoal.
“Isso!” Frankie bateu palmas e pôs os óculos para cima. “Perfeito! Mas, Ashe, tem certeza de que você quer conhecer a minha família…” A moça estalou a língua. “Assim?”
A garota vestia um casaco bege surrado, uma calça branca manchada e rasgada em vários pontos com tênis velhos nos pés.
“Sim.” Sua cabeça foi para trás com uma última passada de escova, mas seu rosto continuou impassível. B.O.B guardou a escova de volta na mochila de Ashe, junto do chapéu da garota, e ajeitou seu próprio, pronto para sair. “As outras roupas que B.O.B. pegou são muito chamativas.”
“Hum, tudo bem, então.” Cassidy podia jurar que viu um dos olhos da hacker tremer. “Você é quem manda, chefe.”
Pela velocidade da paisagem se movendo pela janela, era possível perceber que o hiper-trem diminuía a velocidade, preparando-se para uma parada suave na estação de Midtown dali a alguns segundos. Frankie ajeitou a finalização de um dos cachos com os dedos e Ashe colocou o capuz do casaco por cima do cabelo.
Quando o trem parou, exatamente ao meio-dia, o quarteto saiu da cabine junto de seus pertences e foram em direção à porta do vagão que estava prestes a abrir, com Frankie na frente e os demais atrás.
“Fran?” Um menino que deveria ter uns 8 anos, pele escura e cabelos crespos surgiu por trás do deslizar das portas. Ele arfou e abriu um sorriso entusiasmado, se jogando nos braços de Frankie. “Fran!!!”
“¡¡¡Hermanito!!!” Ela o suspendeu e girou com ele nos braços, rindo e dando beijos no alto da cabeça da criança, levando-a para fora do vagão. “Que saudades de você!”
Cassidy a seguiu, mas virou o rosto. Era estranhamente desconfortável ver aquela reunião familiar acontecendo na frente dele. Mesmo na plataforma lotada e barulhenta, ele se sentia um intruso ali, assistindo aos irmãos rodando naquele frágil momento que ainda tinha o privilégio de acontecer.
Cole percebeu que Ashe também evitava a cena, limitando-se a andar olhando para o chão, seu rosto escondido por debaixo do capuz. B.O.B. estava virado para frente, piscando os olhos alegremente.
Pelo canto do olho, Cassidy viu o resto da família de Frankie recebê-la com abraços e expressando suas saudades.
“Então esses são nossos convidados especiais?” O comentário chamou a atenção de Cassidy. Ele se virou e viu um homem bem vestido — estilo vintage — forte, de estatura média e pele negra como ébano sorrindo calorosamente para ele e oferecendo um aperto de mão. “É você o tal do Bez de quem eu tanto ouvi falar?”
O rapaz sacudiu a cabeça, mas o cumprimentou.
“Não, o nome é Cassidy.” Ele abaixou e levantou a aba do chapéu com a que estava livre. “Cole Cassidy.”
“Então você é o Bez!” O homem abriu os braços para B.O.B., que juntou os pulsos formando um ‘X’ com os braços.
Confuso, o pai olhou para Ashe.
“Bez?” Ele fez uma última tentativa.
A garota também negou, levantando a cabeça, um efêmero meio sorriso atravessando seu rosto.
“Esse é o B.O.B.” Ela virou a mão na direção do omnico, que o cumprimentou com o chapéu, e depois a colocou sobre o peito. “E meu nome é Ashe.”
“Bez queria muito vir, pai.” Frankie o segurou pelo ombro com tom de pesar. “Mas talvez essa seja a última chance dele ver o pai de novo, então eu insisti para ele passar esse Natal no México.”
“Oh…” o rosto do pai de Frankie murchou. “Não vai ser dessa vez que vou conhecer meu genro…”
Cole soltou uma risada, que soou mais como uma tosse, e lançou um olhar de ‘não te falei?’ para Ashe, que arregalou os olhos de volta para ele. B.O.B. levou uma mão à frente do bigode, encabulado.
Frankie arfou, olhando para trás, o rosto mais corado do que o normal.
“Pai, nós somos só amigos!” A voz da moça soou como o zumbido de um mosquito.
“Ah, perdão, filha, eu entendi tudo errado!” Sua voz tinha um profundo tom de desculpas, mas não havia nenhum indício de confusão em seu rosto. Ele ajeitou a gravata por baixo do colete. “Espero que ela possa vir ano que vem, agora que o salário dessa nova empresa é melhor!”
Sim, o salário da empresa. A empresa de “venda de usados” que pagava a eles o suficiente para bancarem roupas de alfaiataria e vagões VIP em hiper-trens. Foi só quando Cole sentiu uma cotovelada em seu braço vinda de Ashe que ele se percebeu confirmando vigorosamente a fala do pai de Frankie com a cabeça.
“Eu também…” A hacker suspirou e deu um passo para o lado, pronta para mudar de assunto. “Mas vamos às apresentações: Cole, Ashe e B.O.B., estes são meu pai, Noah.” O homem de antes assentiu com a cabeça para eles, dando um sorriso cortês. “Minha mãe, Vanessa.” Uma mulher muito parecida com Frankie, exceto pela idade e pelos cachos ruivos ao invés de lilás, acenou energeticamente. “E meus irmãos, Fernando”, um menino de abafadores coloridos encarava B.O.B. com fascínio por trás da mãe. “E… cadê o Elijah?”
“Ei!” Ashe girou quando o capuz caiu de sua cabeça de repente, Elijah boquiaberto atrás dela.
“O seu cabelo é branco!” Elijah gritou, as mãozinhas ainda grudadas no que puxou. Ashe empalideceu, tateando as costas e arrancando o capuz da mão do garoto com certa violência, pondo-o de volta na cabeça. A hacker não conseguiu conter o riso.
“Ei, foi você que fez?” A mãe de Frankie se aproximou para pegar Elijah pela mão. “Ficou super legal, não precisa ter vergonha!”
“Hã…” Ela foi pega desprevenida com o elogio. “V-valeu.”
Frankie e sua família se dirigiram à saída, convidando o trio a acompanhar com um gesto de mão. Ela disse que precisariam passar no mercado antes de ir para casa para comprar as últimas coisas para a ceia à noite — algo que o pai de Frankie protestou contra, mas a mãe insistia que as promoções boas só aconteciam à tarde.
Caminhando pela plataforma lotada, cheia de telas brilhantes de letreiros e anúncios e repleta de outras pessoas com cabelos coloridos — inclusive platinados — Cole observou Ashe baixar o capuz devagar, a cabeleira branca já desgrenhada por conta da fricção do tecido. Ela se voltou para Cole, que desviou o olhar, sentindo as bochechas esquentando involuntariamente.
“Está tão ruim assim?” Ela passou a mão pelos fios, tentando ajeitá-los.
“Não!” Ele respondeu olhando pra frente, desajeitado, mas logo se armando de um sorriso esperto e lhe dando uma piscadinha: “Combina com você.”
Ashe revirou os olhos, mas ele viu uma sombra de humor em seu rosto. Ele relaxou, celebrando internamente a interação bem sucedida, até que um calafrio subiu pela sua espinha.
Ele sentiu aquela presença sinistra mesmo antes de vê-lo. Um rosto conhecido, severo, o encarava ao longe por trás da garota ao seu lado. Cassidy piscou por um segundo e o homem desapareceu de vista, o que fez Cole questionar se só não estava imaginando coisas, apesar de seus instintos lhe dizerem para não baixar a guarda.
“Melhor a gente correr, Frankie já está muito lá na frente!” Ele arrumou um motivo para apressar Ashe e B.O.B., que apertaram o passo.
Alucinação ou não, não faria mal sair de vista logo.
Cole verificou discretamente cada corredor do mercado enquanto faziam compras. Nada. Nenhum sinal de Reyes. Nem mesmo por trás das portas acessíveis apenas aos funcionários. Talvez o estresse da noite passada tenha o afetado mais do que ele imaginava.
O mercado era pequeno e ficava no alto de uma ladeira, onde Vanessa estacionou o carro. B.O.B. e Frankie decidiram para trás para garantir que o carro ainda estaria ali quando o resto voltasse, já que não havia permissão para estacionar ali e a polícia oportunista de Nova Iorque não recusaria uma grana fácil com um reboque.
O estabelecimento estava lotado. Realmente, em basicamente todas as prateleiras havia alguma promoção. B.O.B. A Vanessa e Noah logo encheram duas cestas de suprimentos e correram para uma das enormes filas para o caixa, de olho nos filhos que viam toda mercadoria como um brinquedo.
Um mar de gente impaciente era um ótimo lugar para se esconder, mas o olhar atento de Cole não o deixaria escapar se ele aparecesse.
Não, ele só não estava lá.
Mas também, Cole pensou, mesmo que Gabriel tivesse mesmo os seguido até Midtown, o que ele queria? Matar B.O.B. em um mercado cheio? Tirar satisfações com Ashe enquanto ela estava na fila com a família de Frankie? Mesmo que ele estivesse ali em algum lugar os observando, eles não estariam em perigo imediato.
Se reunindo com o resto do grupo que esperava no corredor de enlatados sua vez de pagar pelas compras, Cole apoiou o lado do corpo em uma prateleira, colocando a aba do chapéu para trás e cruzando os braços, ainda em alerta.
“Que bicho te mordeu, Cassidy?” Ela o lançou um olhar frio, o que o fez endireitar a postura, disfarçando sua tensão. Ela levantou uma sobrancelha, analítica: “Você viu alguma coisa suspeita?”
A música de Natal tocando nos alto-falantes do mercado preencheu o silêncio de Cole.
“Hã, eu achei que tinha visto um cara te olhando estranho na estação…” Tecnicamente era verdade. “Só estou de olho pra ver se não vai acontecer de novo.”
“Eu sei me defender, relaxa.” Apesar de séria, ela pôs uma mão em seu ombro com delicadeza e não tirou. “Já quebrei a cara de muitos valentões na escola.”
Cole se lembrou de quando a viu pela primeira vez, na cela ao lado da sua na delegacia de Bellaire, no Texas. Sua roupa de escola de elite estava amarrotada e com respingos vermelhos que batiam com o jeito que um jato de sangue de um nariz quebrado jorrava.
Noah e Vanessa estavam debatendo se deveriam procurar pelos filhos — pelo que ele entendeu, Elijah levou Fernando para o corredor ao lado pegar doces e já deveriam ter voltado — e não prestavam muita atenção neles. Cole decidiu deixar a máscara de funcionário de empresa deslizar um pouco.
“Eu sei.” Ele levantou uma sobrancelha para ela com os lábios curvados. “Eu só não quero conhecer a delegacia de Midtown também.”
Ashe sorriu por um segundo, mas logo sua expressão se esvaziou, algo que estava acontecia desde a discussão entre Bez e Frankie.
“Mas e você?” Ele decidiu finalmente abordar a questão, deslizando os dedos por entre os dela. “O que tá te assombrando que não te deixa rir das minhas piadas direito?”
A garota suspirou, recolhendo ambas as mãos para dentro dos bolsos do casaco.
“O Natal.” Ela respondeu sem olhar para ele. “As decorações cafonas, as músicas irritantes e todos esses rituais idiotas me dão nos nervos.”
“Você parece mais triste do que com raiva.” O rapaz arriscou pressionar.
“Está dizendo que sabe mais dos meus sentimentos do que eu?” Ela rebateu, seus olhos como adagas e sangrentas fuzilando-o sem piedade.
“Estou dizendo que eu me importo com você.” Sua língua foi mais rápida do que seu cérebro. Aquela foi uma resposta ousada demais, afetuosa demais. Ashe provavelmente se fecharia mais ainda. Cole mordeu o interior da bochecha, se xingando mentalmente e esperando o próximo baque.
Mas a expressão da garota se suavizou e, vendo os pais de Frankie distraídos com seus próprios problemas, ela bufou, olhando para o teto.
“Eu queria gostar disso tudo.” Ela riu sem humor. “Queria estar feliz, mas toda vez que eu tento, eu lembro dos meus pais.”
Ela parou, mas Cole esperou.
“Esse era o único dia no ano que eles me davam atenção, sabe?” Ashe continuou, brincando com uma mecha emaranhada de cabelo. “Ficavam falando e falando para os amigos ricos que ceiavam lá em casa como eles estavam orgulhosos de terem uma filha tão bonita, e eu adorava no início. Mas aí eu me toquei que eles só estavam me usando pra melhorar a imagem deles com os executivos, como tudo o que eles faziam. Pra eles eu era só uma boneca que eles brincavam de arrumar pra impressionar acionistas e depois largar de volta no porão.”
Cassidy começou a pensar no que dizer, quando foi interrompido por um grito estridente. Noah e Vanessa imediatamente entregaram as cestas de compras aos dois e saíram ambos da fila. Ashe pegou a que Vanessa a entregou pela base, segurando-a pelas alças apenas quando a mulher já a havia soltado.
“Pra mim o Natal pra mim é uma grande farsa.” Ela cuspiu, vendo o casal se afastar. “Pessoas fingem estar alegres e terem famílias perfeitas, o que, no final só fazem o dia massante, sufocante!”
“Eu não acho que eles estejam performando perfeição.” Cole discordou casualmente, pondo sua cesta no chão.
“Não é porque não estão conseguindo, não quer dizer que não estejam tentando.” Ela pôs a mão livre na cintura.
“Ah, vai, eles só estão tentando ser corteses!” Ele transferiu o peso de uma perna para outra. “Se estivessem mesmo querendo se pintar como modelo ouro de família, o menorzinho estaria amordaçado em casa, não correndo livre num mercado.”
O mesmo grito de antes inundou o corredor, mas dessa vez acompanhado de um intenso barulho metálico. Do final do corredor, Elijah surgiu correndo empurrando um carrinho de supermercado contendo um Fernando risonho que soltava gritinhos periodicamente. Noah e Vanessa apareceram correndo um tempo depois, arfando.
“Parem eles! Parem eles!” Os pais gritavam para a dupla na fila.
Cassidy se posicionou no meio do corredor, forçando Elijah a diminuir a velocidade. Ashe segurou a ponta mais baixa do carrinho antes que batesse nas pernas dele.
Os pais dos meninos cambaleram ao encontro deles, agradecendo aos dois pela retomada de controle da situação e questionando porque o garotinho tinha feito aquilo.
“Nandinho não parava de chorar porque o robozão não veio com a gente, aí eu tava tentando fazer ele rir!” Foi sua resposta.
Ashe ainda segurava o carrinho, seus olhos brilhando com o fascínio de uma criança arteira tentada pelo caos. Um brilho que, mesmo depois de soltá-lo e devolver a cesta à Vanessa, não se desfez. Cole abriu um sorriso pernicioso, se posicionando atrás da grade traseira, segurando o cabo.
“Eu e Ashe vamos lá fora colocar isso no lugar pra vocês.” Ele fez um gesto de cabeça para a garota, que, sem conseguir conter a animação ao perceber o olhar travesso do amigo, balançou a cabeça. No entanto, os agradecimentos aliviados dos anfitriões a pressionaram a acompanhá-lo em direção à saída.
“Pode subir, eu te empurro.” Cassidy propôs em voz baixa uma vez que estavam fora da vista do casal.
“Essa é uma ideia idiota, a gente vai acabar se quebrando todo!” Ela murmurou de volta, o sorriso amassado em seus lábios contradizendo o bom senso de suas palavras.
“Ei, a juventude tá aí pra isso!” Cole argumentou enquanto eram recebidos pelo vento gelado do estacionamento ao ar livre. “Quando a gente for mais velho e estiver cheio de dor nas costas, não vai dar mais pra fazer essas coisas. É agora ou nunca!”
Os olhos de Ashe estavam tão cheios de energia que Cassidy sentiu um choque ao vê-los. Ali a estava a amiga que conhecia, aquela que explodia galpões de armas, trens de carga e cofres de jóias em busca do próximo “item usado” para vender. Ela pulou no carrinho, ficando agachada na parte da frente, pondo as mãos nas bordas laterais.
O horizonte de Nova Iorque não estava coberto por uma nuvem de areia como o do desfiladeiro Deadlock, mas composto de arranha-céus que reluziam ao refletir o sol ainda no topo do céu. Cole ajeitou o chapéu para bloquear a luz de atingir seus olhos e empurrou Ashe até a beirada da ladeira, na calçada.
“Três, dois, um!” Com um pé no apoio das rodas e o outro atrás de si dando um último impulso, Cole e Ashe começaram uma descida acelerada pela ladeira aos berros.
Usando os corpos para fazer o carrinho desviar dos buracos no caminho, os dois voaram pelo chão como em trilhos de montanha-russa. Os dentes de Cassidy doíam com o vento e as mãos de Ashe estavam brancas com o frio, mas o calor da adrenalina que não os deixava parar de gritar era suficiente.
O fim da descida chegou rápido, e com ela seu chapéu se foi, permitindo um feixe de luz refletida de uma janelas bater nos olhos do garoto, impedindo-o de acompanhar o movimento da outra na tentativa de desviar de uma placa.
O impacto veio com tudo e Cassidy voou para frente, deslizando pelo asfalto sobre os joelhos e braços. O fogo da carne esfolada ardeu em sua alma e ele não precisou olhar para saber que aquela seria a última vez que usaria sua calça nova e a jaqueta de Ashe.
Atrás dele, Ashe estava deitada de costas na calçada, o carrinho a poucos metros de distância, um rastro de sangue entre eles. Toda a dor que Cole sentia sumiu num piscar de olhos, o pânico sendo seu combustível na corrida que se sucedeu.
Com metade do rosto coberto de sangue que vinha de um corte acima de sua sobrancelha direita e com a cabeça sobre uma poça que coloria seu casaco e seu cabelo de vermelho, Ashe portava um sorriso bobo. Um segundo de confusão atravessou seu rosto quando Cole se ajoelhou ao seu lado, branco, que se desfez quando viu o sangue nas mãos dele.
Ele a ajudou a se sentar vendo-a perder ainda mais cor ao perceber o estado da calçada abaixo dela e sujar os dedos ao tocar no próprio rosto.
Seus olhos encontraram os de Cassidy, mas ao invés de aterrorizados, como os dele, estavam possuídos da forma mais pura de euforia. O sorriso em seus lábios foi aumentando à medida que um riso baixo se transformava em gargalhada e explodia em grito.
“Isso foi incrível!” Suas pupilas estavam dilatadas, as íris vermelhas quase invisíveis sob elas. “Incrível, incrível, incrível!!”
Cole se pegou rindo também, zonzo, sem saber se pelo o cheiro acobreado de sangue ou se pelo som inebriante da risada de Ashe, que reluzia de felicidade, encantadora como uma rosa que acabara de desabrochar.
Passos metálicos pesados junto de sons de saltos estalando tiraram Cole do transe.
B.O.B. pegou Ashe pelos braços, colocando-a de pé e a segurando quando cambaleou para o lado. Depois, ofereceu uma mão para Cole, que a usou de apoio para se levantar, ficando tonto no processo, a queimação em seus membros voltando com tudo. Ele apertou os olhos de dor.
“O que deu em vocês?!” o horror estava estampado na voz de Frankie. Na descida, estavam indo tão rápido que nem perceberam quando passaram pelos dois. “Vocês precisam de um médico, urgente! Eu vou ligar para a minha tia!” Ele escutou a batida rítmica de seus saltos enquanto esperava sua ligação ser atendida.
Cole sentiu um braço passar pelas suas costas e encaixar sua cabeça em um ombro úmido. Ele abriu os olhos, dando de cara com o cabelo empapado de sangue de Ashe.
“Foi mal pela sua jaqueta.” Ele sentia a testa ficando gelado e viscoso, mas sentiu seu coração se aquecer. Ele não se mexeu.
“Ela já não era mais minha e você sabe disso.” Ela lhe passou seu chapéu com a mão livre. Cole agradeceu pelo tecido ser escuro.
B.O.B. conectou um dos braços a um hidrante, usando o outro de mangueira para limpar calçada e do asfalto, que Cole havia manchado sem perceber.
“Quando ela chegar, entrem rápido no carro.” A hacker os fitou, séria. “E por favor, não deixem meus pais, e principalmente meus irmãos, verem vocês assim!”
“Vocês têm sorte de não terem perdido os dentes nessa brincadeira!” A tia de Frankie, que se apresentou como Paloma, reclamou, ríspida. Era uma mulher tatuada de quadris largos e cabelos raspados cujas mãos firmes e precisas suturavam a abertura perto da sobrancelha de Ashe, que estava deitada na cama do quarto que ela dividia com sua esposa, Larissa.
O corte não era tão profundo quanto parecia ser na hora do acidente, o que era um alívio. Sentando na poltrona ao seu lado, Cole mordia os lábios enquanto ela, de olhos fechados fechados, franzia o cenho, se esforçando para se manter imóvel enquanto a agulha e a linha costuravam sua pele.
Sob os cuidados de Larissa, Cassidy descobriu que a ardência em seus membros esfolados vinham de queimaduras, segurava panos úmidos em seus braços enquanto a esposa de Paloma limpava seus joelhos. O rapaz agradeceu estar de calça e jaqueta, pois não saberia o estado de seus membros se o tecido não estivesse ali para absorver o impacto.
Talvez precisando de mais pontos que Ashe, que estava no sexto.
“Pronto, querida.” Ela finalizou o último ponto. “Se você sentir enjôo ou tontura nos próximos dois dias, vá pra emergência, ok?” Ashe assentiu e a enfermeira se virou na direção de Cole. “E você, vá se sentir febre e sinais de infecção.”
Cole repetiu o gesto de Ashe. Os dois trocaram olhares furtivos, sabendo que nunca pisaram em uma emergência, não importava o que acontecesse. Seriam pegos pela polícia na hora.
“Na verdade, vocês deveriam estar no hospital fazendo exames agora.” Larissa levantou, recolhendo o material sujo, incluindo os panos nos braços do rapaz. “Mas não queremos chafurdar vocês em dívidas nesse maldito país que não tem sistema público de saúde.”
“Sim, mas por enquanto vamos apenas observar.” Paloma bufou. “Minha linda, você não vai poder molhar a cabeça pelos próximos dois dias, então vamos te ajudar a limpar esse cabelo.” A garota olhava para Cole como se pedisse para não ser deixada sozinha com o casal. “Mas você, rapazinho, pode ir tomar banho e se arrumar. Meu cunhado guarda algumas roupas aqui em casa, você vai ficar bem com os coletes e blazers dele.”
A enfermeira abriu uma cômoda, de onde tirou uma toalha, e depois um armário com várias roupas cobertas com capas de proteção.
“Esse aqui Noah nem deve lembrar que tem de tão antigo!” A tia de Frankie puxou o zíper e revelou um conjunto completo de terno azul-marinho e camisa branca com uma gravata vermelha dignos de serem usados por um bilionário. Eram roupas de qualidade que o pai de Frankie com certeza investiu muito dinheiro para ter. Mesmo as roupas novas que Cole destruiu na queda não chegavam àquele nível. “Deve dar em você. O banheiro é a primeira porta à direita depois da sala de estar.”
Recebendo os itens, um pouco lisonjeado, Cassidy foi para a porta, olhando uma última vez para a amiga, que parecia desapontada ao vê-lo de saída.
Ele pensou em usar isso para provocá-la de alguma forma, mas, por causa da presença das tias de Frankie, ele preferiu manter uma postura de bom moço, limitando-se apenas a lançar-lhe um sorriso tranquilizador e dizer que não iria demorar.
Debaixo da água morna do chuveiro, Cassidy via o sangue descer pelo ralo enquanto passava as mãos pelos ferimentos, os quais só agora conseguia ter uma real dimensão. Seu braço direito foi o mais afetado, era o que estava ralado e vermelho. Nos joelhos arranhados estavam começando a aparecer hematomas. A dor, apesar de menor, ainda persistia, assim como as memórias longínquas da última vez que se machucou daquele jeito.
Uma irmã de partida para um programa militar. Cole correndo com a mochila dela e subindo num cavalo sozinho pela primeira vez. O galope descontrolado do animal e a queda dos dois de uma ribanceira. O choro da criança e a risada da irmã.
“Eu vou te ensinar a andar de cavalo de verdade quando eu voltar!” Lindsay prometera.
Poucos anos depois, sua fazenda seria atacada e perderia suas mães, ficando à própria sorte, pulando de trabalho em trabalho por um prato de comida. Por um teto para protegê-lo da chuva. Ele não tentou reprimir as lágrimas que se misturavam com a água que caía e nem a sensação de compressão em seu peito, mas tentou fazer o possível para que aquela onda de tristeza passasse logo. Afinal, ele não tinha a tarde toda. Estava prestes a comparecer a uma festa de família — e usando um terno de alfaiataria, ainda por cima!
Abotoando o último botão do blazer, Cole passou a mão pelo cabelo molhado, mal reconhecendo seu próprio reflexo no espelho do banheiro. Mesmo com os braços enfaixados por baixo do tecido, ele poderia muito bem se passar pelo filho de algum dono de empresa, que com certeza estaria em uma festa na mansão dos pais de Ashe. Ele fez uma arminha com os dedos e deu uma piscadinha para si mesmo, imaginando como ela reagiria ao vê-lo daquele jeito. No entanto, considerando sua opinião sobre os convidados das festas luxuosas dos pais, provavelmente não seria muito boa.
Primeiro, ele desabotoou o blazer, mas depois decidiu tirá-lo completamente, ficando apenas com a gravata e o colete por cima da camisa, a qual ele enrolou as mangas até os cotovelos. Como toque final, ele pôs o chapéu imperceptivelmente ensanguentado na cabeça, virando-se de costas e jogando a cabeça por cima do ombro, admirando-se no vidro embaçado. Elegante, mas com um toque de rebeldia. Agora sim.
Pronto para a festa, que aconteceria na casa de Noah e Vanessa logo ao lado, ele se atirou pela porta, ouvindo Frankie e B.O.B. conversando na sala. Cole se apoiou com um braço na parede ao lado da entrada do cômodo, esperando os dois notarem-no.
“Ah, que bom, você está decente de novo!” Frankie suspirou aliviada e B.O.B. levantou um polegar sem muito entusiasmo. Cole sentiu seu ego despencar como um castelo de cartas.
“As roupas do seu pai fazem milagres!” Ele tentava disfarçar sua decepção com um sorriso carismático quando a porta do quarto do fim do corredor se abriu e seu corpo ficou dormente.
Com um vestido longo, escuro como carvão, adornado de fios dourados que dançavam em padrões espiralados desde o torso até o chão, ela parecia um ser sobrenatural. Solto, o cabelo branco reluzia caindo sobre seus ombros, e o vermelho-sangue em seus lábios refletia a cor do poder sempre presente em seus olhos.
“Cassidy?” Cole ouvia a voz da hacker ao longe. “Tá tudo bem? Parece que você viu um fantasma!”
Quando Ashe chegou no limite da parede do corredor, a outra pareceu compreender a reação de Cole.
“Garota, você está radiante!” Ela levou as mãos ao rosto enquanto um animado B.O.B. batia palmas. “Por que você não colocou esse vestido no trem?!”
“Porque, como eu disse, ele é muito chamativo!” A moça respondeu entre dentes, argolas douradas brilhando sob o cabelo claro. “Era da minha mãe, um dos favoritos dela, eu peguei quando fui embora de casa só pra deixar ela com raiva.” Ela revirou os olhos delineados. “Mas B.O.B. colocou ele na minha mochila, suas tias acharam e me convenceram a ir pra festa com ele.”
“E graças a Deus por isso!” Frankie se levantou, desamassando o vestido e passando por Ashe, indo em direção ao quarto das tias enquanto B.O.B se dirigia ao lado de fora da casa. “Deixem eu só dar uma palavrinha antes da gente ir, sim?”
A garota fechou a porta atrás de si, deixando Ashe e Cole sozinhos, um de frente para o outro.
“Então…” Cruzando os braços, ela se recostou na parede de lado e fez um movimento com os ombros. “Como eu estou?”
Ah, então ela queria a opinião dele sobre ela? Cole abriu um largo sorriso travesso, deliciando-se com a situação.
“Não sabia que a minha opinião era tão importante pra você, Ashe.” Ele baixou a aba do chapéu, deixando-o charmosamente desencaixado sobre a cabeça.
“Ela é relevante.” Ashe o olhou de cima a baixo com aparente desinteresse. “Não quero passar vergonha por estar arrumada demais.”
“Engraçado…” Ele acariciou o queixo, olhando fundo em seus olhos desafiadores. “Até hoje mais cedo você nem queria pentear o cabelo pra festa de Natal e agora está preocupada com ter se arrumado demais?.” Ashe continuava impassível, encarando-o com a seriedade de quem tem está do lado da verdade. E, realmente, ela não era de mentir.
“Eu queria muito saber o que elas fizeram pra te convencer a colocar esse vestido…” Cole pôs as mãos nos bolsos, lamentando não poder acender seu charuto para aproveitar aquele momento. “Será que elas disseram que eu ia gostar de te ver nele?”
Os olhos dela se arregalaram e ela desviou o olhar para a parede.
“E você?” Ela apontou um dedo para ele, o sangue por baixo da sua pele colorindo o rosto pálido. É claro que ela não deixaria barato. “Não botou o blazer e puxou as mangas pra me agradar?”
“Ah, então você gostou?” Ele apontou para si mesmo com um gesto grandioso. “Muito bom saber que te agrado, Ashe.”
“A sua aparência é o de menos, Cassidy.” Ela levantou o nariz, mostrando os dentes. “Seu ego já te torna desagradável o suficiente!”
Ai, aquela doeu e, pelo sorriso triunfante no rosto de Ashe, ela percebeu. Cassidy já estava com uma resposta na ponta da língua quando Frankie saiu do quarto, as mochilas de seus amigos em seus ombros.
“Vamos, já está escurecendo!” Ela foi de encontro a B.O.B. do lado de fora. Ashe deu as costas para Cassidy, a vitória em seus ombros, se dirigindo à saída. Mas antes que pudesse sair de seu alcance, Cole a segurou pela mão. Ela se virou, o preto ao redor dos olhos intensificando seu olhar irritado.
“Ei!” Ele disse com a voz mansa. “Você está incrível!”
Um sorriso sincero desabrochou por entre os lábios vermelhos da garota, as bochechas tingidas de um tom mais suave da mesma cor.
“Obrigada!” Ela pôs uma mecha para trás da orelha. “Você também está!”
Cole sentiu uma onda de energia atingir seu coração e ele escondeu o rosto quente sob a aba do chapéu, disfarçando a ação como um gesto de agradecimento.