Botas
Difícil entender que
nas botas
Sabotas pontas
Remotas
Há de haver alguém
Um outrem a admirar

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Botas
Difícil entender que
nas botas
Sabotas pontas
Remotas
Há de haver alguém
Um outrem a admirar
Toma aqui teu sapato!
Distorce. Continue com sua impressão de bom vizinho. Se martirize, brinque com a graça de ter sofrido. Você é o protagonista. Você é o rapaz. Vive se iludindo. Vive por personificar seu teatro melancólico. Você não vê, não sente, não sabe. É doente. Mas vive de meta cumprida, de voz coitada, de barriga cheia, de risada esguia, de impressões vazias e do menosprezar da desgraça alheia.
Piorandorama
é P
ficando pi, fazendo or
e vira pó
pobre pindó
mas por é pior
se é pir, é piora
se piora, piorar
pioras, poeira, pó
piorando vai ficar
pi, pó
piora, pioras, piorar
E dai?
piorandorama
pindorama a piorar
- Conto 63
Tendo feito seu leito
Me tento Me tento Fugir do seu leito
Que jeito Que jeito Me tem todo feito
Me deito Me deito Aqui no seu peito
Ta feito Ta feito Me tem Teve jeito
Que jeito Que jeito Nem pergunto direito
Bem feito Bem feito Sou todo defeito
Seu peito Seu peito É todo e esquerdo
Te tendo Te tendo E sou novo provento
Me tendo Me tendo E tem todo rebento
- Conto 63
O relógio diz as horas. E você, o que diz à ele?
Conto 63
Me empresta teu uniforme, e todos me chamarão de guarda também.
Conto 63
O Largo
Ao acordar, vestia suas roupas. Camisa, calça e botas bem amarradas. Desta vez é um dia morno - um dia cinza, mas não gelado. Uma manhã de quarta. Seu café é preto, e seu pão de queijo, quentinho. Seu apartamento fica no centro, perto de seu trabalho. E ele vai a pé, com sua maleta preta de zíper (quase executiva), seu cabelo marrom penteado (quase calvo), e seu sorriso frouxo verdadeiro (quase enrugado). A cidade é meio torta, é claro. Os prédios são, hora cinza, hora coloridos desbotados e hora são de vidro. As horas são, hora 8:50h, hora 8:46h, hora 8:41h. Nunca se atrasa ou se adianta. Se assegura no passo. Por onde vai - educado que é - ele cumprimenta seus cumprimentos de todo dia. Não hesita em repetí-los para pessoas repetidas. As pessoas - também tortas - respondem ou não. Com acenos de mãos e cabeças, voz alta, baixa, alegres e tristes. Respostas de cada dia. Mas ele tem sempre que repetir: “bom dia!”. A cada qualquer que passe outra vez.
Ei cara
É. você.
O que acha que são?
Nem todo dia é bom
Não insista pra mim
“São cumprimentos de cada dia”, ele diria. “São cordialidades que temos. Que será do dia que já não é bom, não ter meu agrado?” Mas não disse, claro. Esse que passou não agrada a qualquer um. Sentado na calçada, na coberta rasgada, no papelão, não.
Pensa aí, meu!
O céu muda de cor
“Lógico. Mas de que adianta virar o mundo de cabeça pra baixo se o sol não nasce à oeste?”.
Assim - finalmente
quem sabe
entendemos os morcegos
Ao acordar, virava-se as trouxas. Gato, sapato, vadia: Chutava todas. O dia é frio outra vez - escuro. Ainda não amanheceu e deve ser segunda. Campos Sales, tá na Glicério, no Largo. Tá no centro. As pessoas estão ocupadas, atrasadas, irritadas. Com bolsas agarradas, calças agarradas e caras amarradas. Por onde passam, ele pede e pergunta. Tem trocados e pouca resposta. Nenhuma que convença.
Ondas para fins de Mundos
De lá, do alto, de onde a terra não cheira e a cidade é maquete, tenta imaginar - se lembrar - da última vez em que sentiu ventos tão indelicados soprar insolentemente contra as árvores. Eram suas árvores. E um vento ousado. Ele vem do exterior, claro. Como tudo que viria a seguir. Mas é diferente de seus iguais. Este já não levanta a poeira de seu castelo, não agita a terra esparramada pelos pés descalços de seu povo. Não trança o cabelo de suas rainhas ou destrança suas concubinas. O vento sopra com sabor, e o faz pensar. O diálogo, a barganha com o tempo se torna uma prosa sem fim. Palavras, jogadas sem nexo pelas bocas de seus três conselheiros, aos céus dançam ao emaranhar seus pensamentos. Poesias inacabadas transformam cânticos dos bobos em realidade. Finitos, temporais, e uma calmaria perturbada. Aquilo que é dito, porém, ganha outra chance: de silêncio. Ecoa aos avessos a perna bamba, a fala corrida e, agora, cerrada. “O que há para discutir agora?”, reclama, por último, algum dos três. Lá de cima, o mundo de baixo parece, pela primeira vez, enxuto, escasso. De uma escassez alegre. E aquele enxuto, feliz. Pela primeira vez os quatro nobres imaginam. Pensam nos caseiros, cavalariços, taberneiros, bardos e noviças. E então, pensam em si. Onde estariam?
De lá, desta vez, o tempo não para. Mas dialoga, e congela. O pensamento é sólido, mórbido. A visão, afiada e dispersa no infinito. Longe, onde os olhos ainda não conquistam o luxo do apagão, uns pescadores. Suas proas, ao mar, balançam. As redes são recolhidas. Trocadas ao vento por seus chapéus e postura. Alguns se deitam. Outros, se levantam. E o vento, indelicado que é, torce as palmeiras ao chão. Lá de cima, seu Rei cerra os olhos. Os outros, se aproximam. O mar, como se viesse ao encontro do céu, se desdobra pela superfície como a deformação da barriga doente. Uma colossal redobra de seu ritmo agitado forma uma gigantesca onda, que se retorce em torno de si como se amarrasse o vento que a conduz. Como se tivesse, já, em sua vontade, o abraço naquelas pequenas canoas velhas e bem cuidadas. Não se vê as árvores, não há gritaria que se ouça dali. Nem antes, tão pouco agora, ou ainda menos. A cidade em mosaico, cresce em relevo para seus olhos. Os três, ao redor, se apagaram, mas nada mudou em seu espanto. Os olhos do Rei se expandem e o mundo capota ao bel prazer de sua vista. Pescadores, não vê mais. Tudo culmina num subir e descer discreto do cais a boiar. Mas de lá, do alto, de onde a terra não cheira e a cidade cresce, sua corte, como se esperassem da voz um comando de Rei, mesmo que em quase silêncio, como em uma balada das tavernas à meia-noite, os três desesperados tornam à aquele sussurro:
“Ondas para fins de mundos.”
O vento não os abala, o mar não os abala. Nem mesmo os pescadores importam. O futuro, porém, em sonho, torna a cidade uma marcha descuidada. O vento não sopra, mas se paralisa com o flutuar das cinzas. O mar é de sangue. E os pescadores, são peixe. Não há nobres. E para o Rei, não há altura pela qual observar.