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Pais e Filhos
Filho, esta sou eu, buscando organizar tudo para sua chegada. Eu te vi com meus olhos d'alma, envolto na luz verde da sua criação. Você me sussurrou seu nome, me vi em seu parto, meu parto - parto nosso. São muitas as listas do que quero resolver, terminar, começar... Tenho aberto espaços na casa para que você tenha seu lugar. De todos os cômodos, seu quarto foi o único que não mandei pintar: eu mesma o farei. No coração, o espaço você já tem.
Tantos movimentos eu já fiz desde que você se anunciou... Fui buscar me encontrar: me achei, me perdi, por vezes desisti mas você estava lá, eu estava também, então retomei. Mas sei que não importa o quanto eu me revolucione, você trará mais. Trará coisas que não li, que não estudei, que ninguém será capaz de me falar, de prever ou me preparar. Essa lista de coisas para resolver, dentro e fora, crescerá muito mais. Muito mais.
Filho, a verdade é que eu tenho sim expectativas quanto à sua chegada.
E eventualmente sei que precisarei me desfazer de tudo. De tudo o que vi, de tudo que projetei: você trará em mim a sua própria mensagem, os seus próprios sinais. E eu precisarei me entregar para dançarmos juntos a dança dessa nova revolução.
Então aqui me preparo para também dissolver. Me ocupo de me conhecer, de sentir e bailar na música por vezes amarga de tudo o que foge o meu planejar. Aprendo a me contrariar, a enfrentar, com medo mesmo, o que a vida traz e o que os sonhos pedem. Me ocupo de reconhecer minha história, de me reconhecer para além de tudo o que vivi, mas do que infinitamente sou, para que possamos ser. Juntos. Nós. Eu e tu.
Farei o possível para criar o meio interno e externo para me aproximar das expectativas, mas preciso também liberar. Liberar pra que você me traga tudo aquilo que eu ainda preciso olhar, tudo aquilo que ainda posso viver e nem sei...
Eu vou aprender com seus sinais, eu vou aprender com o que você me faz sentir, eu vou me transformar a partir da sua chegada. Mas desde já eu me trabalho para me aproximar da melhor versão de mim, a versão que é mais verdadeira pro meu coração.
Vou curando nesse enquanto, todos meus relacionamentos. Comigo, com a família, pessoas queridas, lembranças ainda doloridas, com o viver a vida e com minha missão. Liberando nós atados desde nossos ancestrais. Conhecendo, expandindo, aprendendo a me recolher num Eu sereno, perdoando e agradecendo todas as pequenas coisas: desde os detalhes na luz que entra pela manhã; as nossas famílias que, cada um do seu jeito, têm amor demais; até a simples complexidade de habitar um corpo nesse mundo que hoje está bem louco e talvez amanhã esteja ainda mais. Vou bailando entre brisas e vendavais, para perceber-me, conhecer-me, inteirar-me de mim, para então dissolver-me por inteiro na chegada da sua presença. Mas sempre ciente de onde eu vim. Nisso, de aprender a morrer repetidamente, e renascer mais verdadeiramente essência, forte e crua, já ensaio para esse rito de passagem que você virá me apresentar. Não mais me assustarei com o fato de que tudo lá fora deixará de ser enquanto tudo aqui dentro se recriará uma vez, outra vez, de novo e de novo até que você esteja pronto para seu próprio vôo. Eu tenho aprendido a me amar para que você se ame. Eu tenho aprendido a encarar desafios como oportunidades, para que você saiba aproveitá-los também. Tenho aprendido sobre o mundo, para que eu possa guiar-te. Tenho encarado de frente as consequências de meus atos, para te orientar a escolher. Tenho exercitado a liberdade, de ser quem sou e de deixar que sejam, para que você tenha espaço para descobrir-se, reinventar-se, testar infinitas possibilidades até descobrir quem é você para além de todos os atravessamentos, com coragem... Quero que saiba que independente das minhas infindáveis listas, você estará primeiro, ao meu lado. Você será meu serviço abnegado. E sempre poderá voltar. Porque pra sempre, desde que ouvi seu nome, já sou seu lar.
Impulsionamento
foto: https://pin.it/5mzoYaV
Ter filhos não te faz pai ou mãe, assim como, ter um piano não te faz pianista.
Ter filhos não te faz pai ou mãe, assim como, ter um piano não te faz pianista.
Ter filhos, esse será o assunto de hoje. Essa frase, do título, usei no Instagram um dia desses e, fazendo uns ajustes, é do Michael Levine. Ela serve como um bom gancho para puxar o assunto sobre ter filhos. Você têm filhos? Você terá? Já teve? Comece a pensar um pouco sobre a palavra TER e já voltaremos ao assunto. Essa frase é uma frase de efeito e portanto precisa de contexto, então…
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Aqueles momentos de partir o coração, em que tens que te impôr enquanto mãe,se queres ter um filho que um dia seja um bom ser humano em tudo. São aqueles momentos em que ele acha que deves ser a pior pessoa à face da terra, e que ele é um incompreendido. Maldita adolescência 🤦🏼♀️
Ser madrasta, um lugar a desconstruir
Em nossa jornada humana experimentamos diversos papéis em nossa sociedade e cultura. Nascemos filhos, podemos nos tornar irmãos, amigos, estudantes, namorados, profissionais, maridos, esposas, pais, mães e para alguns e cada vez mais comum, padrasto e madrasta. E aqui quero fazer uma reflexão específica sobre o lugar da madrasta.
E vou partir do meu lugar de fala, pois sou madrasta e há alguns anos venho me redescobrindo nesse papel e percebendo a construção social patriarcal e machista que existe por trás desse lugar.
Ser madrasta, é uma decisão pessoal por viver uma família mosaico, e decidir por esse caminho é ocupar um lugar que já vem pré-definido por ser alguém má, que disputa a atenção do pai e que quer roubar o lugar da mãe. É entrar numa jornada, que será preciso descontruir a imagem de bruxa para depois poder construir uma relação de amor e confiança, ou ao mesmo tempo, não necessariamente numa ordem.
Mas, o que quero dizer, que quando você é apresentada como a madrasta, o que fica é “má-drasta”, uma imagem de algo negativo. E essa conotação não é por parte somente dos enteados dessa madrasta, mas da sociedade em geral.
Já me percebi várias vezes contando para alguém que tenho dois enteados, e me senti na obrigação de colocar um “mas” na explicação, “sou madrasta, tenho dois enteados, MAS me dou super bem com eles”. Porque a gente já espera que fique subentendido uma percepção negativa ou uma relação traumática nessa constelação familiar.
E isso, porque temos uma construção social da madrasta bruxa, vide filmes e desenhos infantis, onde a madrasta ocupa esse lugar (branca de neve, cinderela, operação cúpido). As crianças crescem aprendendo e absorvendo a informação de que a madrasta é do mau e essa percepção percorre as famílias e a sociedade como um todo.
E você pode pensar, mas o padrasto também sofre, sim também é um lugar desafiador e difícil, porém nossa cultura machista tende a colocar o padrasto no lugar de herói. Quantas vezes ouvimos: olha fulano é um homem de admirar, cria os filhos que nem são dele. Já a madrasta, não é colocada como heroína (e nem tem que ser), mas sim no lugar de bruxa que quer tomar o lugar da mãe ou disputar a atenção do pai. Não deveriam existir heróis ou vilões, mas sim seres humanos que permeiam papéis na cultura, que podem ser desempenhados de forma positiva ou não e isso tem a ver com o indivíduo e não com o papel a se ocupar.
“Gente cheia de certezas e de julgamentos, de vida vazia e entupida de prazeres sociais e delicadezas. É evidente que é preciso conhecer a verdadeira pessoa embaixo disso”. (Clarice Lispector)
Ao refletir sobre esse julgamento, me lembrei dessas palavras da Clarice, e o quanto nós muitas vezes nos apressamos em julgar e não nos abrimos para conhecer quem de fato é aquela pessoa por trás do papel.
Amo meu lugar de madrasta na vida dos meus enteados e em minha família, mas é um grande desafio viver essa experiência. Você que conhece uma madrasta, acolha essa mulher e tenha empatia pela decisão que ela tomou de viver esse papel.
Ser madrasta, vai além de ser a esposa desse pai ou dessa mãe. Ser madrasta, muitas vezes é dar amor sem esperar nada em troca. É ajudar com a lição, acordar no meio da noite para acudir com o pesadelo ou dar remédio, é dar banho, levar no banheiro, ensinar escovar os dentes, levar no médico, carregar no colo, ensinar comer frutas e legumes, celebrar o aniversário, presentear no Natal, levar para viajar, levar no cinema, assistir filme infantil, ler gibi, poder comer só quando a comida esfriar, e tantas outras coisas e no fim do dia ouvir que você não é a mãe. É amar o ano inteiro e não ser lembrada no dia das mães, é a constante afirmação que você é super legal, mas a mãe é melhor.
E não pense que aceitar esse “não lugar” que muitas vezes a madrasta ocupa é fácil. Me lembro até hoje a primeira vez que meu enteado me mandou mensagem de feliz aniversário. Por muitos anos na nossa convivência, nem nesse dia eu era lembrada, mas houve um momento de mudança e passei a ser lembrada, para mim foi um marco. E com isso, espero transmitir o quanto é importante cada pedaço dessa construção e o quanto nossa cultura prejudica e traz sofrimento para essas relações.
E tudo isso passa por uma confusão cultural desses papéis, porque de fato a madrasta não é a mãe e nem tem que ser reconhecida ou amada como tal. Mas também não é alguém que está na arena para competir com o lugar da mãe. Existe espaço para a expansão da parentalidade, onde todos podem ter seus lugares de amor e afeto na família.
“É preciso uma aldeia para se criar uma criança”. (provérbio africano)
Gosto muito desse provérbio, pois isso é uma verdade, criar um filho é uma experiência tão imensa, que existe espaço para papéis para além do pai e da mãe. O compartilhar dessa experiência pode ser mais leve se pudermos abrir espaço para outros lugares de amor nessa jornada. E não quero minimizar a dor e o desafio que é para uma mãe, dividir a educação e criação do filho com a esposa do pai, alguém que ela não escolhe e que as vezes nem conhece profundamente. Porém, hoje, parto do meu lugar de fala para fazer um convite a uma reflexão e acolhida ao lugar da madrasta do mundo.
Que alguém quando se referir a mim, não precise dizer, ela é madrasta mas trata os enteados como se fosse mãe. Não, eu trato meus enteados como madrasta e isso não tem que soar negativo. Que não seja necessário justificar ou explicar meu lugar, pois ocupo o lugar que quero ocupar, o de madrasta e isso deveria bastar.
Que essas palavras provoquem reflexões e mudanças ao que nos cabe no mundo!
Larissa Silva
Grande parte do choro é um mecanismo natural de libertação de stress que permite às crianças sararem dos efeitos provocados por experiências assustadoras ou frustrantes do passado. >> Aletha J. Solter >> Segue o meu trabalho no perfil @mundodeparentalidade #Gravidez #Parto #Parentalidade #Bebés #Maternidade #Crianças #Amor #Pais #AlethaJSolter https://ift.tt/32cB1hk
Sou mãe... já não é a neve a mais bela paisagem. >> Segue o meu trabalho no perfil @mundodeparentalidade #Gravidez #Parto #Parentalidade #Bebés #Maternidade #Crianças #Amor #Pais https://ift.tt/2LJeCl7