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estamos indo pra sentidos opostos, levando cada um a parte desta história que, agora, existe no mundo, mas de maneira incompleta: estranhos vão ouvir de você que eu fui o amor da sua vida.
um,
às vezes, eu sinto umas coisas tão fortes no coração. como quando antes de pegar aquele voo meu celular vibrou e desde antes eu sabia que seria tu – tu que já não faz parte do meu ciclo – porque na sua despedida ficou um cado grande de continuação. e também quando acordei com uma saudade apertando, saudade daquelas sem justificativa, saudade que eu nem entendia, e pulsou lá no fundo de mim que tu – outro tu. não aquele que se foi – tava vindo. e tu veio. não em corpo. mas em voz. aquela voz arrastada de quem aproxima a boca do telefone pra gravar áudio como se despejasse beijo. e beijo é palavra tão curta, tão intima, que só de clicar pra escutar foi como se teu lábio me abraçasse o ouvido. eu tava no banho prendendo o sorriso como se guarda um gol de pênalti que a gente sabe que vai acontecer, mas não pode cantar antes da hora. e no quarto, com a toalha secando a nuca, quando avistei a tela, teu nome. foi sorriso pro dia todo. alegria pra todo lado. vibração tão forte que travou meu não. pra tudo o que me era pedido a resposta era sim. sorte de quem aproveitou. a única coisa ruim é agora além de te tirar de mim, ter que te limpar dos móveis, da cortina, do teto.
lorena pimenta // @pimentalorena
estou desconhecendo você
a começar pela sua casa, onde ainda estão minhas roupas e escova de dente. vou desconhecer a cama onde dormimos por meses, a cozinha onde fazíamos comida enquanto ouvíamos alguma música no celular, todos os cômodos que, agora, estão sendo apagados da minha memória.
estou desconhecendo você.
todas as suas piadas ruins sobre a vida, e todas as vezes que você fez cócegas em mim, tanto, que minha respiração quase foi embora de tanta felicidade que não me cabia.
você não sabe, mas era nestes momentos de felicidade extrema que eu mantinha a certeza de que eu havia esbarrado na pessoa certa.
estou desconhecendo você. e todas as vezes em que me senti perdido neste relacionamento.
que te olhei enquanto você dormia e não entendia por que eu ainda continuava. eu me perguntava: “por que eu continuo aqui?” e no final do dia teu amor dava conta de preencher tudo. só que amor, só amor, não fecha a conta. não paga a angústia de não se ver mais feliz e inteiro.
com você, eu estava aos cacos. tentando ser feliz, tentando ficar bem, tentando qualquer coisa. e eu cansei de tentar, eu só queria conseguir.
me entende?
eu estou desconhecendo você.
o tom da sua risada, o calor das suas mãos, todas as suas manias engraçadas, todas as festas que você vai, seus amigos novos.
estou desconhecendo a pessoa com quem passei dias sonhando sobre casamento e filhos.
desconhecendo, pouco a pouco, a pessoa que me viu nos piores e melhores dias. a pessoa que pensei ser a minha pessoa pra toda a vida.
estou desconhecendo você e todo o tempo que ficamos até aqui.
pra aí conhecer outra pessoa, e o processo começar tudo de novo.
textos cruéis demais: o fim em doses homeopáticas por igor pires
caosinsampa
‘ Não nos perdoe universo ‘
Mas eu nunca fui o tipo de gente que olha pra beleza e venera. Porque eu acho isso bobagem, porque a paisagem de dentro é sempre mais bonita. E se você me fala que fulano é lindo por causa do olho de cor diferente, por causa do sorriso branco, ou por causa do físico perfeito, eu sou obrigado a rir e dizer que nada disso vale um amor pra anos, um amor de anos: o exterior sempre perde para o tempo, sempre sucumbe à falta de maquiagem e à falta de mundo. •Igor Pires #igorpires #refletyndo #beleza #belezaépassageira #reflita #pensenisso #tudopassa https://www.instagram.com/p/B7l_c4VJkiS/?igshid=vip0xeejrx1h
oito,
você me encara como se buscasse as respostas que precisa. transbordo intensidade e, às vezes, isso se confunde com saber indicar caminhos em direção a felicidade, mas a verdade é que não sei. e é ótimo não saber porque se soubesse não estaríamos na mesma mesa, conversando sobre o que nos fere e cura o peito. enquanto te ouço declamar letras de músicas desconhecidas, tento arranjar um jeito de poetizar suas lágrimas, mas não há metáfora que ligue o doce dos seus olhos e o salgado do teu choro. como alguém pôde te beijar e não desistir de partir quando eu deveria estar em casa, mas seu sorriso me fez ignorar que preciso acordar cedo amanhã? é mais fácil entender a fórmula da hipotenusa do que aceitar que podem ter te perdido por falta de atenção e cuidado. eu te olho como quando encarava os brinquedos favoritos na infância após meus colegas terem os quebrado. pensando num jeito de consertar, mesmo que não há, pois o poder não está nas minhas mãos. nos despedimos e na caminhada até o ponto de ônibus tudo o que lembro é da sua voz dizendo que a poesia restaura e me pergunto quantas precisarei escrever para te sarar. calcula e subtrai uma.
lorena pimenta // @pimentalorena