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O Terramoto da Juventude Árabe
Li recentemente um artigo da Time que me chamou a atenção para o papel dos jovens dos países muçulmanos nas revoluções a que temos assistido nos países do Norte de África e do Golfo Árabe. Decidi explorar mais.
Quem são estes jovens?
AP | Protestos anti-gonvernamentais, Suez, Egipto
O Ocidente pintou, durante a última década, um quadro negro da juventude islâmica. Foram apelidados de extremistas e fundamentalistas religiosos, bem como de anti-americanos, no entanto, fazem parte da maioria silenciosa e moderada do povo do Magreb. Este é o sinal de que pouco ou nada conhecemos da nova cultura e das características das gentes deste lado do globo. A distância entre Médio Oriente e Ocidente tem vindo a estreitar-se devido à utilização comum das redes sociais via Internet por jovens de ambas as faces.
Jim Rankin Reflections on a Revolution
Apesar de viverem, por vezes, a milhares de quilómetros de distância, os jovens do mundo árabe parecem estar no mesmo comprimento de onda. Todos utilizam as redes sociais como o Twitter e o Facebook para organizarem os protestos, têm pouco ou nenhum envolvimento político, [e talvez pouco envolvimento religioso (pós-islamista?), em comparação com as revoltas dos anos 80 e 90 de tónica claramente muçulmana], manifestam-se de forma pacífica na ausência de líderes claros entre si. Assistimos a um fenómeno de massas, de um estrato da sociedade que foi apelidado de Geração Facebook, Geração “C” (Conectada), Geração Internet e, mais recentemente, de Geração Milagre, pois fizeram mais pelos seus países em poucas semanas do que os seus pais fizeram em décadas. Veja este mapa sobre a penetração da Internet nos países árabes.
Em grande parte dos países árabes, mais de metade da população tem menos de 25 anos, e pelos vistos está cansada dos regimes autocráticos e de líderes que governam o poder politico e económico há décadas. Estes dados demográficos mostram sociedades estruturalmente diferentes das Europeias, Americanas ou Japonesa.
Fonte: UN
O que querem os jovens com os seus protestos?
Comuns a todas as revoltas são as exigências: direito de escolha sobre o poder político (eleições democráticas), mudança de líderes, fim da corrupção e tráficos variados, oportunidades de emprego e melhoria das condições de vida. O sucesso tem sido verdadeiramente inovador dado que conseguirem, aos olhos de todo o mundo, forçar a cedência em vários líderes inflexíveis e derrubar governos e ditaduras. O foco na democracia é claro. No entanto, não é claro que tipo de democracia querem nem que pessoa querem à frente dos seus países. Querem, acima de tudo, a liberdade da escolha e da tomada de decisão sobre a orientação política dos seus governos.
Parece-me que este é o começo de uma reorganização sócio-económica e política profunda e demorada no mundo islâmico. Decidi fazer algumas perguntas às cartas para saber o que o Tarot nos diz sobre a dinâmica desta mudança. As cartas e os significados são do baralho Tarot de Rumi de Nigel Jackson, bem a propósito.
Que desafios se apresentarão aos jovens árabes no percurso de levarem a democracia aos seus países?
Embora se leia em artigos de opinião que a juventude árabe quer mudança democrática sem direcção específica, estas cartas sugerem que serão pedidas ideias e orientações concretas. A mensagem renovadora será ouvida, integrada e poderá fazer parte de acordos políticos de futuro. Toda a tendência democrática será tida em consideração, no entanto, há decisões a tomar e a juventude será chamada a fazer escolhas.
A gazela atenta representada no 7 de Espadas deste baralho relembra que o tempo é de guerra, há presas e caçadores e, nesse sentido, não se podem baixar as armas. Atenção, cuidado, inteligência, estratégia e muita prudência serão necessárias para implementar regimes democráticos, apesar dos interesses de facções, corporações e países mais ou menos "potentes".
Há muitos interesses em jogo no mundo árabe, e os períodos de reestruturação são excelentes oportunidades para novas formas de autoridade menos óbvias tirarem proveito do desejo de paz e segurança. O 10 de Paus relembra os tiranos, opressores e perseguidores que estão presentes há décadas nestes países e que não sairão, só porque o governo muda. A cultura opressora e fascista permanece apesar das diferenças na realidade aparente. É necessária atenção focada nas novas formas de opressão que emergirão para geri-las e garantir uma consolidação triunfante da democracia.
Que papel terão as redes sociais na reconstrução política do norte de África?
A única carta dos Arcanos Maiores nesta sucessão de questões é o Eremita, que aparece curiosamente na questão sobre redes sociais. O jornalista André Lemos faz uma análise fascinante sobre o papel das redes recorrendo a ideias do sociólogo pós-moderno Bruno Latour e alerta para a existência das redes sociais como meios à disposição dos verdadeiros intervenientes e agentes de mudança: as pessoas. O papel das redes é aquele que lhes derem, o que reflecte o carácter democrático da sua forma. De novo, com esta carta se reafirma a necessidade prudência e cuidado na utilização das redes sociais, capacidade de antecipação de consequências e consciência do papel de condução de informação que as redes possuem. O Eremita, para mim, representa o tempo, isto é, a distância entre uma acção e a sua consequência. As redes reduzem o tempo de comunicação o que torna os processos de transição mais rápidos e menos estruturados. Há um perigo em saltar etapas, evitável através da sabedoria, que poderá não estar presente na maturidade de uma comunidade de pessoas, cuja metade tem menos de 25 anos.
Num sentido mais profundo, Internet e os seus meios são sobretudo uma grande fortaleza de protecção e subsistência para a liberdade de expressão que corrompe regimes autoritários. É o grande meio que representa o verdadeiro poder que move massas e que permite manter uma postura firme e estável na defesa tão explosiva de direitos humanos e civis.
Este processo de transição, como veremos de seguida, não será fácil. As redes sociais serão terão um papel importante na forma de o comunicar e permitirão a comparação entre mundos culturais, fases de mudança, países, regimes políticos e condições sócio-económicas de vida. O mundo árabe é um espaço plural e fará o seu processo de reconstrução por etapas visíveis aos olhos de quem as quiser ver através da Internet.
Que características terão os regimes políticos dos próximos anos?
A tradição do Corão exalta a indústria das abelhas, símbolo proeminente de um trabalho inspirado pelo divino. A renovação politica será um esforço permanente, zeloso e consciente em direcção a objectivos. Devido às conotações religiosas desta carta, penso que as novas do formas politicas serão pouco seculares. A religião continuará a ter um papel importante politicamente e reforçará a sua presença, mesmo que através de regimes de formatos mais democráticos.
A mudança politica tem um nível de implicações mundano e quotidiano. Este é sentido principalmente pelas camadas menos favorecidas da sociedade, as quais nos países árabes são uma parte muito significativa da população devido às assimetrias económicas. O 4 de Copas sugere grande descontentamento com o estado do (seu) mundo e preocupação o face ao futuro, o que pode tornar instável a base comunitária que teoricamente beneficia com estas mudanças. Estes benefícios não serão sentidos a curto-prazo.
Como reforço da carta anterior, o 9 de Espadas reafirma o estado de desilusão que o povo poderá passar no decurso da reestruturação politico-económica. O medo é debilitante, a ansiedade e o desconforto estão presentes, tal como a decepção pela percepção de falha. Esta imagem relembra-me as mudanças demasiados radicais e repentinas facilitadas por uma população pouco madura, exausta e desesperada; e travada por líderes inebriados pelo poder e cegos à sua partilha. Seria provavelmente impossível que regimes autocráticos cedessem em transições pacíficas e seguras para todos.
Parece-me importante a mensagem de persistência do esforço e da recusa, tanto da intimidação dos líderes no poder, como da sedução do “moderno” Ocidente. Iniciou-se um processo que requer coragem e responsabilidade de todos os intervenientes.
autocrata, o «autocrate».