Uma História para Contar
Hoje vou contar aqui a história da minha avó. Bom, não é bem a história da minha vó, é na verdade como a minha história se cruzou com a história dela. Na verdade mesmo, também não é isso. Calma. Parece que hoje não estou muito bem com as palavras. Posso começar de novo?
Em 2013 minha avó foi diagnosticada com a doença de Alzheimer, para mim, juntamente com câncer, essa é a pior doença que uma pessoa pode ter. Desde pequeno eu sempre tive muito medo de esquecer, esse medo começou com a minha bisavó.
Minha bisavó por parte de pai, a quem eu carinhosamente chamava de Vovó Romana, faleceu quando eu tinha 8 anos de idade, percebendo que meus pais quando questionados sobre a infância deles lembravam-se de poucas coisas, eu tive medo de que um dia eu fosse esquecer da voz doce, dos gestos firmes e do abraço acolhedor da minha bisavó. Nunca esqueci, mas desde então eu criei o hábito de manter sempre um livro de pensamentos como eu chamo, não é bem um diário porque não escrevo nele todos os dias, nem toda semana, nem todo mês por vezes... Mas nele eu coloco todos aqueles pensamentos que eu não quero esquecer.
Já tenho mais ou menos uns 8 livros de memórias escritas, eles vão desde pequenos de apenas 50 páginas, até o maior de todos que tem cerca de 400 páginas, não sei ao certo... Mas escrever não me impede de esquecer, pois quando leio algumas passagens antigas, por vezes não me reconheço, mas pelo menos isso me permite revisitar o meu pensamento.
Bem, então quando minha avó recebeu a confirmação de que estava mesmo com Alzheimer eu chorei, chorei por estar curtindo o carnaval com meus amigos e receber essa notícia tão terrível, chorei porque estava longe dela, chorei porque eu tinha medo de esquecer e acabei projetando esse medo nela também, ou talvez fosse porque eu tinha medo que ela me esquecesse. Ela nunca me esqueceu.
Sabendo que logo logo minha avó perderia a sua memória como eu a conhecia, resolvi, de 6 em 6 meses (o maior intervalo foi de um ano), repetir para ela as mesmas perguntas, eu falava “vovó, posso fazer uma entrevista com a senhora?” e ela dizia que sim e eu perguntava coisas para ela, dalí há algum tempo eu fazia a mesma pergunta, por vezes ela respondia de forma diferente, mas eram perguntas bem abertas, fato é que ela nunca me questionou porque eu fazia tantas entrevistas com ela, talvez ela nunca tenha notado que foram várias. Nunca saberei.
Pois bem, uma das perguntas era “Como eu posso fazer para mudar o mundo?” e em uma dessas entrevistas minha avó me respondeu “Você não precisa mudar o mundo, você precisa só cuidar da sua vida. Você só pode pensar em mudar o mundo se você for dono de uma fábrica algodão.” Vale ressaltar que na época da juventude da minha vó ela trabalhou em uma fazenda colhendo algodão, e que os donos de fábricas de algodão eram homens muito poderosos e ricos.
Fato é que essa questão sempre ficou na minha cabeça, como eu posso mudar o mundo? E eu nunca consegui aceitar que eu sozinho não consigo, então estou sempre frustrado tentando fazer a diferença e ao mesmo tempo não ser notado. Não quero mudar o mundo pela fama, eu gostaria de mudar o mundo para a minha satisfação e deleite pessoal. E nisso eu acabo caindo naquela de me cobrar demais, não somos perfeitos e eu não sou de aceitar muito bem as minhas imperfeições.
Mas refletindo algum tempo atrás eu acabei percebendo a sabedoria nas palavras da minha avó naquela entrevista. Cuidar da sua própria vida é uma das mil e uma maneiras de mudar o mundo! Cuidar de você mesmo é uma forma de cuidar da sociedade inteira, porque se a saúde mental de todos estivesse em dia, não teríamos uma sociedade doente.
Para concluir, eu não vejo cuidar de si como uma coisa egoísta, eu vejo cuidar de si como uma ferramenta para a construção de uma sociedade curada.













