cativeiro; cativa
Às pessoas sempre dizem que as manhãs têm cara de renovação. Não para mim. Eu abro os olhos, vejo os raios de Sol inundando meu quarto e a vontade que tenho é fechar as janelas. Fechar os olhos e sumir em meio os lençóis, até que eu desapareça no algodão que cobre meu corpo. Às manhãs pra mim tem cara de mais do mesmo, dos problemas que arrastei e não resolvi. Consigo ver a trilha de sangue deixada por eles, até o pé de minha cama.
Me levanto e tomo um café. Fecho os olhos, respirando fundo, encostada no balcão da cozinha. Ultimamente eu tenho me sentido sozinha. Mas a solidão tem suas várias facetas, ela também pode ser boa. A minha é esmagadora. Eu não consigo alcançar ninguém e dizer o que sinto, por vezes me sinto sem voz. Tão sozinha que é como se eu não pudesse falar, ou ouvir, ou me expressar. Nessas horas, minha casa parece uma jaula e eu me sinto um esqueleto de alguma criatura que um dia já fora muito bela e que muitos um dia adoraram admirar. Eu me sinto um cemitério de esperanças boas, um jardim imenso de quases, que cresce e cresce sem parar.
Em minhas frustrações, fico agressiva. O dia pra mim, possui oitenta horas, e eu não sei o que fazer com tanto tempo em mãos. Futuco as feridas, abro mais outras, tento tirar os espinhos que cresceram em minhas patas traseiras. Mas eu precisaria de ajuda. Ajuda que nunca chegaria, eu tendo a ser feroz em determinados níveis de proximidade, e as pessoas já não estão dispostas. Mas as primeiras horas do dia são as piores, meu humor é uma merda. E eu odeio todos que já se passaram por minha vida. Rosnar esperando uma mudança vinda de uma força maior, não adianta.
Então me deito novamente na cama, que já me conhece tão bem, que já possui meu cheiro, e me aninho em um travesseiro fingindo ter companhia. Eu digo: depois do meio-dia, você vai fazer suas coisas. Minha cama me diz que tudo bem se eu ficar lá, até meus músculos atrofiarem-se. Desliga o celular e apenas durma. Era o que eu queria, não minto. Dormir até a jaula derreter-se e virar nada mais do que cinzas do passado de quando eu não sabia o que fazer comigo. Se eu fosse um bicho, eu certamente seria parte de um bando, eu jamais sobreviveria sozinha. Mas eu caminho inquieta, por um espaço limitado, até que minhas habilidades de caça, de convívio vão se perdendo.
Por vezes eu arrisco, saio e me vejo sem palavras. Sem saber conversar, sem saber rir de verdade. Sem saber sequer se entrosar, eu vejo os outros e os invejo. Meus amigos passam a me olhar com estranheza, mas eu me esforço para fingir qualquer naturalidade. Eu me acostumei demais com o cativeiro. As manhãs são muito difíceis para mim, porque eu acordo sempre no mesmo lugar. Eu sento no chão da cozinha e choro um pouco. Chorar faz bem, é o que dizem, mas as lágrimas caem sobre meus lábios e seu sabor salgado me faz lembrar ainda mais da minha cama, da minha solidão, de minhas mãos vazias.
Eu confesso, tem dias que quero ser cuidada feito uma criança. Mimada como se eu tivesse acabado de chegar a este mundo. Minha solidão é palpável, ela se parece com os amigos que me olham com perplexidade, com dó. Ela se parece com os amores que dizem que não podem dar conta de minha intensidade, ela se parece com minha incapacidade de sair da inércia. Com minha insegurança em relação a cada ser humano que um dia eu disse gostar ou amar. Minha solidão tem cara de covardia, ela tem cara dos dias que eu nem me dei trabalho de tomar banho, de evitar olhar no espelho e ainda sim esperar que a solução bata na porta. Minha solidão me lembra chorar no chão do banheiro, mas que eu fui incapaz de dizer a alguém. Minha solidão se parece com meus dedos amarelados de tantos cigarros fumados, e as horas passadas deitadas na cama olhando meu teto. Minha solidão me lembra meu teto branco, do qual eu lembro cada rachadura de cor; me lembra que eu estou nessa jaula porque eu quero, mas porque eu morro de medo de sair. Minha solidão se parece com os arranhos e machucados que causo em minha pele quando tenho raiva. Meu medo de incomodar, minha raiva quando alguém não se aproxima o suficiente, porque não pode. Minha solidão me lembra eu me olhando no espelho e sussurrando a palavra: inámavel, inámoravel. Esquecível.
Mas vez ou outra eu troco de pele, como cobra querendo se renovar, e acredito do fundo do coração que tudo vai dar certo. Então eu choro porque não dá. Minha solidão se parece com minha incapacidade de lidar com frustrações. Com minha habilidade de fingir que estou bem. Quando não estou, porque alguém perto de mim parece mais machucado. E depois de ser altruísta assim, eu os ataco em meu egoísmo, porque espero afeto. Minha solidão se parece com algo que não tem lógica. Se parece com um bicho que jamais conhecerá a liberdade, ou correrá campos livres e macios do que é viver. Minha solidão se parece com minha casa. Ela se parece com as manhãs, que chegam cruéis, me lembrando que precisa me aguentar mais um dia. Que eu passarei mais um dia sozinha, em casa, na minha cama. Ela se parece com minha voz...
Se parece comigo.








