Como viene la dolencia de improviso y veloz, así también se aleja.
Filoctetes - Sófocles.
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Como viene la dolencia de improviso y veloz, así también se aleja.
Filoctetes - Sófocles.
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Hello Hello everyone!
I´m back this week with some artistic thing based on the Greek tragedy writed by Sofocles: Filoctetes!
I know, thos is weird and yes, it´s a work from the university ( XD ) But I really enjoyed painting this!
These are the most beautiful feets that I ever draw in all my fucking life :,v
Sófocles
Filoctetes
409 a.C.
Capítulo 1: O Regresso ao Abismo
O silêncio de Lemnos não era um silêncio de paz; era a ausência de testemunhas, um vazio ululante que Odisseu conhecia bem. O Penteconter deslizou para a enseada rochosa, as velas arriadas sem um murmúrio. A ilha, um monturo de basalto e mato ressequido pelo sol do Egeu, erguia-se como um túmulo. Uma década havia passado desde que tinham abandonado Filoctetes neste esquecimento forçado. Dez anos de guerra infrutífera, dez anos a provar que a moralidade de um exército era tão maleável quanto a cera quente nas mãos dos seus líderes.
Odisseu, Rei de Ítaca, saltou para terra com a agilidade de uma sombra. Os seus olhos, duros e calculistas, varreram a costa estéril. Não havia sinais de vida humana, apenas o pio distante de aves marinhas e o cheiro a sal e enxofre das fontes termais vulcânicas.
Atrás dele, hesitante, vinha Neoptólemo, filho do grande Aquiles. A glória do pai ainda pesava sobre os ombros do jovem como um manto de chumbo. Neoptólemo tinha a beleza e a franqueza que faltavam a Odisseu; qualidades que, nesta missão, seriam as suas melhores armas.
"Aqui jaz o nosso purgatório, filho de Aquiles", disse Odisseu, a voz um sussurro que o vento engolia.
Neoptólemo engoliu em seco, o seu olhar perturbado. "Um lugar desolado. Como pôde alguém sobreviver uma década aqui?"
"Filoctetes é feito de uma têmpera diferente da nossa. Ele sobreviveu porque o seu ódio o alimenta", respondeu Odisseu. "Mas não estamos aqui para admirar a paisagem, estamos aqui para um roubo. Ou, se preferires uma palavra mais nobre, para cumprir o desígnio dos deuses."
A tensão entre os dois era palpável. Odisseu representava a necessidade fria da guerra; Neoptólemo, a inocência que a guerra corromperia.
"Lembro-me de quando o deixámos aqui", continuou Odisseu, apontando para o interior rochoso. "O seu grito ainda me ecoa nos ouvidos. A ferida... o cheiro era insuportável. Os deuses escolheram-no para sofrer. Nós, meros instrumentos, apenas obedecemos à vontade do destino."
"Obedecemos, ou facilitámos?", corrigiu Neoptólemo, a sua juventude a impor uma moralidade incómoda. "Abandoná-lo foi um ato de crueldade, Odisseu. Não de piedade."
Odisseu virou-se, a paciência a esgotar-se. "Piedade não ganha guerras, jovem príncipe. A profecia de Héleno foi clara. Troia não cairá sem o arco de Héracles. E o arco está com Filoctetes. Zeus decretou que regressaríamos. Ponto final."
Caminharam para o interior da ilha, em direção à caverna onde esperavam encontrar o exilado. O plano de Odisseu era simples e diabólico na sua eficácia.
"Tu és a chave", explicou Odisseu. "Filoctetes odeia-me. Odeia Agamémnon e Menelau. Mas ele venerava o teu pai. A tua juventude, a tua semelhança com Aquiles, a tua 'inocência'... serão o isco perfeito."
Neoptólemo parou de caminhar. "Queres que eu minta? Que o engane, que abuse da sua dor e da sua confiança?"
"Quero que uses a verdade disfarçada de mentira. Tu vieste tarde para a guerra, sim. Tu foste ofendido pelos líderes gregos, sim, eles negaram-te as armas do teu pai. Tudo verdade. Mas o objetivo final é uma mentira: que o levarás para casa. Não o farás. Apenas queres o arco. Ele vai dar-te o arco se tu prometeres levá-lo de volta à Grécia."
O rosto de Neoptólemo estava pálido. "Isto é desonroso."
"Desonra é perder a guerra de dez anos e regressar de mãos vazias, Neoptólemo. Desonra é ver milhares morrerem porque um homem sofre de uma ferida fétida. A glória espera-nos em Troia. Usa a tua nobreza como uma máscara. O fim justifica os meios."
Chegaram perto da caverna. O cheiro a doença e negligência pairava no ar. Odisseu instruiu Neoptólemo sobre os pormenores finais do plano, a urgência no seu tom de voz. Tinham de ser rápidos, eficientes. A consciência do jovem era a única variável imprevisível.
Odisseu olhou para o céu. Os deuses assistiam. A tragédia estava prestes a recomeçar.
Capítulo 2: A Lição do Mestre
O ar em Lemnos parecia carregar o peso dos anos de abandono, uma mistura densa de maresia e o silêncio opressor das rochas negras. Neoptólemo parou à entrada de uma fenda estreita, os dedos roçando nervosamente o punho da sua espada. A sua mente, habituada aos discursos de honra dos Mirmidões, lutava para processar as palavras de Odisseu. O Rei de Ítaca, encostado a um penedo com uma indiferença que raiava o sacrilégio, observava o jovem como um escultor analisa um bloco de mármore imperfeito.
"Não consigo, Odisseu," murmurou Neoptólemo, a voz embargada pela repulsa. "Nasci para o combate, para olhar o inimigo nos olhos e vencer pela força do braço. Esta... esta teia de palavras que queres que eu teça, este veneno destilado em forma de amizade... não é o caminho de um filho de Aquiles."
Odisseu não se moveu. O seu rosto, sulcado pelas cicatrizes de mil estratagemas, não mostrava raiva, apenas uma paciência pedagógica e cruel. "O teu pai era um herói de uma era que está a morrer, rapaz. Aquiles era a espada; eu sou o braço que sabe onde golpear para que a espada não se parta. Queres ser lembrado como o herdeiro de um nome, ou como o homem que pôs fim à agonia de dez anos de cerco?"
"A glória não tem sabor se for comprada com a traição de um homem indefeso," retorquiu Neoptólemo, virando as costas para o mar.
"Indefeso?" Odisseu soltou um riso seco, desprovido de humor. "Aquele homem possui o arco de Héracles. Um único disparo e o teu peito nobre será atravessado antes que possas sequer invocar o nome do teu pai. Ele não é um oponente, é uma força da natureza que nos odeia com a intensidade de mil sóis. Tentar capturá-lo pela força é o mesmo que tentar prender o vento com redes de pesca. Só a astúcia — a metis — o pode domar."
Neoptólemo sentiu o conflito interno dilacerá-lo. A educação que recebera na corte do seu avô, Licomedes, em Esquiro, glorificava a areté — a excelência moral e física. Para ele, a verdade era uma linha reta. Odisseu, no entanto, apresentava-lhe um labirinto onde cada curva era uma necessidade política.
"Escuta-me bem," disse Odisseu, aproximando-se e colocando uma mão pesada no ombro do jovem. "Eu também já fui como tu. Também acreditei que o mundo se dividia entre o justo e o injusto. Mas dez anos de sangue nas areias de Troia ensinaram-me que o único pecado imperdoável na guerra é o fracasso. Se não levarmos aquele arco, Troia resistirá por mais dez anos. Mais pais perderão os filhos, mais esposas ficarão viúvas. Queres carregar essa responsabilidade em nome da tua 'honra' pessoal?"
Odisseu usava a retórica como uma arma de precisão, explorando as fissuras na consciência de Neoptólemo. Ele sabia que o jovem desejava a glória acima de tudo, e a profecia era clara: a queda de Troia pertencia-lhe, mas apenas se o arco estivesse presente.
"O que tenho de dizer, então?" perguntou Neoptólemo, a sua resistência a desmoronar-se sob o peso da lógica utilitária de Odisseu.
"A verdade que ele quer ouvir," instruiu o Rei de Ítaca. "Diz-lhe que os Atreidas te roubaram as armas de teu pai. Diz-lhe que me odeias tanto quanto ele. Deixa que a tua raiva real pela minha manipulação transpareça no teu tom — isso dará veracidade à mentira. Ele verá em ti um espírito afim, um jovem traído pela corrupção dos generais gregos. Ele confiar-te-á a única coisa que lhe resta: a sua esperança de regressar e o seu arco sagrado."
Neoptólemo olhou para as suas mãos, como se já esperasse vê-las manchadas de algo que a água do mar não pudesse lavar. A ideia de usar a própria dor pela perda das armas do pai — uma dor real e profunda — como ferramenta de manipulação parecia-lhe a forma mais baixa de sacrilégio.
"E depois? Quando ele estiver no barco, crente de que vai para casa, e perceber que o levamos para o acampamento que ele tanto amaldiçoa?"
"Depois, o destino encarregar-se-á do resto," respondeu Odisseu com uma frieza absoluta. "O herói será reintegrado, a ferida será curada pelos filhos de Asclepius, e a sua honra será restaurada no campo de batalha. Estás a salvá-lo, Neoptólemo, mesmo que precises de o enganar para o fazer. Às vezes, a maior prova de coragem não é enfrentar um exército, mas enfrentar a própria consciência pelo bem de todos."
Odisseu deu um passo atrás, fundindo-se novamente nas sombras das rochas. "Vou regressar ao navio. Estarás sozinho daqui em diante. Se o plano falhar, serei eu a vir resgatar-te, mas a glória de ser o conquistador de Troia desaparecerá como fumo. Escolhe agora: serás o filho de Aquiles que falhou no seu destino, ou o homem que garantiu a vitória da Grécia?"
Sem esperar por uma resposta, Odisseu retirou-se com o silêncio de um predador. Neoptólemo ficou sozinho perante a entrada da caverna. O vento soprava agora mais forte, trazendo consigo um som que não era o das ondas: um gemido baixo, rítmico, o som de uma dor que não conhecia o tempo.
A hesitação pesava-lhe no peito como uma armadura demasiado grande. Cada passo que dava em direção à caverna parecia um passo para fora da sua própria alma. Lembrou-se das histórias que ouvira sobre o pai, de como Aquiles preferia a morte à mentira. "Odeio, como às portas do Hades, o homem que esconde uma coisa no coração e diz outra," dizia o herói na Ilíada.
Contudo, a voz de Odisseu continuava a ecoar, insinuante e pragmática. O jovem guerreiro inspirou profundamente, tentando acalmar o bater frenético do seu coração. Endireitou os ombros, limpou a expressão de dúvida e preparou a sua máscara. A lição fora aprendida; o mestre da astúcia tinha vencido a primeira batalha. Neoptólemo entrou na escuridão da caverna, pronto para proferir as primeiras palavras de uma mentira que mudaria o curso da história, mas que o assombraria para sempre nos corredores da memória.
Capítulo 3: O Ermitão de Lemnos
A transição da luz ofuscante do Egeu para a penumbra da caverna de Filoctetes foi como um mergulho em águas profundas e turvas. Neoptólemo parou à entrada, permitindo que as suas pupilas se dilatassem, mas nada o poderia ter preparado para o assalto aos seus outros sentidos. O cheiro foi o primeiro a atingi-lo: uma mistura nauseabunda de carne em putrefação, linho sujo, enxofre e o odor metálico de sangue seco. Era o cheiro do abandono, um fedor que parecia ter impregnado as próprias paredes de calcário da gruta.
O jovem príncipe avançou com cautela, os seus pés calçados em sandálias de couro fino produzindo um som abafado no chão irregular, coberto de folhas secas e restos de caça. No fundo da cavidade, onde a luz mal chegava, viu um vulto. Não parecia um homem, mas sim uma criatura tecida de trapos e desespero. Estava deitado sobre uma cama de ervas murchas, a perna estendida de uma forma que denunciava uma agonia constante.
"Quem está aí?" A voz que emergiu da escuridão era áspera, como se as cordas vocais tivessem sido lixadas por anos de gritos solitários. "Grego? Ou apenas outra ilusão enviada pelos deuses para me torturar?"
Neoptólemo sentiu um nó na garganta. A visão era deplorável. Filoctetes, o outrora orgulhoso companheiro de Héracles, o arqueiro cuja precisão era lendária em toda a Hélade, era agora um amontoado de ossos e pele curtida. A sua barba era uma massa emaranhada de cinza e sal; os seus olhos, embora encovados, brilhavam com uma lucidez febril e perigosa.
"Sou grego," respondeu Neoptólemo, forçando a sua voz a soar firme, apesar da trepidação que lhe corria nas veias. "E não sou uma ilusão. O meu nome é Neoptólemo, filho de Aquiles."
Ao ouvir o nome de Aquiles, o homem na escuridão estremeceu. Tentou erguer-se, um esforço hercúleo que terminou num gemido sufocado. A perna esquerda, envolta em ligaduras acastanhadas pelo pus, tremia violentamente.
"Filho de Aquiles?" repetiu Filoctetes, e desta vez havia uma nota de veneração na sua voz. "O maior de todos nós... Tu tens o olhar dele. Mas o que faz um príncipe de Esquiro nestas rochas malditas onde nem os pássaros se atrevem a nidificar?"
Neoptólemo aproximou-se mais um passo, sentindo o peso do Arco de Héracles que repousava perto do herói — uma peça de madeira negra e divina que parecia pulsar com uma energia própria, contrastando com a decrepitude do seu dono. Este era o momento. A lição de Odisseu tinha de ser posta em prática.
"Vim de Tróia, ou melhor, fujo de lá," começou Neoptólemo, injetando na sua voz uma amargura que, em parte, era genuína. "Vim porque os Atreidas e o odiado Odisseu me convocaram para a guerra, prometendo-me as armas de meu pai, apenas para me cuspirem na face e as entregarem a esse mestre de mentiras de Ítaca."
Filoctetes soltou uma gargalhada seca, que rapidamente se transformou numa tosse dolorosa. "Odisseu... Esse cão de mil faces. Então ele continua a tecer a sua teia de infâmia? A saber que ele respira enquanto eu apodreço aqui é o maior castigo que os deuses me impuseram."
O herói abandonado estendeu uma mão esquelética, gesticulando para que o jovem se sentasse. Neoptólemo obedeceu, ignorando a sujidade. A proximidade permitiu-lhe ver a ferida detalhadamente: um buraco escuro na barriga da perna, onde a carne parecia recusar-se a cicatrizar, alimentada pelo veneno da hidra que outrora banhara a flecha que o ferira.
"Conta-me mais," implorou Filoctetes. "Conta-me da morte de meu amigo Aquiles. Conta-me como os gregos se tornaram monstros que devoram os seus próprios filhos. Há dez anos que não ouço uma voz humana que não seja o meu próprio lamento."
Neoptólemo, seguindo o roteiro de Odisseu, descreveu a falsa injustiça que sofrera. Falou da arrogância de Agamémnon e da frieza dos líderes gregos. Cada palavra que proferia parecia aproximá-lo mais de Filoctetes, criando um laço de ódio partilhado que era, para o velho guerreiro, mais reconfortante do que qualquer bálsamo.
"Eles abandonaram-me aqui enquanto eu dormia," disse Filoctetes, os seus olhos fixos no teto da caverna como se revisse a cena. "Acordei e vi os navios a desaparecerem no horizonte. Deixaram-me uns trapos, um pouco de comida e este arco. Se não fosse o arco de Héracles, eu teria morrido de fome no primeiro mês. Ele abate as aves que passam, ele protege-me das feras. Mas não cura a solidão, rapaz. A solidão é um veneno mais lento que o da hidra."
O coração de Neoptólemo batia contra as costelas como um pássaro enjaulado. Viu a taça de madeira partida, o arco encostado à rocha, a miséria absoluta de um homem que fora um rei. A manipulação de Odisseu parecia agora, face a esta realidade, não apenas desonesta, mas sacrílega. Contudo, lembrou-se das palavras do Rei de Ítaca: o fim justifica os meios.
"Eu vou partir em breve," disse Neoptólemo, baixando o olhar. "O meu navio espera na enseada. Não posso suportar mais o acampamento grego. Vou regressar a Esquiro, para junto dos meus."
Filoctetes arregalou os olhos. Uma esperança selvagem e aterrorizante iluminou o seu rosto. Ele rastejou em direção ao jovem, ignorando a dor lancinante na perna. Com um esforço supremo, agarrou a orla do manto de Neoptólemo.
"Leva-me contigo!" implorou, a voz a quebrar-se num soluço. "Em nome de teu pai, em nome de tua mãe, não me deixes aqui para morrer sozinho! Eu serei um fardo, eu sei... o cheiro é terrível, as minhas crises de dor são insuportáveis. Mas coloca-me num canto do navio, onde quer que seja! Não me deixes nesta ilha sem alma!"
Neoptólemo sentiu o toque frio e trémulo da mão de Filoctetes. Era o toque da humanidade ferida pedindo redenção. O plano estava a funcionar perfeitamente. O peixe tinha mordido o isco. Mas, ao olhar para aquele homem desfeito, o jovem príncipe de Esquiro percebeu que a sua própria alma estava a começar a fragmentar-se.
"Promete-me, filho de Aquiles," sibilou Filoctetes, as lágrimas abrindo sulcos na sujidade do seu rosto. "Promete que me tirarás deste abismo."
"Eu prometo," respondeu Neoptólemo, e pela primeira vez naquela manhã, não soube se a promessa era a conclusão da sua mentira ou o início da sua própria rebelião contra Odisseu.
O silêncio voltou à caverna, mas agora era um silêncio carregado de expectativa. O destino de Troia, o poder do arco sagrado e a integridade de um jovem herói estavam agora entrelaçados naquela gruta húmida, aguardando o próximo movimento de um jogo onde os deuses eram os únicos espectadores que não podiam ser enganados.
Capítulo 4: Crónicas da Dor
O interior da gruta parecia ter expirado um fôlego pesado quando Neoptólemo se sentou sobre um penedo liso, observando Filoctetes. O herói, exausto pelo esforço de ter rastejado, deixara-se cair contra a parede de rocha, a perna doente estendida como um tributo fúnebre à sua própria existência. O silêncio que se seguiu não era o vazio da ausência de som, mas a densidade de mil histórias que esperavam para ser contadas.
"Queres saber como se medem dez anos no esquecimento, jovem príncipe?" começou Filoctetes, a voz agora num registo mais baixo, quase hipnótico. "Não é pelos calendários, nem pelas fases da lua. Mede-se pela cadência da dor. Pelo momento em que o sol atinge aquela fenda no teto e eu sei que o espasmo vai começar. Dez anos a ver os mesmos navios passarem ao longe, pontos brancos no horizonte que nunca desviam a rota. Aprendi a odiar o mar tanto quanto o amo."
Neoptólemo mantinha-se imóvel, a consciência pesada pela mentira que carregava, mas genuinamente capturado pela narrativa do homem à sua frente.
"Nos primeiros dias," continuou Filoctetes, os olhos perdidos num ponto qualquer do passado, "eu gritava até as minhas cordas vocais sangrarem. Chamava por Agamémnon, por Menelau... até por Odisseu. Pedia que voltassem, que tivesse sido apenas um erro, um esquecimento cruel mas remediável. Mas o único que me respondia era o eco das rochas. A solidão é um animal que nos devora de dentro para fora, rapaz. Começa por te roubar a voz, depois o sentido do tempo e, finalmente, a certeza de que ainda és humano."
O herói apontou para um canto da caverna onde se acumulavam pequenos montes de penas e ossos de aves.
"Aquele arco... o Arco de Héracles, foi o que me manteve vivo. Mas vês a ironia? O objeto que me foi dado por um deus para realizar feitos heróicos tornou-se uma ferramenta de sobrevivência miserável. Eu, que deveria estar a derrubar os muros de Troia, passava as tardes a rastejar pelo mato, ignorando a dor lancinante na perna, apenas para abater uma pomba silvestre. E quando a abatia, tinha de me arrastar até ela, o sangue da ferida traçando um rasto na terra, competindo com os vermes pela minha própria refeição."
Filoctetes soltou um suspiro que pareceu vir das profundezas da terra. A sua mão, ossuda e manchada, acariciou a madeira escura do arco com uma ternura quase maternal.
"Houve invernos em que o gelo cobria estas paredes. Sem fogo, eu envolvia-me nestes trapos podres e rezava para que o veneno da hidra me levasse de vez. Mas a morte é uma amante esquiva para quem a deseja demasiado. A ferida... ah, a ferida é uma entidade viva. Ela fala comigo. Ela pulsa com um ritmo próprio. À noite, quando o mundo cala, eu oiço o meu próprio sangue a lutar contra o apodrecimento. Sabes o que é ser o teu próprio hospital e o teu próprio cemitério, Neoptólemo?"
O jovem príncipe sentiu um arrepio percorrer-lhe a espinha. A Tragédia não era apenas sobre um arco; era sobre o limite da resistência humana. A crueldade de Odisseu e dos Atreidas ganhava contornos monstruosos sob esta luz. Como puderam deixar um companheiro de armas, um herói de tal calibre, a viver como uma besta ferida?
"Às vezes," prosseguiu Filoctetes, a sua voz endurecendo, "outros marinheiros desembarcaram aqui. Homens que se perderam ou que procuravam água. Eu implorava-lhes, tal como implorei a ti. Chorava aos seus pés, oferecia-lhes tudo o que não tinha. Eles davam-me um pouco de pão, uma túnica velha, diziam palavras de conforto que soavam a cinza... e partiam. Todos partiam. A piedade humana tem um limite curto, Neoptólemo. Ninguém quer levar consigo o cheiro da morte. Ninguém quer um companheiro cuja dor interrompe o sono com gritos de agonia."
Ele fixou o olhar no filho de Aquiles, um olhar tão intenso que parecia queimar.
"Mas tu... tu és diferente. Tu trazes a luz do teu pai. Tu também foste ferido, não na carne, mas na honra. Isso cria um vínculo que nenhum marinheiro mercenário pode entender. Quando dizes que me vais levar, eu acredito. Porque se tu mentisses, se tu fosses como Odisseu, o cosmos não teria sentido. A justiça dos deuses teria de colapsar."
Neoptólemo baixou a cabeça, incapaz de sustentar o olhar do ermitão. A cada palavra de confiança de Filoctetes, a armadura de cinismo que Odisseu lhe vestira parecia apertar-se até o sufocar. Ele era o instrumento de uma traição que faria o abandono original parecer um ato de misericórdia. Odisseu queria o arco; Neoptólemo estava a roubar a última nesga de esperança de um homem que já não tinha nada.
"Vês estas marcas nas paredes?" Filoctetes apontou para riscos profundos na pedra calcária. "São os anos. Dez riscos longos. Cada um deles representa trezentos e sessenta e cinco dias de ódio purificado. Eu sobrevivi para ver a queda daqueles que me deixaram aqui. Se eu morrer hoje, mas souber que os Atreidas sofrerão e que tu, rapaz, serás o grande herói de Troia com a justiça do teu lado, eu morrerei em paz."
O herói tentou ajeitar a perna, mas um espasmo súbito fez o seu rosto contorcer-se. Uma gota de suor frio escorreu-lhe pela testa. O cheiro da ferida pareceu intensificar-se com o movimento, preenchendo o ar da caverna com uma lembrança vívida da sua condição mortal.
"Diz-me, Neoptólemo," sussurrou Filoctetes, a voz tremendo pela dor iminente, "quando partimos? O vento parece favorável. Sinto o cheiro da chuva que vem do norte. Não me faças esperar mais um crepúsculo nesta sepultura de pedra."
Neoptólemo levantou-se, o coração aos saltos. A mentira estava na ponta da língua, pronta para ser disparada como uma seta. "Partiremos assim que o meu pessoal estiver pronto," disse ele, a voz soando-lhe estranha aos próprios ouvidos. "Mas primeiro, Filoctetes, precisas de descansar. O caminho até à praia é longo e o navio exige força."
Enquanto Filoctetes fechava os olhos, confiando a sua vida ao filho do homem que mais admirara, Neoptólemo caminhou até à entrada da gruta. Lá fora, o sol de Lemnos continuava a brilhar com uma indiferença divina. Ele olhou para o horizonte, esperando ver o navio, mas o que viu foi a sombra de Odisseu projectada numa rocha distante — o mestre de marionetas observando a sua criação. O capítulo da dor de Filoctetes estava a encerrar-se, mas o capítulo da culpa de Neoptólemo estava apenas a começar.
Capítulo 5: O Mercador das Sombras
O equilíbrio precário dentro da caverna foi subitamente quebrado por um som estranho a àquele deserto: o bater de botas contra o cascalho e uma voz que clamava pelos viajantes. Neoptólemo, ainda sob o peso das confissões de Filoctetes, levantou-se num sobressalto, a mão voando para o punho da espada. À entrada da gruta, recortado contra a claridade violenta do exterior, surgiu um homem que parecia personificar a própria incerteza.
Trajava as vestes grosseiras de um mercador de mar alto, com um manto manchado de salitre e um chapéu de abas largas que lhe ensombrava as feições. No entanto, Neoptólemo reconheceu-o de imediato sob o disfarce: era um dos marinheiros de confiança de Odisseu, um mestre da dissimulação enviado para garantir que a peça teatral não saísse do guião.
"Saudações, estrangeiros!" exclamou o recém-chegado, arquejando como se tivesse corrido quilómetros pelas encostas de Lemnos. "Procuro o filho de Aquiles. Disseram-me na praia que o seu navio estava ancorado nesta enseada maldita."
Filoctetes, alertado pelo tom urgente, tentou arrastar-se para a luz, os olhos semicerrados pela suspeita. "Quem é este homem? Por que treme ele como quem traz o Hades nas costas?"
Neoptólemo, sentindo o olhar invisível de Odisseu sobre si através deste mensageiro, deu um passo em frente. "Fala, marinheiro. Que notícias trazes que não podem esperar pelo vento?"
O "Mercador das Sombras" lançou um olhar fugaz a Filoctetes — um olhar que misturava horror fingido e urgência calculada. "Trago notícias do acampamento grego em Troia, senhor. Parti de lá há poucos dias num navio mercante. Há uma grande agitação. Odisseu e Diomedes partiram com uma frota para capturar um homem... um homem que, segundo dizem, é a única chave para a vitória."
Filoctetes soltou um grunhido de escárnio. "Odisseu? Sempre Odisseu. E quem é a presa desta vez? Algum outro príncipe que ele pretenda trair?"
O mensageiro fixou os olhos em Filoctetes, fingindo reconhecê-lo apenas naquele instante. Recuou um passo, a mão no peito. "Pelos deuses... serás tu? Tu és o herói que os Atreidas abandonaram? Filoctetes?"
"Sou o que resta dele," respondeu o ermitão com amargura.
"Então foge!" exclamou o marinheiro, a voz carregada de um pânico artificialmente destilado. "Odisseu jurou levar-te de volta a Troia, vivo ou morto. Ele capturou o vidente Héleno, filho de Príamo, e o oráculo foi claro: Troia só cairá perante ti e o teu arco. Odisseu vangloriou-se perante todo o exército de que te traria como uma besta de carga para exibir diante das portas de Esquias."
O efeito das palavras foi imediato. Filoctetes empalideceu, a sua raiva transformando-se num terror gélido. A ideia de ser capturado pelo seu maior inimigo, de ser usado como um mero objeto para a glória de quem o traíra, era pior do que a morte lenta na caverna.
"Nunca!" gritou Filoctetes, a sua voz falhando. "Prefiro que a minha ferida me devore por completo do que ver o rosto desse demónio de Ítaca a sorrir sobre a minha desgraça. Neoptólemo, ouves isto? Eles vêm buscar-me! Precisamos de partir agora! Leva-me para o teu navio antes que as velas de Odisseu manchem este horizonte."
Neoptólemo observava a cena com uma náusea crescente. Admirava a perícia do marinheiro, a forma como cada palavra era um prego cravado na vontade de Filoctetes. Era a manipulação psicológica na sua forma mais pura: o "Mercador das Sombras" não estava ali para vender mercadorias, mas para vender medo. E o medo era o combustível que levaria Filoctetes para o navio de livre vontade.
"Acalma-te, Filoctetes," disse Neoptólemo, a sua voz soando oca. "O meu navio está pronto. Não permitirei que Odisseu te toque."
"Mas tens de te apressar, jovem senhor!" interveio o mercador disfarçado. "Diz-se que a frota de Diomedes está perto. Se fores apanhado a protegê-lo, serás considerado um traidor à causa grega. Queres arriscar a tua linhagem e a tua frota por este homem?"
Este era o golpe de mestre. Odisseu estava a dar a Neoptólemo uma "saída" honrosa aos olhos de Filoctetes: ele não o estava a levar por ordem de Odisseu, mas sim apesar das ameaças de Odisseu. A mentira tornava-se uma camada dupla de proteção.
Filoctetes agarrou o braço de Neoptólemo com uma força desesperada. "Não me abandones, filho de Aquiles. Se fores o homem que dizes ser, leva-me daqui. O arco... o arco será teu para guardares durante a viagem. Eu confio em ti. Só em ti."
Neoptólemo olhou para o marinheiro disfarçado. Viu o brilho de triunfo nos olhos do homem. O plano de Odisseu estava a atingir o seu apogeu. O arco, o instrumento divino que decidia o destino de impérios, estava prestes a mudar de mãos através de uma promessa forjada no terror.
"Preparai as macas," ordenou Neoptólemo ao marinheiro, querendo acabar com aquela farsa o mais depressa possível. "Vamos levá-lo. Se Odisseu aparecer, terá de passar por cima do meu cadáver."
O marinheiro curvou-se, um sorriso impercetível a brincar-lhe nos lábios, e retirou-se para a entrada da caverna para sinalizar aos outros. Neoptólemo ficou sozinho com Filoctetes por um breve momento. O ar na gruta parecia ter ficado mais rarefeito.
"Obrigado," sussurrou Filoctetes, as lágrimas escorrendo pela pele curtida. "Héracles enviou-te para me salvar. Eu sinto-o."
Neoptólemo não respondeu. Sentia-se como se estivesse a vender a própria alma em troca de uma vitória que já não desejava. O mercador tinha cumprido a sua missão: o medo tinha vencido a razão, e a sombra de Odisseu alongava-se agora por toda a ilha, mais densa do que a noite que se aproximava. O próximo passo seria o mais difícil: o momento em que a dor física de Filoctetes o deixaria completamente à mercê daqueles que ele mais odiava.
Capítulo 6: O Ataque e a Prova
O esforço para se preparar para a partida foi o gatilho. O movimento, a adrenalina da esperança e o terror instilado pelo "Mercador das Sombras" romperam a frágil trégua que o corpo de Filoctetes mantinha com o veneno. No momento em que Neoptólemo o ajudava a erguer-se, um grito inumano, um som que parecia rasgar o próprio tecido da realidade, ecoou pelas paredes da caverna.
Filoctetes desabou. Não foi uma queda comum; foi um colapso total, como se os seus ossos se tivessem transformado em vidro. A perna esquerda começou a latejar com uma violência visível através das ligaduras imundas. O sangue, agora de um vermelho escuro e ralo, começou a ensopar o tecido, e o odor a putrefação intensificou-se até se tornar quase sólido.
"Ah! Deuses... a dor... ela vem!" gemia Filoctetes, cravando as unhas na terra batida da gruta. "Não me toques, rapaz! Deixa-me... deixa que ela se alimente. Ela é um lobo que me morde o espírito!"
Neoptólemo recuou, horrorizado. Tinha visto homens morrerem no campo de batalha, atravessados por lanças ou com os membros decepados, mas nunca vira uma agonia tão lenta e possessiva. Era uma tragédia física que transcendia o entendimento. Filoctetes contorcia-se, a sua pele mudando de um cinzento pálido para um roxo febril. O suor escorria-lhe em bica, lavando a sujidade dos anos e revelando a máscara de pura tortura que era o seu rosto.
"Corta-me a perna!" gritou ele, delirando. "Pega na tua espada e corta-a pela raiz! Queima-me, mas livra-me deste fogo que não se apaga!"
O jovem príncipe de Esquiro sentiu uma urgência de piedade que ameaçava desintegrar o plano de Odisseu. Ali, perante o sofrimento nu, a estratégia política parecia uma obscenidade. Neoptólemo ajoelhou-se ao lado do herói, limpando-lhe a testa com um pedaço de linho limpo.
"Aguenta, Filoctetes. Eu estou aqui. Não te abandonarei."
Filoctetes, num momento de lucidez entre as ondas de choque da dor, agarrou a mão de Neoptólemo. A sua força era surpreendente para um homem naquele estado. O seu olhar fixou-se no arco que repousava a poucos passos, a arma de Héracles que brilhava suavemente na penumbra.
"Toma-o..." sussurrou Filoctetes, as palavras saindo entre dentes cerrados. "Toma o arco, filho de Aquiles. A crise... ela vai levar-me o juízo. Vou cair num sono profundo, um sono de morte temporária. É o único alívio que o veneno me concede após o banquete. Guarda-o. Não deixes que ninguém lhe toque até que eu acorde. Nem Odisseu, nem os teus homens... ninguém."
Com um esforço final que parecia drenar a sua última gota de vida, Filoctetes empurrou o arco sagrado para os braços de Neoptólemo. O peso da arma era estranho — leve como o sopro do vento, mas carregado de uma autoridade divina que fez o coração do jovem parar por um instante. Neoptólemo segurou a madeira negra, sentindo a vibração de séculos de heroísmo e a responsabilidade de um legado que ele estava prestes a roubar.
"Eu guardá-lo-ei," disse Neoptólemo, a voz embargada. "Juro pelos deuses que ninguém o tirará das minhas mãos sem o meu consentimento."
Filoctetes soltou um longo suspiro, os seus olhos reviraram-se e o seu corpo, finalmente exausto pela luta contra a dor, relaxou num estado de inconsciência profunda. O silêncio que se seguiu foi absoluto, interrompido apenas pela respiração pesada de Neoptólemo e pelo som rítmico das ondas lá fora.
Neoptólemo estava ali, de pé, no centro da caverna. Tinha o objetivo da missão nas mãos. O arco de Héracles era seu. Podia simplesmente caminhar até à praia, sinalizar a Odisseu e partir, deixando o ermitão adormecido para trás. A guerra acabaria. Tróia cairia. Ele seria o herói supremo.
No entanto, ao olhar para o arco e depois para o homem estendido no chão, a glória parecia-lhe cinza. A posse do arco não lhe trazia o triunfo, mas uma clareza terrível. Ele tinha obtido a arma através da confiança de um homem que sofria o indizível. Cada entalhe na madeira do arco parecia acusá-lo de traição.
Odisseu apareceu subitamente na entrada da caverna, a sua silhueta bloqueando a luz. O seu olhar caiu imediatamente sobre o arco nas mãos de Neoptólemo.
"Excelente," disse Odisseu, a voz desprovida de qualquer emoção que não fosse a satisfação pragmática. "O destino foi generoso. Ele entregou-te a arma voluntariamente. Agora, traz o arco. Deixa-o aí. Ele não nos serve de nada e a sua ferida é um fardo que o exército não precisa de carregar."
Neoptólemo apertou o arco contra o peito. "Ele confiou em mim, Odisseu. Ele deu-me isto para que eu o protegesse enquanto dormia. Como posso eu partir e deixá-lo nesta terra de ninguém, agora que lhe tirei a única coisa que o mantinha vivo?"
"Estás a ser sentimental, rapaz," retorquiu Odisseu, aproximando-se. "O arco é o que importa. Filoctetes é apenas a bainha velha que o guardava. Cumpriste o teu dever para com a Grécia. Dá-me a arma."
"Não," disse Neoptólemo, e a palavra ecoou com uma força que surpreendeu ambos. "Não o farei enquanto ele não acordar. Não posso ser o herói de uma vitória construída sobre o cadáver da minha própria honra."
Odisseu parou, os olhos estreitados. A tensão entre o mestre da astúcia e o jovem da integridade atingira o ponto de rutura. Naquela caverna, entre o herói caído e a arma divina, o destino da Guerra de Troia já não dependia de setas, mas da escolha de um jovem que se recusava a ser apenas um peão.
Capítulo 7: O Dilema do Sangue
O sono de Filoctetes não era um repouso, mas um campo de batalha. Enquanto jazia inconsciente, o seu corpo estremecia com espasmos involuntários, e um suor frio e viscoso banhava-lhe a pele. Neoptólemo permanecia imóvel, a poucos metros, segurando o Arco de Héracles como se fosse um recém-nascido ou uma maldição. O peso da madeira negra parecia ter aumentado, ganhando uma gravidade moral que o jovem príncipe sentia esmagar-lhe os pulmões.
Odisseu, à entrada da gruta, observava a cena com a impaciência de um predador que vê a sua presa já capturada, mas ainda não consumida. "O tempo esgota-se, filho de Aquiles. O vento mudou. Leva o arco para o navio. Deixa que este homem encontre a sua paz nas rochas que escolheu como túmulo há dez anos."
"Ele não as escolheu," murmurou Neoptólemo, sem desviar os olhos do rosto contorcido de Filoctetes. "Nós escolhemo-las por ele."
Subitamente, um gemido longo e profundo cortou o ar. Filoctetes estava a regressar. Os seus dedos arranharam o solo e os seus olhos abriram-se devagar, primeiro nublados, depois fixando-se no teto da caverna com a lucidez terrível de quem acorda para a mesma dor de sempre. Mas, desta vez, algo era diferente. Ele viu Neoptólemo. Viu a luz da entrada. E viu o seu arco.
"Tu... ainda estás aqui?" sussurrou Filoctetes, a voz soando como o roçar de pergaminho velho. "Pensei que o sono me tivesse roubado a última visão de um amigo. Dá-me a tua mão, rapaz. Ajuda-me a sentir que a terra ainda é firme."
Neoptólemo não se moveu. O arco nas suas mãos parecia agora arder.
"O arco, Neoptólemo," disse Filoctetes, tentando sorrir através da máscara de fadiga. "Guarda-o bem enquanto descemos à praia. Ele é o meu passaporte para a vida. Sem ele, eu não passaria de uma carcaça para as águias. Mas contigo... contigo sinto que a minha honra está segura."
O silêncio que se seguiu foi insuportável. Neoptólemo sentiu o olhar de Odisseu nas suas costas, uma pressão fria e imperiosa. O jovem olhou para Filoctetes — para a sua vulnerabilidade absoluta, para a confiança cega depositada num estranho — e sentiu a sua alma fragmentar-se. A tragédia atingia o seu zénite: a colisão entre a necessidade do Estado e a integridade do indivíduo.
"Filoctetes," começou Neoptólemo, e a sua voz tremeu de uma forma que nenhuma espada o fizera tremer. "Eu... eu tenho de te confessar algo. Algo que te vai ferir mais do que a seta da hidra."
Filoctetes franziu o sobrolho, a suspeita começando a serpentear pela sua mente. "Que dizes, rapaz? O teu rosto mudou. Parece que a sombra de outro homem te habita."
"Eu não te vim salvar," cuspiu Neoptólemo, as palavras saindo num fluxo amargo. "Eu vim para te capturar. Eu vim para levar este arco a Tróia, porque sem ele a nossa causa está perdida. Tudo o que te disse sobre o meu ódio aos Atreidas... parte era verdade, mas o fim era uma mentira. Não vais para casa. Vais para o acampamento grego. Vais para junto dos homens que te abandonaram."
A expressão de Filoctetes passou da confusão ao horror puro. Ele tentou levantar-se, mas a fraqueza derrubou-o novamente. "O quê? Tu... o filho de Aquiles? O herdeiro da nobreza? Estás a dizer-me que usaste a minha dor como isco? Que este arco, que te entreguei em confiança divina, é agora o meu próprio grilhão?"
"Eu tinha ordens," justificou Neoptólemo, embora as palavras soassem vazias até para si próprio. "A Grécia precisa de ti. O destino exige-o."
"A Grécia!" rugiu Filoctetes, uma força súbita alimentada pela indignação a fazê-lo sentar-se. "A Grécia é um covil de lobos liderados por raposas! Dá-me o arco, rapaz. Devolve-o agora. Se tens um pingo do sangue do teu pai, não sejas o ladrão de um moribundo."
"Dá-lho, e serás um traidor à pátria!" A voz de Odisseu ecoou como um trovão quando ele entrou finalmente na caverna, desembainhando a espada. "Neoptólemo, afasta-te dele! O arco pertence à expedição. É propriedade dos deuses e dos reis, não deste ermitão amargo."
Filoctetes, ao ver Odisseu, soltou um grito de fúria e desespero que parecia vir das entranhas da ilha. "Tu! Eu sabia! Eu senti o cheiro da tua podridão no vento! Odisseu, o mestre das sombras... tu usaste este rapaz para fazeres o que a tua cobardia não te permitia fazer sozinho!"
Odisseu ignorou o insulto, os seus olhos fixos na arma. "Podes gritar para as rochas, Filoctetes. O arco está connosco. E tu também virás, quer seja por tua vontade, quer seja arrastado como um cão de caça."
"Nunca!" gritou Filoctetes, lançando-se para a frente num esforço desesperado para alcançar as pernas de Neoptólemo. "Mata-me aqui! Faz o que devias ter feito há dez anos! Mas não me leves para ser o teu troféu!"
Neoptólemo encontrava-se no centro da tempestade. De um lado, o pragmatismo frio de Odisseu, que via o mundo como um tabuleiro de xadrez onde os homens eram peças sacrificáveis. Do outro, a humanidade dilacerada de Filoctetes, que exigia apenas a verdade e a dignidade. O arco pesava-lhe nas mãos, um símbolo de poder que ele agora compreendia ser uma maldição para quem o possuísse através da fraude.
"Afasta-te, Odisseu," disse Neoptólemo, a sua voz ganhando uma autoridade nova, nascida não do comando, mas da convicção.
"O quê?" Odisseu parou, incrédulo. "Estás a desafiar o teu general? Estás a deitar fora a vitória da Grécia por causa de um farrapo humano?"
"Estou a salvar o que resta de mim," respondeu Neoptólemo. Ele olhou para Filoctetes, cujos olhos imploravam por um ato de justiça. O jovem príncipe percebeu que o verdadeiro inimigo não era Troia, nem sequer Odisseu, mas a mentira que ele permitira que crescesse dentro de si.
O confronto atingira o ponto de não retorno. Na penumbra daquela gruta em Lemnos, a guerra de dez anos tinha sido reduzida a três homens e um arco. A decisão de Neoptólemo nos próximos instantes definiria se ele seria lembrado como o herói que conquistou uma cidade ou como o homem que recuperou a sua alma.
Capítulo 8: O Arco Devolvido
O ar na caverna tornou-se subitamente rarefeito, como se o oxigénio tivesse sido consumido pela tensão elétrica entre os três homens. Odisseu deu um passo em frente, a luz da entrada da gruta incidindo sobre o bronze da sua espada, criando reflexos que dançavam nas paredes húmidas. O Rei de Ítaca não era um homem de fúrias cegas; a sua raiva era uma ferramenta fria, afiada pela necessidade política.
"Neoptólemo," sibilou Odisseu, a voz num tom de aviso que faria tremer veteranos de mil batalhas. "Não deixes que o teu coração juvenil cometa um erro que a história não perdoará. Estás a um passo de seres o maior herói da tua geração ou o maior traidor da Hélade. Entrega-me o arco. Agora."
Neoptólemo olhou para a arma negra de Héracles. Sentia o poder que emanava da madeira, um latejar que parecia sintonizado com o batimento cardíaco da própria terra. Depois, olhou para Filoctetes. O herói abandonado estava de joelhos, a sua dignidade reduzida a cinzas pela traição, mas os seus olhos... os seus olhos mantinham uma centelha de fogo que nem dez anos de Lemnos tinham conseguido apagar.
"Odisseu," começou Neoptólemo, a sua voz ganhando uma calma que assombrou o próprio mestre da astúcia. "Disseste-me que a glória de Troia exigia este sacrifício. Disseste-me que a mentira era apenas um caminho para uma verdade maior. Mas vi o que a tua 'verdade' faz aos homens. Vi como ela transforma heróis em fantasmas e príncipes em ladrões. Se a queda de Troia depende deste crime, então Troia merece continuar de pé."
Com um movimento fluido e solene, Neoptólemo ignorou a espada desembainhada de Odisseu. Caminhou em direção a Filoctetes.
"Para!" gritou Odisseu, avançando com a lâmina erguida. "Juro pelos deuses que se deres mais um passo, partilharei contigo o destino que reservaste para este miserável!"
Neoptólemo não parou. Ele sabia que Odisseu era pragmático; matar o filho de Aquiles criaria uma guerra civil no seio do exército grego que nenhum arco poderia resolver. O jovem apostava a sua vida não na piedade de Odisseu, mas na lógica férrea do Rei de Ítaca.
Ajoelhou-se diante de Filoctetes. O ermitão recuou, temendo um novo golpe, uma nova faceta da farsa. Mas Neoptólemo estendeu as mãos, oferecendo o arco pela pega, tal como o herói o fizera minutos antes.
"Toma, Filoctetes," disse o jovem, com uma humildade que cortou o silêncio. "Toma o que é teu por direito divino e humano. Peço-te perdão pela minha língua manchada e pelo meu espírito vacilante. Prefiro morrer como um homem justo às mãos de Odisseu do que viver como um conquistador coroado pela fraude."
Filoctetes hesitou. Os seus dedos esqueléticos roçaram a madeira. No momento em que a sua pele tocou o arco, um suspiro de alívio pareceu percorrer a gruta. O arco tinha regressado ao seu dono. O herói agarrou a arma e, num movimento que desafiava a sua condição física, ergueu-se, usando o arco como apoio. Num segundo, uma flecha foi retirada da aljava e encostada à corda. O alvo era o peito de Odisseu.
"Agora, Odisseu!" rugiu Filoctetes, a voz recuperando o timbre de um rei. "Agora podes testar se a tua astúcia é mais rápida do que a seta que nunca falha! Vem buscar o teu troféu!"
Odisseu estacou. Ele conhecia a fama daquela arma. Sabia que, àquela distância, nem a sua perícia nem a sua armadura o salvariam. O mestre dos estratagemas viu-se, pela primeira vez em anos, sem saída. O seu rosto, outrora uma máscara de autoridade, contraiu-se numa expressão de puro ódio pragmático.
"Estás a cometer um erro fatídico, Neoptólemo," disse Odisseu, recuando lentamente para a luz do sol. "Estás a condenar milhares de gregos à morte nas muralhas de Ílion por causa de um orgulho ferido. A história julgar-te-á pelo sangue que será derramado por causa desta tua 'justiça'."
"Que assim seja," respondeu Neoptólemo, colocando-se entre Filoctetes e Odisseu, mas sem desembainhar a sua própria arma. "Prefiro responder perante o tribunal do Hades por uma derrota honrosa do que reinar sobre uma vitória infame."
Odisseu desapareceu na claridade da entrada, as suas botas batendo pesadamente contra o cascalho enquanto regressava ao navio para reunir os seus homens. A tensão imediata dissipou-se, mas foi substituída por uma melancolia profunda.
Filoctetes baixou o arco. O seu corpo tremia, não de dor, mas da descarga de adrenalina. Olhou para Neoptólemo com uma mistura de assombro e gratidão. "Tu fizeste-o... Tu devolveste-me a alma, rapaz. Mas sabes o que isto significa? Odisseu não desistirá. Eles cercarão esta ilha. Eles preferem queimar Lemnos até às cinzas do que partir sem este arco."
"Eu sei," disse Neoptólemo. "Mas agora estamos do mesmo lado da verdade. Se tivermos de lutar contra todo o exército grego nestas rochas, fá-lo-emos como homens livres."
Filoctetes sentou-se, a sua perna latejando novamente, mas o seu olhar estava agora fixo no mar. "Diz-me, filho de Aquiles... Se eu te pedisse agora para me levares para casa, para Malis, longe de Tróia e da guerra... tu fá-lo-ias? Mesmo sabendo que isso selaria o destino do teu povo?"
O dilema final estava lançado. A tragédia de Filoctetes não terminava com a devolução da arma; terminava com a escolha entre o desejo individual de paz e a responsabilidade coletiva perante o destino. Neoptólemo olhou para o horizonte, onde as velas dos navios gregos pareciam dentes de tubarão na superfície da água, e preparou-se para a resposta que definiria o resto das suas vidas.
Capítulo 9: O Veredicto dos Deuses
O sol começava a descer sobre o horizonte de Lemnos, tingindo as águas do Egeu com um tom de sangue e bronze. Na enseada, os navios gregos agitavam-se; Odisseu não era homem de aceitar a derrota sem um último movimento de xadrez, e o som de búzios ecoava pelas escarpas, convocando os marinheiros para um cerco final. Dentro da gruta, o ar estava carregado com o peso de uma decisão que parecia imutável.
"Não voltarei, Neoptólemo," declarou Filoctetes, a sua voz vibrando com uma determinação gélida. "Podes ter devolvido o arco, e por isso a minha alma saúda a tua, mas o meu corpo recusa-se a servir aqueles que o trataram como lixo orgânico. Se Troia tem de cair, que caia sem o meu braço. Se os gregos têm de morrer, que morram sob o peso da sua própria ingratidão."
Neoptólemo, em pé à entrada da caverna, olhava para o mar. Ele tinha cumprido a sua promessa de honra, mas a sua mente de guerreiro via o abismo que se abria. "Filoctetes, eu dei-te a minha palavra. Se o teu desejo é Malis, para Malis navegaremos. Mas escuta o que te digo: a tua ferida nunca fechará na solidão do teu lar. A profecia diz que apenas em Troia, pelas mãos dos filhos de Asclepius, encontrarás a cura. Escolhes o ódio que te consome ou a vida que te espera?"
"Escolho a dignidade," sibilou o ermitão, abraçando o arco sagrado. "Mesmo que a dignidade cheire a morte."
No momento em que Neoptólemo se preparava para ordenar a partida do seu navio, um fenómeno sobrenatural paralisou a ilha. O vento, que rugia lá fora, calou-se subitamente. Um silêncio absoluto, sobrenatural, desceu sobre Lemnos. A luz do crepúsculo intensificou-se, transmutando-se de um laranja terroso para um dourado ofuscante que parecia emanar do próprio céu.
No topo do rochedo que coroava a gruta, surgiu uma figura que desafiava a mortalidade. Não era um homem, embora tivesse a forma de um. Era uma visão de poder bruto e serenidade olímpica. Trajava a pele do Leão de Nemeia e segurava uma clava que parecia esculpida nas raízes do mundo.
"Filoctetes!" A voz não soou nos ouvidos, mas no âmago dos ossos dos dois homens.
Filoctetes caiu de joelhos, o rosto banhado por uma luz que ele não via há décadas. "Héracles? Meu senhor... meu guia..."
Era o deus ex machina, a intervenção divina que resolve o impasse humano. Héracles, agora um deus no Olimpo, olhava para o seu antigo escudeiro com uma mistura de compaixão e autoridade.
"Não temas, filho de Peante," trovejou a divindade. "Eu venho do palácio de Zeus para te revelar os caminhos do Fado. O teu ódio é justo, mas o teu destino é maior do que a tua dor. Escuta: se fores para Malis, morrerás com a glória de um mártir, mas Troia permanecerá como um cancro na história. Se fores para o acampamento grego com este jovem, a tua ferida será curada. Tu derrubarás Páris, o autor de todos os males, e os despojos da vitória serão teus para honrares a memória de teu pai."
Filoctetes tremia. A presença de Héracles era o único bálsamo capaz de neutralizar o veneno de dez anos de abandono.
"E tu, filho de Aquiles," continuou a visão, voltando-se para Neoptólemo. "A tua justiça salvou-te da infâmia. Sem ti, Filoctetes não teria o arco; sem ele, tu não terias a glória. Sois como dois leões que guardam a mesma presa. Ide juntos. Sede o escudo um do outro."
A luz começou a dissipar-se, e a figura de Héracles fundiu-se com as primeiras estrelas que surgiam no firmamento. O silêncio que se seguiu já não era o da solidão, mas o da promessa cumprida.
Filoctetes levantou-se. A sua perna ainda doía, mas o seu olhar tinha mudado. O ódio, que fora a sua única companhia, tinha sido substituído por uma resignação divina. Ele olhou para Neoptólemo e, pela primeira vez, estendeu a mão não para pedir ajuda, mas para selar um pacto.
"Odisseu espera na praia," disse Filoctetes com um sorriso triste. "Ele pensará que venceu pela sua astúcia. Deixemos que ele acredite nisso. Nós sabemos que a vitória pertence àqueles que, mesmo no abismo, não perderam a humanidade."
Caminharam juntos para a praia. Os marinheiros de Neoptólemo aguardavam, perplexos com a mudança de rumo. Odisseu, ao vê-los aproximarem-se — Filoctetes apoiado no jovem príncipe, o arco de Héracles brilhando ao ombro — não disse uma palavra. Ele compreendeu que algo maior do que os seus estratagemas tinha ocorrido naquela tarde.
Enquanto o navio cortava as ondas em direção a Troia, Filoctetes sentou-se na proa, sentindo o vento no rosto. A ilha de Lemnos ficava para trás, uma cicatriz de basalto no meio do mar. Ele ainda era um homem ferido, e a guerra ainda o esperava com os seus horrores e glórias. Mas, ao olhar para Neoptólemo, que comandava o leme com a retidão de um verdadeiro herói, Filoctetes percebeu que a sua verdadeira cura não viria dos médicos de Troia, mas da amizade que nascera do mais profundo engano.
A tragédia encerrava-se não com uma queda, mas com um reerguimento. O herói abandonado regressava ao mundo dos homens, não como uma ferramenta de guerra, mas como a prova viva de que o destino, por mais cruel que seja, pode ser navegado com honra quando o homem se recusa a ser menos do que o seu próprio mito.
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