Aves de Rapina: A Bombástica Estréia do Título com Chuck Dixon
Chuck Dixon fez por merecer toda a fama que tem. Não apenas passou anos escrevendo diversos títulos (bons) do Batman em uma época em que super-heróis sofriam sua maior crise criativa, como também deu vida a ainda mais publicações relacionadas a este universo. Foi pelas mãos dele que surgiram as primeiras mensais do Robin, do Asa Noturna e das Aves de Rapina. E é desta última que vamos falar hoje.
Tudo começou com uma edição especial desenhada por Gary Frank, publicada no fim de 1995, intitulada simplesmente Canário Negro/Oráculo: Aves de Rapina, uma parceria entre as duas personagens. Naquela época, a Oráculo sabia de quase tudo sobre os super-heróis da DC, mas sua identidade era conhecida por pouquíssimos deles. E Aves de Rapina é um nome não usado em nenhum momento da HQ. Na verdade, durante os anos subsequentes, quando o grupo ganhou revista mensal e tudo mais, o nome quase nunca foi citado. Mas não é bem disso que vamos falar hoje.
Na verdade, vamos comentar o encadernado Aves de Rapina: Canário Negro/Oráculo/Caçadora, que deu início a tudo isso, reunindo os primeiros encontros das personagens em publicações especiais na metade dos anos 1990.
A premissa das histórias foi originada da parceria entre Barbara Gordon (agora aleijada e uma hacker informante com o codinome Oráculo) e Dinah Lance, a Canário Negro, uma ideia que surgiu dos autores Chuck Dixon e Jordan B. Gorfinkel e do editor Frank Pittarese. Como o primeiro encontro delas, citado acima, deu muito certo, vieram em seguida Birds of Prey: Manhunt #1-4 (minissérie), Birds of Prey: Revolution #1 (one-shot) e uma história da antologia Showcase ’96 #3, com uma participação mais que especial de Lois Lane. Todas elas compõem este primeiro encadernado da série, servindo como prólogo para a futura publicação mensal das Aves de Rapina.
Portanto, no início havia Canário Negro e Oráculo. Enquanto a primeira estava começando a superar o fim de seu relacionamento com o Arqueiro Verde (morto havia pouco tempo em uma explosão), a outra tentava levar a vida como informante de vigilantes cheia de receios e traumas pelo ataque do Coringa na clássica HQ A Piada Mortal (Alan Moore, Brian Bolland). Ambas têm algo em comum: a determinação em fazer o bem seguindo uma cartilha ética bem parecida com a do Batman.
Aliás, a Oráculo já era vinculada ao Morcego nesta época, servindo de centro de inteligência para toda a Bat-família, e o conhecimento das identidades secretas de cada um era mútuo. O mesmo não valia para a Canário; Oráculo esconde-se por trás de seu avatar (numa época em que a internet começava a se popularizar nos EUA, o que gera situações bem engraçadas e nostálgicas para os dias de hoje), mas a familiaridade da voz de Barbara, seu jeito de trabalhar e os objetivos em comum garantiram em Dinah a confiança necessária para fazer a parceria funcionar. E é assim que começa.
Tematicamente, as aventuras são bem diretas, com muita influência dos filmes de ação em vigência na época. Não são poucas as referências a Duro de Matar, Aliens, True Lies e muitos outros (mas com mais charme e substância), sempre com aventuras que levam Dinah (e em seguida Mulher-Gato e Caçadora) ao redor do mundo em países que parecem-se muito com alguns que deram problemas no mundo real em plenos anos 1990.
Mas tem uma pegadinha aí.
Como diz a chamada da capa de Canário Negro/Oráculo: Aves de Rapina, há “um toque feminino” no quadrinho. Mesmo que os filmes citados sejam para um público majoritariamente masculino, e mesmo que quem compre HQs de heróis também caia neste bolo, as histórias das Aves de Rapina são completamente diferentes nesse sentido. São mulheres de verdade fazendo coisas de mulheres de verdade.
Há uma vantagem tremenda nesse sentido, pois as personagens não têm superpoderes. Logo, seus afazeres mais comuns são mediados pelas aventuras narradas por Dixon com um ritmo implacável. Sem a menor sombra de dúvidas, esta coleção é de tirar o fôlego, o que é ainda mais enriquecido pelos diálogos, principalmente de Dinah, atrevida sem lascividade, forte sem ser ofensivo. Ninguém é dependente aqui e há momentos de conversas que beiram o tarantinesco.
Destaque para as já citadas participações, mais que especiais, da Mulher-Gato, da Caçadora e de Lois Lane nas aventuras do encadernado. Cada personagem contribui com seus valores e atitudes, e Dixon soube diferenciá-las muito bem, abrindo mão de qualquer estereótipo para desenvolver mulheres verossímeis encaixadas num universo de fantasia. O balanço que a falta de ética da Mulher-Gato traz para o grupo nas missões em diversos países (que remetem do Oriente Médio às partes mais corruptas da África) é ímpar, enriquecendo uma personagem que, até então, era uma coadjuvante na história.
Ou seja, esta estreia das Aves de Rapina em encadernados é matadora, com Dixon no auge de sua criatividade e mostrando conhecimento de estrutura narrativa, personagens e até técnico, no sentido de tecnologia e armamentos citados nas histórias. Um volume para fãs de quadrinhos de super-heróis (ou até de ação) não botarem defeito, cheio de ação, intriga, romance, diálogos incríveis e arte bombástica de mestres como Gary Frank, Matt Haley, Stefano Raffaele, Sal Buscema e Jennifer Graves.
O único problema do volume é a edição. Publicado em 1999, ele ainda sofria da falta de padronização do formato, que só foi estabelecida na década seguinte. Há certa dificuldade de entender quando uma história acaba e outra começa, e o papel não é tão bom. As coisas são bem diferentes quase 20 anos depois, como o relançamento deste material recentemente, com mais dois one-shots de bônus (Birds of Prey: Wolves, Birds of Prey: Batgirl), e uma edição bem melhor.
A verdade é que estas personagens estão circulando por aí há muito tempo, e Chuck Dixon encontrou suas vozes mais profundas e singulares. Ele mudou tudo - para melhor.















