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Esther
Ligadas por um amor incondicional, amor de amigo, amor leal... Você me incentiva a ser melhor em todos os nossos encontros. Nada é impossível quando estou com você. Serei eternamente grata por fazer com que eu me sinta em casa apenas com um olhar, um abraço e com o mínimo de palavras possíveis. Eu amo você e tenho muito orgulho de dizer que é minha amiga!
-Julia Delmaestro
A manhã abre-se em silêncio. Folhas, neblina e luz a caminho do Douro.
O Fardo do Lunático
Nas terras altas de Trás-os-Montes, a paisagem não é um cenário; é um veredito de xisto e silêncio que esmaga qualquer esperança de fuga. Em Freixo, a aldeia parece ter sido cuspida pelas entranhas da montanha, um aglomerado de granito e xisto onde o vento não sopra — ele ulula, carregando segredos que os vivos preferem fingir que esqueceram. Ali, o isolamento não é geográfico, é existencial. As sombras, alimentadas por séculos de rezas e medo, possuem uma espessura que a luz das velas mal consegue ferir, e a noite, quando desce, traz consigo o peso de um tempo que se recusa a passar.
Freixo não era lugar de abundância. Era uma terra de ossos duros e corações fechados, onde a sobrevivência era um bailado precário entre a submissão aos elementos e a obediência cega ao Clero. No centro desta liturgia de suor e pedra vivia Amaro. Homem de poucas palavras, com ombros largos que pareciam sustentar o próprio céu, Amaro media a sua existência pela aspereza do solo. Para ele, o tempo não era ditado pelas badaladas das matinas ou das vésperas, mas pela progressão implacável das silvas — aquelas serpentes vegetais, armadas de espinhos como dentes de víbora, que ameaçavam sufocar o seu último pedaço de terra fértil.
A lei no Freixo, contudo, era mais rígida que o granito das encostas. Imbuída de um terror ancestral, a doutrina do domingo era absoluta: era o dia do Senhor, um intervalo sagrado na condenação do trabalho. Nenhuma ferramenta podia beijar a terra; nenhum músculo podia retesar-se em labuta. Quebrar este descanso não era apenas uma ofensa ao padre; era invocar o olhar de uma divindade que, naquelas latitudes, tinha mais de juiz do que de pai.
Mas a fé, para quem tem o estômago vazio e os entes queridos a desvanecerem-se, torna-se uma vela a bruxulear num vendaval de necessidades terrenas. Amaro era um pragmático nascido da carência. A sua pequena horta, o único fôlego de sustento para a sua mulher e o seu filho, ambos consumidos por uma febre que os tornara transparentes, estava a ser sitiada por um mar de silvas agressivas. O sábado terminara com o cheiro a chuva no ar — uma tempestade que, se chegasse com as silvas por limpar, apodreceria a colheita nascente, ditando a sentença de morte da sua família.
Naquela manhã de domingo, o pânico roía as entranhas de Amaro com mais ferocidade do que a fome. Ele ouviu o sino da igreja tocar. Observou, escondido atrás da ombreira da porta, os vizinhos envoltos nos seus melhores farrapos de santidade, marchando como espectros em direção à paróquia. Mal a última silhueta desapareceu atrás da porta maciça da igreja, Amaro moveu-se.
Agarrou o seu forcado, uma relíquia de ferro forjado em ódio ao cansaço, e o molho de cordas de cânhamo mais resistente que possuía. O local escolhido para o seu crime era um canto remoto do terreno, protegido por um sobreiro centenário cujo tronco retorcido parecia uma mão suplicante, e por um muro de pedra derrocado que marcava a fronteira entre o domínio dos homens e a selva primordial.
— Aqui — murmurou ele para as pedras silenciosas —, ninguém me vê. Deus estará ocupado com as preces deles.
O trabalho começou com uma fúria silenciosa. Cada golpe do forcado, cada puxão violento nas silvas que rasgavam a sua pele calejada, era um ato de desafio. O suor misturava-se com o sangue, e o cheiro a terra revolvida e a seiva amarga preenchia o ar. A cada feixe de espinhos que Amaro cortava e amarrava, a sua confiança crescia. A culpa era um zumbido distante, facilmente abafado pelo som rítmico da labuta. Ele sentia-se um titã, um mestre do seu próprio destino, roubando tempo à eternidade para salvar o pão dos seus.
Contudo, perto do meio-dia, a realidade sofreu uma síncope.
O movimento cessou. Não foi um ruído que o alertou, mas a ausência absoluta de qualquer som. O vento, que dantes fustigava as folhas do sobreiro, morreu subitamente. Os pássaros calaram-se, como se o ar tivesse sido sugado por um vácuo imenso. O tempo pareceu estagnar, tornando-se espesso e pesado como chumbo derretido. Amaro sentiu uma presença. Não atrás de si, mas em todo o lado. Uma santidade terrível, absoluta, que não pedia permissão para ser sentida.
O sol, até então escondido por nuvens de chumbo, rompeu num feixe de luz ofuscante, uma coluna de fogo branco que caía verticalmente sobre Amaro, iluminando o seu crime com uma clareza que tornava cada espinho e cada gota de suor uma prova irrefutável num julgamento cósmico.
Amaro virou-se, o forcado erguido num gesto instintivo de defesa, e deparou-se com A Presença. Não tinha rosto, nem forma que os seus olhos mortais pudessem processar sem arder, mas a autoridade que dela emanava era a de éons. Uma voz, que não era feita de vibrações no ar, mas que ressoava diretamente no âmago do seu ser como o estrondo de mil oceanos contra as rochas, preencheu a clareira.
— Então, Amaro, andas a trabalhar ao domingo?
O homem que nunca se dobrara perante o frio ou a injustiça dos senhores da terra, desmoronou-se. Caiu de joelhos sobre a vegetação cortada. O medo paralisou-lhe os pulmões. Tentou articular as razões do seu desespero — a horta sufocada, o filho a tossir na penumbra da cabana, o inverno que se avizinhava —, mas a sua língua tornara-se um pedaço de chumbo inútil.
— Senhor... aqui... neste canto... ninguém me vê — gaguejou, num sussurro que soou como uma profanação.
A resposta veio com a frieza do gelo sideral. Não havia raiva, apenas a execução de uma lei que não admite exceções.
— Pois deixa estar. Se dizes que aqui ninguém te vê, toda a gente te há de ver. Não nos cantos desta terra passageira, mas nos céus, para todo o sempre.
A luz intensificou-se até ao insuportável. Amaro sentiu um calor que não queimava a carne, mas que transmutava a sua essência. O molho de silvas que tinha acabado de amarrar e colocar ao ombro fundiu-se com a sua estrutura óssea. Os espinhos cresceram para dentro, cravando-se nos seus músculos como ganchos de aço. O forcado soldou-se à pele da sua mão, tornando-se um apêndice de ferro eterno.
A dor física foi um clarão breve, substituída por um terror metafísico quando Amaro sentiu o seu peso desaparecer. O solo de Freixo, o cheiro a musgo, o toque familiar da terra — tudo lhe foi roubado. Ele foi arrancado da gravidade por uma força invisível e inexorável. Ascendeu através da atmosfera, não como um mártir que se eleva ao descanso, mas como um detrito de condenação lançado ao vazio.
Atravessou o frio absoluto do espaço, onde o silêncio é a única música, até que o seu corpo colidiu com a superfície baça e cinzenta da lua. Ali, ele foi pregado.
Naquela noite, os habitantes de Freixo, ao saírem da igreja após as vésperas, olharam para o céu e o seu canto litúrgico transformou-se em gritos de pavor. A lua cheia não era mais o disco imaculado de prata. Lá estava ele, perfeitamente visível nas manchas escuras da superfície lunar: o vulto de Amaro. Um homem curvado pelo peso insuportável, com um fardo colossal de silvas às costas e o forcado empunhado contra o vazio, a sua expressão de horror eternamente cristalizada no basalto lunar.
Amaro não morreu. A morte seria uma misericórdia que o pacto da sua punição não previa. Ele vive numa existência de vigília perpétua. Ele é o lunático original, o eterno trabalhador do domingo. A sua punição não é a estátua, mas o movimento infinito e sem propósito. A cada ciclo lunar, ele é obrigado a percorrer a órbita daquela esfera morta, sentindo o peso do fardo aumentar a cada milénio, os espinhos recordando-lhe o preço do seu pragmatismo.
As manchas que os homens observam da terra — o que os sábios chamam mares e crateras de impacto — não são geologia. São a sombra do molho de silvas, do forcado e do corpo de um homem que tentou esconder-se da divindade num canto de Trás-os-Montes. É ele que, ao arrastar o seu castigo pelo céu noturno, altera a face da lua.
A sua história transformou-se no conto gótico fundamental das terras altas. É sussurrada pelas mães de Freixo aos filhos que mostram os primeiros sinais de rebeldia, um aviso de que, no tecido da realidade, não existem cantos ocultos para a Lei Divina. A justiça, quando se manifesta naquele solo rústico, não conhece a clemência, apenas a eternidade.
Amaro continua lá, um espelho frio e distante da fragilidade humana. O seu fardo é a nossa mancha; a sua silhueta curva é o lembrete de que, mesmo sob a opressão da necessidade, existem limites que, uma vez cruzados, nos exilam para sempre do calor da humanidade. E, em todas as noites de lua cheia, quando o vento sopra de Freixo, os camponeses ainda juram ouvir, entre o ulular do ar, o suspiro de um homem que continua a tentar limpar uma horta que já não existe, num mundo que o condenou ao esquecimento das luzes e à memória das sombras.
Novas informações podem surgir sobre caso Marielle, diz Marcelo Freixo
Reprodução: © Fernando Frazão/Agência Brasil Presidente da Embratur participou do programa Sem Censura Publicado em 25/03/2024 - 19:21 Por Mariana Tokarnia – Repórter da Agência Brasil - Rio de Janeiro ouvir: Após as prisões neste domingo (24) dos irmãos Domingos Brazão, Chiquinho Brazão e do delegado Rivaldo Barbosa, apontados como mandantes do atentado contra Marielle Franco, que vitimou também o motorista Anderson Gomes, o presidente da Embratur e ex-deputado federal e estadual do Rio de Janeiro, Marcelo Freixo, acredita que “um tampão de bueiro” foi destampado. Para ele, novas informações, que inclusive vinculam funcionários do estado ao crime poderão surgir.
“O caso da Marielle destampa um tampão de bueiro que sempre existiu no Rio de Janeiro e que muita gente não teve coragem de meter a mão lá dentro. Agora vai ter que meter”, disse Freixo, nesta segunda-feira (24), no programa Sem Censura, da TV Brasil. Ele era do PSOL, mesmo partido de Marielle, trabalhou junto e era amigo dela. Segundo Freixo, ao longo dos seis anos após o crime, buscava-se resposta para três perguntas: quem matou, quem mandou matar e quem não deixou investigar. Essas perguntas foram respondidas, mas elas abrem espaço para novas, uma vez que os três presos têm cargos públicos. Domingos Brazão é conselheiro do Tribunal de Contas do Estado (TCE-RJ), Chiquinho Brazão é deputado federal pelo União Brasil e o delegado Rivaldo Barbosa era chefe da Polícia Civil à época do atentado contra Marielle Franco. “São três agentes do Estado que não têm qualquer cargo. Então, é evidente que abre nova pergunta sobre o que se faz com esse Rio de Janeiro. E nós tivemos diversos mandados de busca e apreensão, que vão poder colher material, que sem dúvida alguma vão trazer mais informação sobre o caso da Marielle e possivelmente sobre outros casos relacionados à questão do homicídio, da Delegacia de Homicídio, e a esses agentes que cometeram esse crime contra a Marielle. Então, por um lado, se responde às perguntas, por outro, novas coisas podem surgir”, diz. O caso traz luz a um dos principais problemas do Rio de Janeiro, a segurança pública. Para Freixo, falta vontade política para combater o crime organizado. “A gente pode ficar dias falando de problemas do Rio de Janeiro, mas se a gente não resolver a questão da segurança pública do Rio de Janeiro, se não meter a mão na cumbuca, que diz respeito a qual o papel da polícia, quem controla a polícia, como vai ser a formação da polícia, se não retomar territórios, não fizer um projeto para o Rio de Janeiro que mexa e dê centralidade à questão da segurança pública, como diz a boa gíria carioca, esquece”, afirma. O ex-deputado conta também que após as prisões, recebeu diversas ligações de policiais e de funcionários do Tribunal de Contas para prestar apoio e dizer que são diferentes dos colegas presos. Freixo acredita que a mudança venha pela política e pelas instituições. O caminho está, portanto, no fortalecimento das instituições. “Temos que olhar para as instituições e perceber que tem pessoas extraordinárias e conseguir que essas pessoas falem pelas instituições, não acabar com elas”.
Reprodução: Rio de Janeiro (RJ) 25/03/2024 – O presidente da Embratur, Marcelo Freixo, participa do programa Sem Censura, da TV Brasil, apresentado por Cissa Guimarães. Foto: Fernando Frazão/Agência Brasil
Alívio e choque
A jornalista e ex-assessora de Marielle Franco, Fernanda Chaves, também participou do programa. Ela estava com Marielle no momento do atentado e foi a única sobrevivente. Ela falou sobre o que sentiu quando recebeu as informações sobre as prisões efetuadas nesse domingo. “É difícil nomear, mas foi muito chocante, muito impactante. Ao mesmo tempo que veio algum alívio, porque foram seis anos de angústia, ver que paralelamente acontecia um movimento para atrapalhar a investigação. Na mesma medida, deu um choque muito grande quando se sabe do envolvimento das figuras que estão sendo apontadas na investigação como os pensantes, os que arquitetaram esse crime. É muito impactante e é, sobretudo, perturbador”, diz. Ela descreveu o delegado Rivaldo Barbosa como uma pessoa acessível e do diálogo. “Revendo as coisas do passado, a gente começa a perceber o quanto isso é maquiavélico”, diz. “Isso é inacreditável, isso descortina muito a situação que o Rio de Janeiro se encontra hoje”. Edição: Sabrina Craide
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Um #tbt cheio de saudades de novo, de cantar com meu povo e pro meu povo. Poucas casas legais, poucas oportunidades, a gnt fica doida pra cantar e não tem onde! Rio de Janeiro, Rio de lágrimas, a gnt tem que eleger o Freixo, o único que consegue tirar os milicianos do poder! 🎶🍀❤️ #freixo #freixogovernador (em Espaço Cortiço Carioca) https://www.instagram.com/p/Ci0n4tSJg-A/?igshid=NGJjMDIxMWI=