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Capítulo 87
Capítulo LXXXVII
Novembro
Harry estava desesperadamente cansado, quando passando um pouco da meia noite, ele adentrou seu apartamento, em meio a um bocejo e arrastando sua pesada mala de rodinhas pelo mármore. Cego pelo breu da noite, ele percebeu como agora ficava receoso em andar em sua própria casa. Parecia que ele havia se esquecido dos cômodos, esquecido das posições dos móveis e ele temia acabar esbarrando em qualquer artefato antiquado e caríssimo da história de sua família e dos antecessores a sua avó.
Com um pouco de dificuldade, mas tendo sucesso, ele conseguiu alcançar a porta de seu quarto e quando abriu-a percebeu que lá tinha provavelmente mais claridade do que qualquer outro cômodo do apartamento, já que com as cortinas abertas, a lua iluminava o recinto e como um holofote, ela iluminava Daisy que tranquilamente, vestindo um de seus pijamas, dormia esparramada na cama, agarrada ao travesseiro que ele costumava usar.
Doctor Hiruluk
¿Cuándo crees que se muere la gente? ¿cuándo le atraviesan el corazón con una bala? NO ¿cuándo eres atacado por una enfermedad incurable? NO ¿Cuándo comes una sopa de una seta venenosa? NO.
Es cuando eres olvidado.
Incluso después de haberme ido mi sueño se hará realidad
Los corazones enfermos de las gentes serán curados
¿Por qué estas llorando Dalton?
-¿Cree que este país puede hacer lo mismo?
La voluntad se hereda
¡Estas ha sido una vida increíble!
Gracias Chopper
Capítulo 87 - Bêbado na faculdade.
Passamos a tarde fazendo o que tem de melhor pra se fazer no mundo: porra nenhuma. Isso mesmo. Tu senta e esquece até as horas. Falamos sobre a festa de ontem, as fantasias que vimos e tudo mais. Claro que eu falei que só voltei pra casa mais cedo pra comer a guria, e não pra roubar, passar droga e pegar a namorada do cara que divide apartamento comigo. Pior que eu nem peguei.
Fred: A mina saiu de lá da puta que pariu pra vir pra cá dar pra ti? Sorri. Fred: Porra, Thommo. Ele ergueu a latinha pra me cumprimentar. Só não contei que eu tinha prometido todas as drogas do mundo pra ela vir comigo.
Fred: Em mil anos de amizade, tu finalmente tá aprendendo alguma coisa comigo. É. Idiota. Até pensei em dar idéia de acender um beck, mas tava com pena do Matt. Ele não ia querer e nem conseguir fumar, e não tem coisa pior do que ver um beck na tua frente sem poder dar uma puxadinha. A cervejinha gelada tava de bom tamanho. Estaria melhor ainda se tivesse um bobo pra buscar outra lata pra gente quando acabasse. Eu: Pega outra lá, Freds. Fred: Aham. Ele nem se mexeu. Eu: Pega lá, velho. Fred: Que pega o quê, velho. Acho que o Matt tava quase dormindo naquela posição. Ele tava deitado no meio do chão da sala, com as mãos na barriga, olhando pro teto meio sonolento. Fred: Pega lá, Matt. O cara tinha acabado de passar por uma bad de ácido e nem tava tomando cerveja. A gente é muito imprestável. Tive que dar risada. Fred: Nessas horas eu queria uma namorada, tá ligado? Eu: Hahaha. Fred: "Pega outra cerveja e sai da frente da televisão, caralho." - ele engrossou a voz. Eu: HAHAHA! Fred: "Depois volta aqui e me paga um boquetinho". Eu: HAHAHAH! Fred: "Aí. Desse jeito. Abaixa mais um pouco que eu não to vendo a televisão". Eu quase engasguei com aquele último gole de cerveja quente de tanto rir.
Fred: "Tira o pé daí que tu vai desconectar o video game". Eu: HAHAHAHAH! Fred: Ahhhh. Tanta mina reclamando da vida por aí e minha pia cheia de louça. Eu: HAHAHAHAHAHAHAHAHAHAHAHAHAHA! Ele ficou falando uma bosta atrás da outra, eu não tava agüentando. Tem dias em que o Fred tá atacado. O Matt nem ouvia, só resmungava quando a gente começava a rir alto demais. Cheguei num nível de deitar no chão. Logo a gente ouviu outro barulho na porta. Dessa vez, era o Dudu, que sorriu quando viu a gente rindo daquele jeito, falou alguma coisa que eu não entendi e se mandou pro quarto. Fred: HAHAHA! Domingo é uma bosta! Eu: Todo dia é uma bosta. Fred: É. A gente ficou quieto tentando recuperar o ar depois de rir tanto. Fred: Vai buscar uma cerveja. Eu: Vai tomar no seu cu. Hahahahah! E o ataque de riso voltou. Numa boa, eu só dou risada desse jeito com poucas pessoas. Eu não gosto de programa de humor, não gosto de filme de comédia, não gosto de teatro feliz, não gosto de palhaço, não gosto de stand up, não gosto de nada. Acho tudo forçado pra caralho. Tem gente que pensa que eu fico sério só pra fingir que eu sou mal humorado, mas não, eu só não vejo graça em muita coisa. Dou mais risada dos meus amigos bêbados ou de algum deles tropeçando na rua do que de qualquer comediante famoso. Fred: Se tu buscar uma cerveja, eu nunca mais te acordo. Eu: Nunca mais? Fred: Nunca mais. Tentador. Muito tentador. Uma ida até a geladeira e o Fred nunca mais me acorda. Eu prefiro acordar com um soco na cara do que com o Fred causando. Olhei bem pra cara dele. Fred: E aí? Eu: Até parece. Tu não consegue não me deixar puto todo dia de manhã. Fred: Poooorra, Thommo!
No fim ninguém pegou porra nenhuma. O Matt dormiu deitado no chão. Eu logo encostei a cabeça no sofá e dormi também, depois que o assunto acabou. Até o Fred, com toda a sua hiperatividade, dormiu numa posição bizarra segurando uma lata de cerveja. Acordei com uma puta dor no pescoço, ouvindo meu celular vibrar. Atendi meio dormindo e nem vi quem tava ligando. Eu: Alô? Digo: Fala, Thom. Tu consegue tá aqui em cinco minutos? Quê? Onde? Quando? Como? Por quê? Demorei alguns segundos pra conseguir lembrar o que eu tava fazendo no mundo. Que horas são, cara? Digo: Thom? Olhei pela janela da sala, que a gente tinha esquecido aberta. Já era noite. Devia ser madrugada. Eu: Oi. Digo: A gente tá te esperando em cinco minutos. Chega aí. Falou. Desligou. Puta que pariu, que bosta. Eu to com o corpo inteiro dolorido, queria dormir pra sempre. Olhei no relógio do celular. Eram quase 2h da manhã. Pra me chamarem a essa hora, deve ter alguma bad no meio. Engoli seco pensando que eles poderiam ter descoberto alguma coisa sobre o Crystal. Só vou descobrir indo até lá. Fiquei um tempo olhando pra cara do Matt e do Fred antes de sair pra ter certeza de que eles tavam dormindo. Saí de casa com todo cuidado, como se tivesse pisando em vidros no chão. Sorte que tava todo mundo cansado demais pra acordar com os meus barulhos. Cheguei no Z Club com uma puta cara de sono. Eu não fico cansado até dormir, é sempre assim. Acho que consigo ficar uma semana acordado e aloprando. Mas, se eu dormir por dois minutos depois disso, eu não levanto mais. Que bosta. Olhei pros dois lados e empurrei a porta de metal. Passei pelo mesmo corredor escuro de sempre e encontrei o Rod, o Digo e mais alguns caras no bar de luzes verdes.
Como se eu já não estivesse com medo suficiente, ainda encontrei os caras fumando charuto e bebendo cerveja em canecas bem grandes. O Rod tem uma puta cara de skin head maluco com essa cabeça raspada, os braços fortes pra caralho e as tatuagens que iam até o pescoço. Ele ainda fazia questão de me olhar muito feio sempre. Nem preciso dizer por que ele me lembra o Kid. A diferença é que o Kid é só um playboy idiota que gosta de arranjar briga na rua. Já o Rod... Consigo imaginar ele matando uma pessoa facilmente. Aquele único ponto de luz verde deixava tudo ainda mais “sombrio”. Digo: Senta aí, Thom. Fodeu. Fodeu. Eu to fodido. Eu sei quando to fodido na maioria das vezes em que isso acontece, e agora eu to muito fodido. Muito. Que idéia imbecil eu tive de pagar de foda no meio desses caras. Era óbvio que uma hora ou outra eles iam descobrir sobre o que eu tinha feito. Se nem o Felipe pode vender Crystal, por que eu fui querer me meter com isso? Engoli seco e fui me sentar num banco vazio que ficava entre o Rod e um cara loiro com dentes amarelados. Digo: Tu sumiu no fim de semana. Eu: É. Rod: Tu fez o quê? Todo mundo em volta daquele bar olhava fixamente pra minha cara. Um movimento errado e eu sinto que alguém pode me matar aqui. É hora de usar tudo que eu aprendi durante a vida inteira sobre mentir bem e nunca, nunca aparentar o que eu to sentindo. Confesso que eu devo isso ao meu pai, que sempre foi um idiota, mas me serviu pra alguma coisa. Desde criança, quando ele fazia alguma burrada, eu tentava fingir que tava pouco me fodendo pra ele, quando, na verdade, eu ficava muito mal por dentro. Tenho isso de tentar nunca parecer fraco pra ninguém. Se não fosse por isso, eu teria apanhado muito mais na vida com essa magreza toda. Eu: Encontrei uns amigos da faculdade, fui pra umas festas. Normal. Digo: Tu sempre vai pra muitas festas?
Pensei um pouco, depois fiz que sim com a cabeça. O que ele queria com aquela pergunta? Digo: Em que festas tu foi nesse fim de semana? Nessa hora, o Rod até inclinou o corpo pra frente, pra poder me ouvir bem. Algo me diz que eles já tão sabendo do que eu fiz. Respirei fundo e continuei. Eu: Teve uma na cobertura do hotel Makasaud e outra numa casa longe da cidade. Rod: Cobertura do Makasaud? Ele arqueou as sobrancelhas e cruzou os braços. Thomaz, cara, tu te fodeu. Eu: É. Todos se entreolharam. Digo: O que tu vai fazer nessas festas? Loiro: O cara é playboy? – perguntou pro Rod, me apontando. Rod: O que tu acha? Estuda na WA, mora sozinho às custas do papai... Caralho, como ele é insuportável. Numa boa, o Kid já me encheu muito mais o saco, mas de longe, o Rod me deixa muito mais irritado. Eu nem tinha o que responder pra uma idiotice tão grande. Só olhei com uma puta cara de bosta. Rod: Não sei porque o Digo fica insistindo em trazer filhinho de papai pra cá. O Digo nem falava nada, só me olhava. Loiro: Deu certo com aquele Felipe... Rod: Isso aqui não é lugar pra você! – ele gritou e apontou o dedo na minha cara. Eu tenho uma preguiça desse terrorismo. Não gosta, me dá um soco na boca, eu desmaio, acordo no hospital e volto a viver minha vida normalmente. Fim. Coisa de pau no cu ficar fazendo joguinho psicológico. Sinceramente, meu nervosismo já tinha passado. Rod: Seu playboy do caralho! Tu só tá aqui pra fazer parte do grupinho de Z Boyz da faculdade, não é? Tu é um belo idiota. Isso aqui é muito maior do que um grupinho da faculdade. Se quiser fazer graça, entra pra alguma entidade da faculdade e começa a fingir que manda em todo mundo. Eu tava quase dormindo com aquele sermão sem sentido. O cara loiro parecia muito mais assustado do que eu. O Rod pode falar até todas as veias dele saltarem no alto da cabeça careca, que eu não dou a mínima. Sei que não sou o que ele tá falando.
Só eu sei o quanto eu quero me ver independente e longe do pai, o quanto eu odeio essas porras de grupinhos em todos os lugares, gente que se acha melhor só porque se juntou com mais um monte de idiotas que pensam do mesmo jeito. Quero ser desse Z Club idiota pra poder arranjar uma grana fácil e sumir de tudo quanto antes. Rod: Entendeu? Isso aqui não é pro teu bico. Tu só tem dezoito anos, não tem responsabilidade, não sabe o que faz, só quer saber de fumar maconha pra impressionar os amigos. Agora o discurso começou a ficar bem parecido com os do meu pai. Acho que minha expressão foi ficando cada vez pior. Eu olhava fingindo que tava prestando atenção, mas só conseguia imaginar uma garrafa do bar caindo na cabeça dele. Rod: Aqui não é boca de fumo pra tu pegar maconha de graça, seu playb... Digo: Hahahahahaha. O Rod parou de falar e olhou feio pro Digo. Do nada, o cara começa a rir, bem no meio de um sermão supostamente importante. Todo mundo ficou sem entender. Digo: Hahahahahaha! Eu gosto muito desse moleque. Ele me deu um tapa no ombro. Hein? O Rod só faltou me matar com os olhos. Deu pra ver fogo saindo das orelhas dele. Digo: Tu fica querendo botar medo, e ele faz essa cara de nada. Hahahaha. Muito bom. Todo mundo ficou quieto, só dava ouvir o Digo dando risada. Eu não sabia se saía correndo ou se esperava pelo tapa na cara que ia receber do Rod daqui à pouco. A cara dele tava pior do que nunca. Logo, um outro cara que tava no bar começou a rir também, seguido de um outro cara que riu com a risada dele, e assim foi. No fim, até eu abri um sorriso nervoso pro Digo. Digo: Não adianta, Rod. Ele vai ficar.
Não sei se eu recebia aquilo como uma boa ou má notícia. O Digo tava sorrindo e me dando tapinhas nas costas, o Rod só faltava me matar com a força do pensamento e os outros caras não entediam nada. Digo: Não sei porque tanta desconfiança. O moleque não te fez nada. Rod: AINDA! Ele não tirava os olhos de mim por nada. O Rod tinha um olho meio amarelo que me fazia pensar que ele tinha cabelo loiro, se não raspasse a cabeça. Ele tinha mesmo uns traços de alemão ou sei lá, o queixo quadrado, o nariz certinho, uma boca grande e um pouco de sardas. Digo: Deixa disso, Rod. Rod: Eu não fui com a cara desse moleque desde o dia em que ele apareceu aqui. Cara: Foi uma péssima idéia colocar aquele anúncio lá fora. Nunca chamamos ninguém assim. Digo: O Doctor que mandou colocar o anúncio, não podemos fazer nada. Rod: Foda-se, a merda já tá feita. Agora o moleque já tá aqui dentro. Ele apoiou os cotovelos no balcão e cruzou os braços tatuados, me olhando feio. Cara, tudo bem, eu faço muita bosta, mas por que ele encanou tanto comigo?! Queria conseguir causar metade do estrago que ele acha que eu causo. Digo: Tá aqui e vai continuar. Olhei pro Rod e dei um sorriso, só pra foder. Ele levantou da cadeira querendo me arrebentar, mas não deixaram. Digo: Não se mete, Rod. Sou eu quem decido quem fica ou não. Se ele fizer alguma merda, aí tu pode agir. Não sei se eu entendi bem, mas acho que o Digo contrata os caras, e o Rod demite. E eu digo "demite" no sentido de "dá socos no estômago até matar". Digo: Mas o Thomaz não fez e não vai fazer nenhuma merda. Certo, cara? Engoli seco. Certo, certo.
Digo: Acho que o Rod tá meio desconfiado porque tu sumiu no fim de semana. Rod: Não é só por isso. Eu: Eu não sumi. Fiquei o tempo todo com o celular. Achei que fossem me ligar, se precisassem. O Rod soltou uma risada alta pra caralho, depois me encarou. Rod: Então, quando eu estiver com algum problema, eu ainda vou ter que parar pra pensar em te ligar? Eu: Ahn... Rod: RESPOSTA ERRADA! Ele deu um soco na mesa. Ele fala de mim, mas tá parecendo um playboy mimado agindo desse jeito. Agora que eu tenho certeza de que o Digo tá do meu lado, posso falar certas coisas. Eu: E tu quer que eu faça o quê? Não tenho o telefone de vocês. Todos se entreolharam. Digo: Faz o seguinte... Rod: Não, Digo. O Digo se levantou. Rod: Não. - ele olhou sério pro Digo. Digo: Eu to tentando melhorar as coisas e tu não ajuda, caralho. Rod: Não seja idiota de fazer isso. Digo: Cara, relaxa um pouco. O Digo saiu e ficou fora por uns dois minutos. Numa boa, aqueles foram os minutos mais demorados da minha vida, com um monte de braçudos me encarando em silêncio. Digo: Pronto. Fica com isso. Ele colocou em cima do balcão um celular tão foda que eu nem sabia como mexer. O Rod chacoalhou a cabeça, desaprovando. Digo: Nesse celular, é só tu apertar "2" pra ligar pra mim. Eu: Beleza. Peguei o celular na mão. Era bem grande, mas bem leve. Não ligo pra essas coisas, não mesmo, mas era um celular muito louco. Rod: Se alguém te ligar nesse celular e tu não atender... Digo: Ele já entendeu o recado.
Tô voltando a achar graça nesse negócio de ser um Z Boy. Já deu pra entender que, vez ou outra, vou ter que lidar com doentes viciados e malas tipo o Yago, e aí vou ter que passar por uns perrengues. Mas, no geral, é muito louco ser um Z Boy. Com o tempo, vou aprendendo a lidar com as coisas, e aí vai ser só ganhar e ganhar. Digo: Mas e aí! Ele me deu um tapa tão forte nas costas que eu quase perdi o ar. Devia estar bem bêbado. Digo: Tu vai passar a noite aqui com a gente ou precisa vazar? Rod: Tu ainda vai dar opção pro cara. Puta merda. Não dormi de ontem pra hoje, só cochilei um pouco no chão da sala, amanhã tenho aula cedo e já to cheio de faltas. Se eu fosse um cara normal, voltaria pra casa. Na real, se eu fosse um cara normal, eu nem tava sentado aqui. Que se foda. Eu: Fico aqui com vocês. Entre um monte de cervejas e a minha cama, acho que já sei o que escolher. Eu deixo pra dormir quando estiver entediado. O Digo me passou uma caneca grande tipo a deles e encheu com uma cerveja que eu nunca nem tinha ouvido falar, dessas importadas. Passamos a noite toda conversando e bebendo. O Rod, claro, não curtia nada do que eu falava, mas eu também não falava muito, nem quando já tava bêbado. Acho que aprendi a lidar bem com caras que não gostam de mim ao longo da vida. Agora, é até engraçado tentar irritar. Sempre que eu falava alguma coisa e ele me olhava feio, eu fazia questão de me estender no assunto. Essa parte de ser pentelho eu aprendi com o Fred, e aprendi muito bem.
Bebemos, bebemos, bebemos. Falamos, falamos, falamos. E eu até que mando bem fazendo social quando to bêbado. Eu já não tava falando mais nada que tivesse muito nexo quando olhei o relógio do meu celular novo: 7h15. A porra da minha aula começa 7h20, ou quase isso. É maluco como as pessoas simplesmente não respeitam horários na faculdade. Pelo menos na minha. Nem os professores chegam no horário que pedem pra gente chegar. De qualquer forma, achei melhor ir embora aquela hora. Ia demorar muito pra eu parar pra pensar no relógio de novo, caso resolvesse ficar. O Matt disse que não posso levar mais faltas nessa aula de segunda-feira. Me despedi dos caras e segui pra faculdade. Até tentei disfarçar que não tava completamente bêbado, mas não conseguia enganar a mim mesmo. No meio do caminho, comecei a rir sozinho enquanto tentava não esbarrar nas gurias de salto na calçada. Ouvi algumas reclamando, mas quem vem pra faculdade de salto às 7h da manhã tem mais é que se foder. Reparei que eu não tinha nada no bolso além do meu celular. Portanto, tava sem a carteirinha da faculdade. O jeito era ir falar com as tias da recepção. Sim, elas existem na faculdade também. As mesmas tias da escola, aquelas que tavam mais do que enjoadas de ver a minha cara todos os dias. Já era hora de me apresentar pras tias da faculdade. Eu: Ei. Essas tias são todas parecidas, é engraçado. Ela tinha o cabelo curto, meio enrolado, usava um óculos que ficava apoiado na ponta do nariz. Tava escrevendo alguma coisa no computador quando eu cheguei. Eu: Eu disse "ei". Tia: E eu ouvi. Ela me olhou por cima dos óculos, esperando que eu continuasse. Eu: Meu nome é Thomaz. Ela bufou pra mim. Tia: E o que posso fazer por ti, Thomaz? Eu: Eu estudo aqui, no primeiro ano. Esqueci minha carteirinha. Tia: Qual o número da tua matrícula?
Número do quê? Olhei pros dois lados, como se alguém tivesse interesse em me ajudar. Tá todo mundo pouco se fodendo pros teus problemas numa segunda-feira de manhã na porta da faculdade. Eu: Eu... Eu não sei. Tia: Não sabe o número da tua matrícula? Ela perguntou meio sem acreditar na minha resposta. Um garoto que tava conversando com a outra tia da recepção me olhou como se eu fosse um idiota. Cara: Pff... Bixos. Hahaha. Pegou um papel com a tia, jogou a mochila nas costas e saiu dando risada da minha cara. Por que esse babaca não pode ser menos babaca por dois minutos na vida e me explicar? Ninguém nasce sabendo. Imbecil. Eu não sou uma das melhores pessoas que conheço, nem de longe, mas não fico tirando sarro de pessoas que não sabem das coisas. Eu mesmo não sei nada sobre nada, e nunca vou saber. Ninguém nunca vai. Eu: Essa faculdade só tem ESCROTO! Gritei pro cara, que já tava passando a catraca, mas todo mundo olhou pra mim. Ele se virou, meio sem entender, depois viu que era eu quem tinha xingado. Deu risada de novo e me mostrou o dedo do meio. Era só um gordo babaca vestido de amarelo. Aposto que não come ninguém. Ele gasta o pouco tempo que tem quando não tá comendo pra encher o saco de bixos, ao invés de procurar uma mina. Mas não posso julgá-lo. Se eu fosse um gordo idiota desses, também não perderia meu tempo procurando mulher. Quem ia querer um cara assim? Tia: Thomaz. Eu: Oi! - arregalei os olhos pra ela, porque tava difícil enxergar. Tia: Preciso da tua matrícula pra te dar uma carteirinha provisória, que vale pelo dia de hoje. Eu: Foi mal. Não sei minha matrícula. Ela cruzou os dedos das duas mãos, me deu um sorriso de boca fechada todo sarcástico e chamou o próximo da fila. Tia: Próximo. Ahhhh, minha tia... Nunca zoe de um bêbado de dezoito anos que tá há muito, muito tempo sem dormir.
Eu: Eu não sei minha matrícula. Tia: Por isso não pode entrar na faculdade hoje. Próximo. Eu: EU NÃO SEI MINHA MATRÍCULA! - berrei. Ela fechou os olhos me ouvindo gritar, como se contasse até três antes de brigar comigo de volta. Eu: Tem que ter algum outro jeito de entrar quando o aluno não sabe o número da matrícula. Cara: Tu não sabe o número da tua matrícula?! Um maluco que tava atrás de mim me cutucou e fez essa pergunta idiota. Agora foi minha vez de fechar os olhos e contar até três antes de mandá-lo tomar no cu. Cara: Tu tá atrasando todo mundo. Será que dar pra sair da frente? Numa boa, o cara era menor que eu. Eu não sou tão alto assim, então é difícil encontrar alguém que não seja capaz de me bater. Como ele ainda me fala uma porra dessas? Eu: Olha... Até me apoiei na parede da recepção pra poder ficar xingando ele por bastante tempo, mas me puxaram antes que eu começasse meu discurso. Dudu: Opa! E aí, beleza? Ele cumprimentou a galera que tava na fila atrás de mim e saiu me arrastando. Eu: O que tu tá fazendo?! Dudu: Esqueceu tua carteirinha? Beber é uma bosta. Eu demorei uns três segundos pra entender o que ele tinha falado, e ainda me esqueci o que exatamente eu tava fazendo ali. Eu: Ahn... Ele sacudiu a cabeça. Dudu: Tá. Chega aí. Fomos falar com a última tia da recepção, que ficava bem perto da catraca. Dudu: Oi. Trouxe meu primo pra conhecer a faculdade. Pode liberar a entrada dele? Tia: Preciso do RG. Olhei pro Dudu e fiz que não com a cabeça. Ele não pareceu muito contente, mas insistiu com a tia. Dudu: Esquecemos o RG em casa, sabe como é. A tia já fez uma puta cara de cu pra gente. O que aconteceu com a paciência das pessoas hoje? Dudu: É rápido, prometo. Só queria que ele conhecesse o lugar. Somos primos, quase irmãos. Vivo falando daqui pra ele.
Ela ficou nos encarando. Eu tava prestes a mostrar o dedo do meio e perguntar se ela tinha perdido o cu na minha cara. Tia: Só porque é teu primo, Eduardo. Ela deu um sorrisinho pro Dudu e me entregou uma carteirinha provisória escrita "visitante". Ser veterano tem lá suas vantagens, as tias confiam no que tu diz. O Dudu agradeceu, se despediu de mim e saiu correndo. É, acho que to meio atrasado pra aula. Entrei na sala como se estivesse entrando na minha própria casa. Não me preocupei com o barulho da porta nem nada. Só percebi que tava sendo meio indiscreto quando todo mundo olhou pra mim. Fiz cara de que não foi comigo e me sentei na primeira cadeira que achei. Olhei pra trás e vi o Matt acenando pra mim. Mais uma vez agi como se estivesse sozinho no ambiente, me levantei e fui me sentar na carteira vazia do lado do Matt.
Só depois de ter me sentado foi que percebi a merda que tinha feito. Não pela cara de bosta da professora me olhando, foda-se, mas por ter me sentado do lado do Matt. Ele vai começar a me fazer um monte de perguntas sobre ontem quando perceber que eu tô bêbado. Matt: E aí? - ele cochichou. Merda, ele vai perceber. Se eu ousar olhar pra cara dele, ele já vai perceber. Imagina se eu abrir a boca. Matt: Beleza? Não vou falar nada. Assim ele não percebe que eu tô chapado. Matt: Thom? Eu: ... Matt: Thomaz? Eu: ... Matt: Thomaz. Continuei olhando pra frente sem responder, como se nada tivesse acontecido. Matt: Thom. Eu: ... Ele apertou os olhos e ficou me analisando. Que merda eu tô fazendo?! Se eu quiser disfarçar, preciso agir normalmente, não ficar mudo fingindo que não to ouvindo. É óbvio que eu to ouvindo! Matt: Tu tá mais louco que o Batman, não tá? Merda. Fiquei segurando o riso por alguns segundos, mas não aguentei. Me debrucei na carteira e fiquei rindo o mais baixo que pude. Logo o Matt tava fazendo o mesmo que eu.
Até minha costela começou a doer de tanto que eu forçava pra professora não me ouvir rindo. Quando a gente não aguentava mais rir, parava por alguns segundos pra respirar, mas logo voltava aquela vontade retardada de gargalhar. Só nos acalmamos quando a aula acabou. No caminho até a quadra, tentei inventar uma história pra ele que não fez muito sentido. Matt: Calma. Tu tá me dizendo que ficou bebendo vodca sozinho na nossa sala? Eu: Aham. Matt: Por que, cara? Eu: Acho que tô virando alcoólatra. Matt: Porra! Hahahaha! E pra onde tu foi? Eu: Quando? Matt: Tu não tava em casa quando a gente acordou. Ahn... É... Fica difícil pensar rápido depois de ter bebido a noite inteira. Vicky: Oi, rapazes. Ela apareceu bem na hora. O Matt acenou meio tímido e eu sorri. Vicky: Tu tá péssimo. Eu: Eu sei. - abri os braços. A gente deu risada, pegou o elevador e desceu pro térreo, onde ficava a quadra. O elevador tava tão cheio que eu fui parar no lado oposto do Matt e a gente não precisou continuar o assunto. Caralho, era maluco ver aquele monte de pessoas girando. É diferente estar bêbado numa festa e estar bêbado na faculdade, bem diferente.
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Capítulo 87
Roberta Narrando
(continuação da casa do Thomas)
Saí de lá segurando o choro. Fui pra casa arrasada, como assim o Pedro seria pai de um filho da FERNANDA?
Cheguei em casa, não sei se não tinha ninguém em casa, mas nem cheguei a procurar, fui direto pro meu quarto, arrumar umas coisinhas. Fazia tempo que não vinha em casa. Deixei a porta aberta. Logo depois o Pedro chega, bate na porta e pergunta se pode entrar
Roberta: O que você quer?
Pedro: Quero conversar com você
Roberta: Se quer saber sobre gravidez, desculpa mas eu nunca vou poder ser mãe (¹), não posso te ajudar
Pedro: Roberta, para com isso
Roberta: Só to falando a verdade. Você vai realizar meu sonho, só que na Fernanda. -ele ficou em silêncio por um tempo
Pedro: Porque você passou esse tempo na casa do Thomas?
Roberta: Pedro, eu não preciso te dar explicações da minha vida
Pedro: Porque não quer falar? Ta com culpa é?
Roberta: Culpa? Culpa do que?
Pedro: Se não tem culpa de nada, me fala, vocês tão juntos?
Roberta: Para de querer saber tudo da minha vida Pedro, porra nós não estamos mais juntos! -estávamos gritando
Pedro: Responde, eu só quero saber
Roberta: Não, nós não estamos juntos!
Pedro: E porque o beijo no canto da boca dele ein?
Roberta: Você já ta sendo ridículo!
Pedro: Nunca vi amigos se cumprimentando com beijo na boca
Roberta: Pelo amor de Deus, foi no canto da boca, não tem nada demais
Pedro: Como assim não tem anda demais? Vocês estão juntos né? Eu sei que tão!
Roberta: Para com isso Pedro. E se você quer mesmo saber, eu e ele transamos na noite passada
Pedro: Sério? - ele abaixou o tom de voz
Roberta: Sério. Mais alguma coisa? Então me deixa em paz que eu quero tomar um banho, e tenho que trabalhar ainda (²).
Ele saiu do meu quarto sem falar mais nada
Como eu disse pra ele, tomei um banho pra me acalmar um pouco e depois fiquei trabalhando. A Isa bateu na porta do meu quarto
Roberta: Entra
Ela entrou
Isa: Ta tudo bem?
Roberta: Aham..
Isa: Ouvi você e o Pedro brigando, o que houve?
Roberta: O Pedro é um idiota, ele chegou aqui me cobrando várias coisas, como se ainda estivéssemos juntos! Só porque parece que a Fernanda ta grávida de um filho dele, ele acha que pode me cobrar
Isa: A Fernanda? Grávida? Do Pedro?
Roberta: Parece que sim. -falei super triste
Isa: Roberta, eu preciso te falar uma coisa, não to me sentindo bem de fazer tudo pelas suas costas -fiz uma cara de quem não tava entendo- Eu e o Pedro estamos "Juntos" -ela fez as aspas com a mão.- Nós transamos.
Roberta: Sério?
Isa: É.. Desculpa
Roberta: Sem problema - falei isso, mas ela percebeu que eu estava brava
Isa: Você vai ficar brava comigo?
Roberta: Com você não, eu to brava é com ele!
Isa: Mas, não foi só ele que teve culpa..
Roberta: Eu sei, mas eu não to com raiva pelo que vocês fizeram, e sim que o Pedro não foi corajoso o bastante, pra poder me contar isso. Ele chegou aqui me cobrando várias coisas, e quando eu disse que tinha transado com o Thomas, ele não foi capaz de me contar que vocês fizeram a mesma coisa!
Isa: Você e o Thomas transaram?
Roberta: Aham..
Isa: A Sofi sabe?
Roberta: Ainda não, mas eu vou contar pra ela.
Isa: Você vai na festa de aniversário do Pedro (³) amanhã né?
Roberta: Claro que vou! - ela só sorriu e saiu do meu quarto. - Não vou perder essa festa por nada -falei pra mim mesma.
¹ A Roberta tem problemas sérios pra engravidar, os médicos dão 0% de chance dela conseguir. Ela descobriu isso com 15 anos.
² Ela não saía mais pra trabalhar, ela trabalhava em casa no PC.
³ É, vai ser o aniversário do Lanza (Ele vai ser mais velho do que na vida real ok? Ele vai estar fazendo 21 anos, sei que não é muito mais do que ele tem, mas essa é a idade dele, por algumas coisas que irão acontecer mais pra frente). Manuella Narrando Cheguei em casa e ouvi gritos. O que era aquilo? A 3º Guerra Mundial? Fui em direção ao meu quarto e acabei passando pelo quarto da Roberta, vi ela e o Lanza gritando, não consegui.. precisei rir daquilo! A cena de ciúmes ridícula do Pedro, ele tinha transado com a Isa e a Fernanda e agora tava reclamando porque ela transou com o Thomas? Senhor! Fui andando até meu quarto, ainda rindo, aquilo tudo era ridículo pra dizer a verdade, aquele troca troca. Isa me viu rindo e perguntou o que tinha acontecido, falei que não era nada e continuei andando... Tomei um banho e deitei, 5 minutos depois meu telefone tocou, droga! -Fala! -Era o Pedro -Você vai na festa do pedrinho amanhã? -ele me perguntou comecei a rir ao lembrar da cena que eu tinha visto no quarto, aquela história de "você transou com um?" "ele transou com a outra?" que troca troca do caralho! -Falei alguma piada? -Pedro perguntou ao ouvir meus risos -Não.. to lembrando de uma coisa que eu vi aqui! Mas enfim, não sei.. E o que você tem haver com isso? -perguntei -Eu queria saber.. sabe nós, quero dizer eu os meninos, você as meninas, nos afastamos muito, os casais se trocaram e tá tudo uma confusão.. E essa festa era uma oportunidade de resolver tudo isso! -Ele falou -Resolver? -voltei a rir- Pedro, você não tá sabendo nem de metade da história né? -Que história? Os meninos não me contaram nada! Mandei ele vim até meu prédio, ele tocou e eu desci. Fomos andando pelas ruas, mas não como namorados, e sim como amigos, parecíamos ter esquecido tudo e estávamos ali pra resolver toda aquela guerra. -Vai me conta! -ele riu -Tá calma.. -eu também ri- Tipo assim, o Thomas transou com a Roberta, o Pedrinho com a Isa e a Fernanda, e agora a Fernanda acha que tá grávida dele e ele não contou isso pra Isa, a Sofi parece tá de rolo com um garoto que eu não lembro o nome. E calma, tem mais! A Roberta e a Isa tão em um clima meio estranho por causa do Pedro, e a Sofi nem sabe que o Roberta transou com o Thomas ontem..e na hora que ela souber eu tenho certeza que ela vai ficar brava! Ela pode até fingir que não mas eu conheço minha irmã, sei que ela vai ficar. E no meio de tanta guerra ainda tem essa festa do Pedro, que sem dúvida vai ser mais um combate. Imagina, a Isa e a Roberta no maior climão, a Sofi a essas horas já deve tá sabendo do que aconteceu entre a Roberta e o Thomas e o clima só vai pesar. A Roberta contou pro Pedro que transou com o Thomas e com certeza ele não gostou nada de saber que o Thomas furou o olho dele, e o Lucas também não tá nada feliz com a "aproximação" da Isa e do Pedro isso porque eu acho que ele não sabe que eles.. Enfim, entendeu porque essa festa vai ser uma guerra? Não conseguimos controlar o riso, aquilo mesmo sendo trágico era engraçado. Aquela confusão toda, o que restava era a gente rir. Foi escurecendo cada vez mais, eu e ele fomos andando de volta pro meu apartamento. Chegamos na porta do prédio.. -Então tá nas nossas mãos não deixar a festa do Pedro virar um caos? -ele falou -Exatamente! Afinal somos os únicos, que não estamos assim! - eu ri Subi e ele foi embora, eu ainda continuava fria, mas diante daquela confusão, querendo ou não eu precisava me aproximar do Pedro pra resolver aquilo, como ele disse tava nas nossas mãos.