Dia 12: O silêncio que grita
Puta que pariu, bicho... hoje eu cheguei em casa depois do trampo e o silêncio me deu um soco na cara logo na entrada. Sabe aquela vontade de chegar e falar: "Cara, tu não sabe o que aconteceu hoje!", ou só reclamar do chefe, ou contar uma piada idiota que eu ouvi no rádio? Pois é. Eu abri a boca pra falar e o som morreu na garganta, porque não tem ninguém ali pra ouvir. Ou melhor, a única pessoa que eu queria que ouvisse tá ocupada demais ouvindo os planos de futuro de outro cara.
É foda, mano. O vazio não é só a ausência física, é a ausência da rotina miúda, entende? É não ter pra quem mandar aquele meme idiota às três da tarde, é não ter quem entenda o meu "tô cansado" só pelo tom de voz. Eu me sinto um rádio sintonizado numa estação que saiu do ar, só emitindo aquele chiado estático, esperando uma resposta que eu sei que nunca mais vai vir.
E o pior, cara, é que eu fico imaginando ela chegando na casa dela — ou na casa deles, que ódio dessa palavra — e contando como foi o dia dela. Ele ouve, ele ri, ele opina. Ele tem o privilégio de saber os detalhes irrelevantes da vida dela que eu daria um braço pra conhecer. Eu virei o "ex-ouvinte", o cara que perdeu a frequência, o satélite que saiu da órbita e agora vaga pelo espaço sem sinal de GPS.
Chegar em casa e não ter pra quem contar as novidades é um lembrete cruel de que eu fui deletado da função de "pessoa favorita". Eu sou só um espectador agora, bicho. Um espectador de uma vida que eu costumava protagonizar, ou pelo menos achava que sim. O silêncio da minha sala hoje tá gritando o nome dela, e eu não tenho volume alto o suficiente pra abafar essa porra.
Traz mais uma, cara. Hoje o barulho do copo batendo no balcão é o único diálogo que eu consigo sustentar.













