Tantas coisas ditas. Tantas lágrimas e lamentações. Tantos abraços e tentativas de conforto. Palavras e atitudes jogadas ao ar?
Você está se tornando aquilo que você disse mais odiar.
Curioso é como às vezes nos tornamos aquilo que mais odiamos. Que quanto mais escovamos nossos dentes, mais nossa boca se imunda e emanam hálitos fétidos daquilo que tentamos em vão limpar.
Enchi a boca d’agua fria e bochechei. O movimento era quase que automático enquanto eu fitava no espelho a figura de um homem que me parecia de longe muito familiar.
O que existia no olhar daquele homem que me intrigava? Que tipo de alma era aquela que quanto mais a fundo eu olhava mais cócegas eu sentia onde, anatomicamente, fica o coração?
Aqueles olhos tinham um oceano de emoção. Oceano que vi transbordar através das minhas próprias glândulas lacrimais.
Mais pasta anticárie e mau hálito. Mais escovadas rígidas.
Levantei novamente a cabeça ao espelho e ali ele ainda estava, sorrindo pra mim. Não sabia distinguir se era um sorriso afável que me acalentava ou se era um sorriso seco e cínico que zombava do meu choro.
Eu me lembrei dele. De um outro alguém que não fazia parte dessa equação.
Por muito tempo não senti uma dor, assim, pungente. O beijo veio claro, molhado, quente. Pungido com a frustração? Pungido com indiferença? Pungido pela mão que pungia ou afagava? Seria o afago uma forma de pungir? Há de ser, minha cara Elis, sim inutilmente? Teria você mentido pra uma geração de opressão e esperança?
De qualquer forma, eu me lembrei do homem no espelho. Me lembrei de como um dia ele sorriu. De como os olhos dele brilharam. Que lindo era aquele brilho! Lindo como se quem visse não quisesse que fosse apagado jamais...meras ilusões! Que lindo era o sacrifício, ver sua alma roxa, esbugalhada, manchada com o sangue pisado querendo explodir na forca. E ainda assim concebia um sorriso com todos os seus 5 sentidos e seus respectivos órgãos.
As mãos, abraçavam, os olhos brilhavam, os ouvidos ouviam À Primeira Vista, o nariz sentia o cheiro de cigarro, café e rosas que confortava, e a boca traçava a curva mais linda do corpo de um humano qualquer.
Senti meus joelhos trêmulos. As Leis de Newton pareciam me atingir súbita e violentamente. Logo me acalmei e percebi que o que acontecia naquele momento era a lembrança que o homem no espelho tentava colocar em minha mente.
Os seus joelhos, um dia, cederam.
Sem forças. Sem motivação.
Caíram como quisessem orar a um ser superior no qual nunca haviam crido. No chão sujo, o homem no espelho se deixou ficar em posição fetal e competia com o chuveiro (ligado previamente para aquecer o ambiente) para ver quem conseguia gastar maior quantidade de água. O sal secava sua pele, a dor o ensurdecia e o sofrimento e frustração amarravam suas mãos frente aos olhos para que esses não pudessem ver a humilhação.
Mas a humilhação era sentida.
Todos os ossos de seu corpo reverberavam a humilhação. O fígado implorava o esquecimento, mas também reverberava a humilhação. Seus pulmões suplicavam por ar puro, assim reverberando a humilhação. Ele fitou a água caindo intermitentemente. Entrou. Seu corpo conseguiu se levantar depois de um desconfortável alívio crônico.
O homem no espelho fitou a parede a sua frente e tirou uma conclusão ao vê-la: ela era linda! Incolor, inexpressiva, inodora, imaleável.
Prepotente, rígida, fixa, gelada.
Me peguei observando a mesma parede alguns anos depois e me lembrei exatamente de como eu me senti naquele momento.
Eu me lembro de quão doce era o gosto da frieza naquele momento; de quão linda era a melodia do desdém quando proferida; de quão sublime a indiferença parecia ser ao voar livre pela brisa gelada dos meus não desejados sentimentos.
TumTumTum. Eu ouvia meus batimentos e sentia minha pulsação. Puxava o ar e minha cabeça se entontecia do vortex de lembranças de quando fui humilhado.
Soltava o ar. TumTum. Cada vez menos eu sentia os batimentos, a pulsação, a tontura, a dor, o sal, a secura, a rigidez, a gelidez, a prepotência.
Eu sabia que não sairia de lá o mesmo, e decidi vestir como camiseta o desdém e como calça a indiferença, e me empenhei em transmitir minha moda às pessoas.
Como o mundo estava doente. O câncer se alastrava até se tornar a doença que é hoje.
Como eu poderia deixar que alguém que me machucasse tivesse controle da minha vida? O orgulho taurino não poderia permitir. Eu enxergava. Enxergava que ao escolher a indiferença e a frieza eu deixava tudo aquilo que me fez mal tomar a frente da minha vida e das minhas decisões. Enxergava que, daquela forma, eu deixava a humilhação vencer. Enxergava que tomava decisões amargas. Enxergava que tal qual meus ossos, mãos, fígado e pulmões, eu também reverberava a humilhação e a dor em meus semelhantes. Eu, a partir do momento que abracei o desdém e beijei a indiferença, me inseri como agente no ciclo vicioso que adoecia o mundo.
Ao fazer amor com a frieza, eu validei Bauman.
Ao escolher me tornar forte sendo frio e indiferente, eu estava me tornando os covardes que eram os responsáveis por adoecer o mundo.
Percebi, rindo, que na verdade o homem no espelho se escarnecia de mim. Percebi que o escárnio era seu aviso de que eu estava novamente me tornando o que um dia eu quis me tornar. Percebi que me julgava idiota e que a covardia mais uma vez me enganava a desposá-la para ter uma vida feliz.
O sofrimento é aquele seu “professor melhor amigo” cruel, inteligente, sábio e sagaz. Dizem que apenas aqueles que sabem tirar o máximo de conhecimento desses professores serão alguém de sucesso. Meu melhor amigo queria me aconselhar e eu dava com a porta na cara dele. Minha mesquinhez me fez crer que o único termo certo dessa equação toda era exatamente o termo que me destruiu, pois, mais uma vez, estava eu tornando aquilo que eu disse mais odiar.
Que pena de mim. Que digno de escárnio eu era.
Quantas oportunidades eu estava perdendo? Quantas chances de experimentar o que poderia me fazer bem e mais feliz eu queria perder em virtude de amargura e remorso? Quantas vezes eu precisaria apanhar e ser escarnecido por mim mesmo até que eu visse que o motivo de todo meu sofrimento era tentar afastá-lo, ao invés de dar-lhe as mãos e dançar. Ele só queria me guiar para lugares melhores. Pessoas melhores. Vivências melhores.
“quando não tinha nada eu quis
quando tudo era ausência esperei
quando tive coragem liguei...
O homem no espelho só queria dançar.
...quando chegou carta abri
quando o olho brilhou entendi
quando criei asas voei...
...quando me chamou eu vim
quando dei por mim tava aqui
quando lhe achei me perdi
quando vi você me apaixonei”.