Ser madrasta, um lugar a desconstruir
Em nossa jornada humana experimentamos diversos papéis em nossa sociedade e cultura. Nascemos filhos, podemos nos tornar irmãos, amigos, estudantes, namorados, profissionais, maridos, esposas, pais, mães e para alguns e cada vez mais comum, padrasto e madrasta. E aqui quero fazer uma reflexão específica sobre o lugar da madrasta.
E vou partir do meu lugar de fala, pois sou madrasta e há alguns anos venho me redescobrindo nesse papel e percebendo a construção social patriarcal e machista que existe por trás desse lugar.
Ser madrasta, é uma decisão pessoal por viver uma família mosaico, e decidir por esse caminho é ocupar um lugar que já vem pré-definido por ser alguém má, que disputa a atenção do pai e que quer roubar o lugar da mãe. É entrar numa jornada, que será preciso descontruir a imagem de bruxa para depois poder construir uma relação de amor e confiança, ou ao mesmo tempo, não necessariamente numa ordem.
Mas, o que quero dizer, que quando você é apresentada como a madrasta, o que fica é “má-drasta”, uma imagem de algo negativo. E essa conotação não é por parte somente dos enteados dessa madrasta, mas da sociedade em geral.
Já me percebi várias vezes contando para alguém que tenho dois enteados, e me senti na obrigação de colocar um “mas” na explicação, “sou madrasta, tenho dois enteados, MAS me dou super bem com eles”. Porque a gente já espera que fique subentendido uma percepção negativa ou uma relação traumática nessa constelação familiar.
E isso, porque temos uma construção social da madrasta bruxa, vide filmes e desenhos infantis, onde a madrasta ocupa esse lugar (branca de neve, cinderela, operação cúpido). As crianças crescem aprendendo e absorvendo a informação de que a madrasta é do mau e essa percepção percorre as famílias e a sociedade como um todo.
E você pode pensar, mas o padrasto também sofre, sim também é um lugar desafiador e difícil, porém nossa cultura machista tende a colocar o padrasto no lugar de herói. Quantas vezes ouvimos: olha fulano é um homem de admirar, cria os filhos que nem são dele. Já a madrasta, não é colocada como heroína (e nem tem que ser), mas sim no lugar de bruxa que quer tomar o lugar da mãe ou disputar a atenção do pai. Não deveriam existir heróis ou vilões, mas sim seres humanos que permeiam papéis na cultura, que podem ser desempenhados de forma positiva ou não e isso tem a ver com o indivíduo e não com o papel a se ocupar.
“Gente cheia de certezas e de julgamentos, de vida vazia e entupida de prazeres sociais e delicadezas. É evidente que é preciso conhecer a verdadeira pessoa embaixo disso”. (Clarice Lispector)
Ao refletir sobre esse julgamento, me lembrei dessas palavras da Clarice, e o quanto nós muitas vezes nos apressamos em julgar e não nos abrimos para conhecer quem de fato é aquela pessoa por trás do papel.
Amo meu lugar de madrasta na vida dos meus enteados e em minha família, mas é um grande desafio viver essa experiência. Você que conhece uma madrasta, acolha essa mulher e tenha empatia pela decisão que ela tomou de viver esse papel.
Ser madrasta, vai além de ser a esposa desse pai ou dessa mãe. Ser madrasta, muitas vezes é dar amor sem esperar nada em troca. É ajudar com a lição, acordar no meio da noite para acudir com o pesadelo ou dar remédio, é dar banho, levar no banheiro, ensinar escovar os dentes, levar no médico, carregar no colo, ensinar comer frutas e legumes, celebrar o aniversário, presentear no Natal, levar para viajar, levar no cinema, assistir filme infantil, ler gibi, poder comer só quando a comida esfriar, e tantas outras coisas e no fim do dia ouvir que você não é a mãe. É amar o ano inteiro e não ser lembrada no dia das mães, é a constante afirmação que você é super legal, mas a mãe é melhor.
E não pense que aceitar esse “não lugar” que muitas vezes a madrasta ocupa é fácil. Me lembro até hoje a primeira vez que meu enteado me mandou mensagem de feliz aniversário. Por muitos anos na nossa convivência, nem nesse dia eu era lembrada, mas houve um momento de mudança e passei a ser lembrada, para mim foi um marco. E com isso, espero transmitir o quanto é importante cada pedaço dessa construção e o quanto nossa cultura prejudica e traz sofrimento para essas relações.
E tudo isso passa por uma confusão cultural desses papéis, porque de fato a madrasta não é a mãe e nem tem que ser reconhecida ou amada como tal. Mas também não é alguém que está na arena para competir com o lugar da mãe. Existe espaço para a expansão da parentalidade, onde todos podem ter seus lugares de amor e afeto na família.
“É preciso uma aldeia para se criar uma criança”. (provérbio africano)
Gosto muito desse provérbio, pois isso é uma verdade, criar um filho é uma experiência tão imensa, que existe espaço para papéis para além do pai e da mãe. O compartilhar dessa experiência pode ser mais leve se pudermos abrir espaço para outros lugares de amor nessa jornada. E não quero minimizar a dor e o desafio que é para uma mãe, dividir a educação e criação do filho com a esposa do pai, alguém que ela não escolhe e que as vezes nem conhece profundamente. Porém, hoje, parto do meu lugar de fala para fazer um convite a uma reflexão e acolhida ao lugar da madrasta do mundo.
Que alguém quando se referir a mim, não precise dizer, ela é madrasta mas trata os enteados como se fosse mãe. Não, eu trato meus enteados como madrasta e isso não tem que soar negativo. Que não seja necessário justificar ou explicar meu lugar, pois ocupo o lugar que quero ocupar, o de madrasta e isso deveria bastar.
Que essas palavras provoquem reflexões e mudanças ao que nos cabe no mundo!