Não foi um sonho, pensou Dex quando acordou novamente naquele quarto de hospital. As lágrimas já escorriam em seu rosto, precisava ver Anne, olhou ao redor do quarto e sentiu uma pontada de alívio por estar sozinho, não queria o consolo de ninguém, não queria mais choros, exceto o seu.
Com toda força que ainda tinha começou a clamar a Deus, orou em voz alta, não se importava se alguém entrasse e o visse naquele estado, ele só se importava com Anne. As palavras saiam da sua boca como um jato, e o choro não cessava. Sentiu a presença do Espírito Santo e chorou ainda mais.
Ao terminar sua oração, sentiu um pequeno formigamento em seu peito, algo chamado de esperança. Anne não ia ficar assim, ele acredita em um Deus que faz milagres e Ele faria o milagre acontecer na vida de sua esposa.
Dexter lembrou da música deles, agora a música ecoava em sua cabeça enquanto lembrava de cenas felizes que passaram juntos. Se lembrou de seu casamento, o dia mais feliz de sua vida, tudo tinha sido tão perfeito, o lugar era encantador, e assim como no sonho de Anne, eles se casaram ao ar livre, com muitas flores na decoração. Lembrou do nervosismo de estar em pé perto do altar esperando a chegada de sua futura esposa. Quando ela chegou, o carro estacionou em frente ao corredor, que em segundos ela estaria passando, todas as cadeiras estavam ocupadas, e ao notarem a chegada da noiva, os convidados se levantaram para olhá-la.
“Linda” essa palavra parecia tão pequena perto do que ela estava. Seus cabelos estavam semi presos em um coque, sua maquiagem era leve dando a ela mais delicadeza do que já possuía. Ela segurava um buquê de tulipas brancas, e no seu rosto havia o sorriso mais lindo do que qualquer coisa que já vira. Os olhos de Dex estavam tão fixos nela nesse dia que ele nem sequer reparou nas daminhas de honra entrando à frente.
Mudando seu pensamento, Dexter levou sua mente para o dia da festa de noivado de Ronnie e Nick. Anne estava tão ansiosa e tão feliz por sua amiga que não conseguiu evitar o choro. Lágrimas escorrendo e, ao mesmo tempo, um sorriso enorme no rosto, aquele sorriso que ele tanto amava.
Lembrou-se do primeiro dia na casa nova, depois dos entregadores irem embora, começaram, juntos, a fazer o jantar, eles estavam tão cansados que não quiseram começar a organização, ao invés disso procuraram nas caixas as panelas, talheres, pratos para conseguirem fazer a refeição. Dex podia lembrar claramente dos dois sentados no sofá comendo macarronada em potinhos de sobremesa porque não conseguiram encontrar os pratos. Por achar aquela cena hilária, toda vez que Anne olhava para ele soltava uma gargalhada.
E tinha as tulipas, não chegavam com tanta freqüência como antes, mas tinha uma regularidade de aparecer um buquê com 10 tulipas por mês. Sempre no vigésimo primeiro dia de cada mês. Eles tentaram de tudo para saber quem as mandava, mas depois de um certo tempo, deixaram a busca de lado.
Foram muitos momentos que passaram juntos, Dexter foi motivo de muito sofrimento para Anne, mas depois de finalmente juntos, ele a tinha feito feliz, semanas antes do ocorrido tinham decidido que iniciariam as tentativas de ter um filho. “Um filho”, a dor o pegou de surpresa novamente, o desespero o encheu. Com a maior velocidade que conseguiu, sentou de lado na cama e arrancou a agulha do soro. Tirou o lençol que o cobria e olhou para a sua perna direita, que anteriormente não sentia, havia um corte fechado com muitos pontos no tamanho de uns 30cm atravessando sua coxa na diagonal. Quando acordara pela primeira vez naquele hospital devia ter acabado de sair da sala de cirurgia, pois a anestesia ainda fazia efeito naquela hora que tentou sair da cama e acabou se estatelando no chão.
Agora podia sentir sua perna, então, devagar, se pôs de pé e testou pisar com seu lado direito, a dor foi lancinante, tentou ignorá-la e saiu do quarto mancando.
Mancou pelo corredor e foi espiando pelo pequeno vidro das portas em busca de Anne. Em um dos quartos, viu um rapaz vestido estilo roqueiro com o cabelo espetado segurando a mão de uma velha senhora que jazia no leito da cama de hospital, em outro observou um homem não muito velho, mas bastante machucado, sozinho, assistindo TV. Em cada quarto havia uma cena diferente. Não fazia a mínima idéia de onde Anne poderia estar, provavelmente estaria na UTI ainda, então continuou procurando naquele corredor. Mais adiante viu o Alberto – o doutor que tinha falado com ele assim que acordou pela primeira vez – conversando com uma enfermeira, Dex seguiu em direção a eles e se escondeu na esquina de um corredor para o outro afim de poder ouvir a conversa.
- Por que deslocaram a Anne para outra sala da UTI? – disse a enfermeira.
- O quadro dela envolvia mais cuidado, não podia dividir quarto com outros pacientes. E também não podia sair da UTI. Ela ficará por enquanto no quarto 106.
- Mas o quadro dela agora já está praticamente estável, poderíamos tirá-la da UTI. Essa movimentação toda não faz bem a ninguém, eu acompanharia o quadro dela de perto.
- Sim, mas é melhor aguardarmos mais um pouco. Afinal só fazem 4 dias que ela está aqui. – “Quatro dias” Dexter se perguntou, para ele só tinha passado ali um dia ou dois. – Dentro de duas semanas, veremos o que pode ser feito.
- Sim, senhor. Vamos aguardar a melhora que é improvável, ou a certeza de estabilidade, assim poderemos tirá-la da UTI. Ela é muito forte, foi muita sorte ter sobrevivido aquele acidente.
- Sim, ela é muito guerreira. – Olhando para o seu relógio de pulso o médico disse - Cheque o soro dela mais uma vez. Aí você pode sair para o almoço, Letícia.
Dexter se encolheu quando o Dr. Alberto passou pelo corredor quase ao seu lado, ele sabia que se ele o visse iria dar uma bronca e o mandaria para o seu quarto, mas ele ia ao quarto de Anne.
Passou por onde o Alberto e a enfermeira estavam e olhou para a porta 106, esperou a enfermeira sair e entrou antes mesmo de espiar pelo vidro. Fechou a porta e ao virar-se, a dor o apanhou, à sua frente, deitada imóvel, estava Anne.
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