Por trás das formulações desses cenários futuros estão determinadas ideias do que é um instrumento de pesquisa, uma escrita calcada na subjetividade humana, um estilo de um autor. Essas ideias só podem parecer autoevidentes para quem entende que a criação artística pode estar submetida completamente aos critérios de validação de eficiência, metrificação e produtividade que regem a sociedade contemporânea. A literatura, como toda forma de arte, é o domínio da liberdade plena de expressão, mas há limiares que, uma vez ultrapassados, a descaracterizam. Um texto publicitário nunca será arte, pois sua mensagem é sempre a mesma: consuma isso. O risco proporcionado pelas ferramentas de IA à literatura é do mesmo tipo. Não se trata tanto de indagar se o autor segue sendo um autor e se ele está de fato criando algo ao recorrer ao apoio da geração de texto de um modelo de linguagem estatístico — a resposta nos dois casos é sim —, mas de afirmar que a qualidade de comunicação que se estabelece entre criador(es) e leitores na escrita mediada pela IA é diferente daquela que caracteriza a escrita literária.
Trecho da edição #35 da newsletter, sobre a incompatibilidade essencial entre escrita criativa e IA. Leiam, assinem, contribuam :)
Não tem nada mais ridículo do que uma pessoa tentando convencer outra. Trabalhei com persuasão minha vida toda, a persuasão é o maior câncer do comportamento humano. Ninguém nunca devia ser convencido de nada. As pessoas sabem o que querem e sabem do que precisam. (...) Persuadir uma pessoa a não seguir o coração é obsceno, a persuasão é uma coisa obscena, a gente sabe do que precisa e ninguém pode nos aconselhar.
Hello everyone! This month I'm bringing back the "A Trip To..." series. Last time we went on a trip to Ireland, and this time we're going to Brazil! This is a list full of novels that take place in Brazil, and are written by Brazilian writers. Thank you so much to someone who suggested this to me in our last survey.
As always, don't forget to vote for our next book using the link at the bottom of the post. Onto the books!
Blood-Drenched Beard, by Daniel Galera and translated by Alison Entrekin
—So why did they kill him?
—I’m getting there. Patience, tchê. I wanted to give you the context. Because it’s a good story, isn’t it?
A young man’s father, close to death, reveals to his son the true story of his grandfather’s death, or at least the truth as he knows it. The mean old gaucho was murdered by some fellow villagers in Garopaba, a sleepy town on the Atlantic now famous for its surfing and fishing. It was almost an execution, vigilante style. Or so the story goes.
It is almost as if his father has given the young man a deathbed challenge. He has no strong ties to home, he is ready for a change, and he loves the seaside and is a great ocean swimmer, so he strikes out for Garopaba, without even being quite sure why. He finds an apartment by the water and builds a simple new life, taking his father’s old dog as a companion. He swims in the sea every day, makes a few friends, enters into a relationship, begins to make inquiries.
But information doesn’t come easily. A rare neurological condition means that he doesn’t recognize the faces of people he’s met, leading frequently to awkwardness and occasionally to hostility. And the people who know about his grandfather seem fearful, even haunted. Life becomes complicated in Garopaba until it becomes downright dangerous.
Spilt Milk, by Chico Buarque and translated by Alison Entrekin
As Eulalio Assumpcao lies dying in a Brazilian public hospital, his daughter and the attending nurses are treated--whether they like it or not--to his last, rambling monologue. Ribald, hectoring, and occasionally delusional, Eulalio reflects on his past, present, and future--on his privileged, plantation-owning family; his father's philandering with beautiful French whores; his own half-hearted career as a weapons dealer; the eventual decline of the family fortune; and his passionate courtship of the wife who would later abandon him. As Eulalio wanders the sinuous twists and turns of his own fragmented memories, Buarque conjures up a brilliantly evocative portrait of a man's life and love, set in the broad sweep of vivid Brazilian history.
The Hour of the Star, by Clarice Lispector translated by Benjamin Moser
Narrated by the cosmopolitan Rodrigo S.M., this brief, strange, and haunting tale is the story of Macabéa, one of life's unfortunates. Living in the slums of Rio and eking out a poor living as a typist, Macabéa loves movies, Coca-Colas, and her rat of a boyfriend; she would like to be like Marilyn Monroe, but she is ugly, underfed, sickly and unloved. Rodrigo recoils from her wretchedness, and yet he cannot avoid the realization that for all her outward misery, Macabéa is inwardly free/She doesn't seem to know how unhappy she should be. Lispector employs her pathetic heroine against her urbane, empty narrator—edge of despair to edge of despair—and, working them like a pair of scissors, she cuts away the reader's preconceived notions about poverty, identity, love and the art of fiction.
Captains of the Sand, by Jorge Amado translated by Gregory Rabassa
They call themselves “Captains of the Sands,” a gang of orphans and runaways who live by their wits and daring in the torrid slums and sleazy back alleys of Bahia. Led by fifteen-year-old “Bullet,” the band—including a crafty liar named “Legless,” the intellectual “Professor,” and the sexually precocious “Cat”—pulls off heists and escapades against the right and privileged of Brazil. But when a public outcry demands the capture of the “little criminals,” the fate of these children becomes a poignant, intensely moving drama of love and freedom in a shackled land.
The Posthumous Memoirs of Brás Cubas, by Machado De Assis and translated by Flora Thompson-DeVeaux
The ghost of a decadent and disagreeable aristocrat decides to write his memoir. He dedicates it to the worms gnawing at his corpse and tells of his failed romances and halfhearted political ambitions, serves up harebrained philosophies, and complains with gusto from the depths of his grave. Wildly imaginative, wickedly witty, and ahead of its time, the novel has been compared to the work of everyone from Cervantes to Sterne to Joyce to Nabokov to Borges to Calvino, and has influenced generations of writers around the world.
Em "Águas do Norte", um médico irlandês, Sumner, embarca em um navio baleeiro que partirá ao gélido norte em busca de caça para fornecimento de gordura de baleia e outros produtos, apesar de já reconhecerem que há uma perceptível decadência econômica na atividade frente a novas tecnologias – como as lamparinas a querosene.
Sabem também que Brownlee, o capitão do navio, não deveria estar capitaneando aquele navio, pois em sua última jornada ao Ártico perdera sua embarcação e parte de seus homens para o mar e o frio, e que nenhum proprietário de navios no mundo daria uma nova chance a alguém marcado com o estigma de azarado.
Mas Baxter, o proprietário do navio encarrega Brownlee dessa nova expedição, com uma equipe não muito digna de confiança.
Há um contraste enorme entre Sumner e seus colegas de embarcação. Os baleeiros são grosseiros, rudes, despreocupados e supersticiosos, e Sumner acha difícil o convívio, apesar de que aquela é sua única chance de recomeçar a vida. Por isso, enquanto não está trabalhando, ele prefere se recolher a sua cabine, e, enquanto os outros acham que eles está lendo seu Homero ou rezando, na verdade ele está viajando na inconsciência para ele prazerosa do láudano.
Dos tripulantes, conhecemos logo cedo Drax, e suas características animalescas, suas atitudes impensadas e que dispensam explicações chocam o leitor pela simplicidade com a qual ele lida com elas: ele faz o que tem que fazer, no momento que precisa fazer. Não há nada pessoal em seus atos que não diga exclusivamente respeito a si mesmo e sua sobrevivência.
Essa falta de uma moral coletiva o transforma em um animal selvagem, perigoso, desconfiado e que terá uma papel importante na maneira como os fatos se desencadearão.
Percebe que a mentira sai fácil, como esperado. Palavras não passam de ruídos em determinada ordem, pode usá-las como bem entender. Os porcos roncam, os patos grasnam e os homens mentem: costuma ser assim.
Em contrapartida, Otto é um sueco de pensamento filosófico e intrincado saber teológico com quem Sumner consegue conversar mais a fundo, apesar de não ser um crente e achar que a maioria das coisas que Otto diz não passa de superstição alienadora. Mas ter Otto para conversar é uma fonte de alívio para Sumner em meio a tanta – ele considera – bestialidade.
Sumner carrega consigo um segredo que é desvendado logo na primeira metade do livro. Foi médico do exército imperial em uma revolução na Índia colonizada, e saíra de lá com um ferimento a bala que o deixara mancando e viciado em opioides.
Insinuou que o trabalho de um médico num navio baleeiro era um detalhe da legislação, uma exigência a ser cumprida, mas na prática não havia porcaria nenhuma a fazer - daí a remuneração ridícula, é claro.
Poucas pessoas entendem a presença dele em um navio daquele, pois o cargo de médico de bordo geralmente é ocupado por estudantes desesperados por dinheiro ou profissionais com um passado sombrio e poucas alternativas, e o irlandês misterioso e bem apessoado simplesmente não se encaixa.
O ambiente vil da embarcação é muito bem descrito pelo autor, McGuire, que não perde tempo em gastar seu francês e ser bem franco quanto aos cheiros, objetos e ocupantes.
Este é o segundo livro do autor britânico Ian McGuire e meu primeiro contato com sua prosa, que me agradou por não ser cheia de rodeios, dedos ou bem-me-queres: as coisas acontecem em um ritmo acelerado e entorpecido de álcool e láudano.
Ele não perdoa ninguém de suas descrições despidas de pudor e quando faz uso delas através dos diálogos dos marinheiros elas se tornam ainda mais pungentes e certeiras.
A narrativa se desenvolve de forma competente e envolvente. Há no clima um cheiro de maquinação e traição que vai se tornando palpável e não demora muito até que entendemos que aquela viagem não foi organizada para terminar bem; e os desdobramentos que vão se desenrolando a cada página são um lembrete constante de como a crueldade humana pode ter tons tão escuros.
O livro foi adaptado para minissérie de mesmo nome, com Colin Farrell e Jack O’Connell, e está disponível no Globoplay.
★★★★☆
Ficha Técnica:
Águas do Norte
Ian McGuire
Editora Todavia
304 páginas
Título Original: The North Water
Tradução de Daniel Galera
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He pictures his mother’s slobbery euphoria and his dad’s doll-like face punctuated by a pair of misty eyes, and thinks that part of the fun in having a child is paying back the emotional debt we owe to our forebears. It’s just that when he thinks of their happiness, he can’t help also thinking of the spiritual exhaustion that he will feel thirty minutes later.
Às vezes sinto que viver no mundo de hoje é perceber que a batalha é contra uma ordem abrangente e implacável, que não pertence a ninguém. É como querer combater, incentivar ou se posicionar de qualquer outro modo diante de um terremoto. O que pode um estudo, um manifesto, uma bomba contra um sismo? Sua causalidade escapa à dimensão da vida individual ou social. Pensar assim nos convida ao niilismo, e não estou defendendo que seja verdade. Só constato a sensação de impotência que se acumula a conta-gotas. A utopia da redução de danos. Já nem sonhamos com a grande revolução, com o potlach global capaz de reconfigurar a marcha da autodestruição ecológica. Em vez disso, o ser humano reelege o prefeito que representa de cabo a rabo as ideologias responsáveis pelo desastre — que não é natural, e sim resultante de escolhas humanas — e recorre aos chats de IA para poupar seu intelecto das mais básicas funções cognitivas em troca de mais uns minutinhos de doomscrolling.
Trecho de Niilismo e performance no Antropoceno, ou: O data center de Eldorado é inevitável?, edição #30 da minha newsletter dentesguardados. Leiam lá! E colaborem se puderem :)
Outro aspecto que me afetou bastante foi o papel da linguagem nessa dança. Boa parte dos exercícios eram executados de olhos fechados. Janaína nos propunha caminhos e percepções falando constantemente, e era fantástico ouvi-la. A linguagem para falar dos corpos não é óbvia. Para além de um domínio inspirado da base vocabular anatômica -- pensar em ossos empilhados, em ísqueos e patelas, em vísceras pesando ou se dissolvendo --, é preciso recorrer a metáforas adequadas. Os pés "não podem lutar contra o chão", um movimento é como "um elástico desses de roupa, mas um elástico gasto, já meio frouxo", estar parado em pé envolve uma "pequeníssima dança", o ar se transforma em gelatina e nos apóia, entra pelos buracos. Ler ou ouvir palavras sobre o corpo é uma coisa, dançar enquanto ouvimos é outra: o trânsito de duas vias entre verbo e carne vai nos alimentando com informações sobre o corpo que podemos reter, e toda uma região conjuntiva do nosso conhecimento do corpo vai se reconfigurando e expandindo. Em alguns momentos senti estar em contato empírico com a ideia de que toda linguagem deriva do corpo, do mundo sensível, da concretude do ambiente. Se você tem a intenção de descrever o mundo em palavras, essa é uma constatação que pode ser transformadora.
-- Trecho da edição mais recente da minha newsletter 'dentesguardados', sobre quedas, danças e escritas. Vocês podem assinar e apoiar com qualquer quantia :)