ode à insurgência
você não encontra um culpado, sabe? é só… como as coisas se tornam. elas são complexas. são vários fatores embolados, que rolam pela história e desengata nessa merda toda. existem os culpados de sempre, mas no fim: eles são tão abstratos, não é? quem são eles? quem são os vilões? e nós sequer somos mocinhos? não. mas eu posso te dizer isso, talvez sejamos vítimas. e não há nenhum conforto nisso apenas a certeza dolorosa do que se esvai por entre nossos dedos. nós somos corpos com hemorragia interna, descoberta tarde demais a gente não sente até não conseguir sequer respirar. daí você quer avisar as pessoas que elas estão sangrando por dentro mas elas irão ignorar até que a primeira vertigem lhes acometa e você vai poder culpá-las? ora, toda hemorragia interna é um conceito abstrato… até não ser mais. algo se perde na linguagem, na comunicação, não há união, mas desesperos individualizados. a verdade é que eu cansei de encontrar o culpado. eu só quero cauterizar a porra da ferida. alguma coisa precisa mudar, talvez seja mais micro do que qualquer coisa. talvez a dor seja bem aqui dentro, talvez a inércia contribua um pouco… é só que… porra, estamos tão cansados. estou falando de um pequeno abcesso no fundo da garganta, do dente inflamado a infecção não tratada que só cresce e se espalha estou falando de negligência porra, eu estou falando de gente morrendo! estou falando de um sistema todo se quebrando: de uma falência múltipla dos órgãos. estou falando desse abcesso enorme na boca do estômago, dessa carne podre. estou falando de radicalismo. e a gente já passou do momento de ter medo dessa palavra. da insurgência, da desobediência… eu não quero ter medo de um caos organizado. estou falando de arrancar pela raiz, cortar o membro gangrenado. é isso ou o sangue continua a jorrar. essa merda toda não é de hoje, é só que agora a infecção desceu da garganta, pela laringe, chegou no estômago, pulmões e fígado. aí, meu bem, aí já era. a verdade é que estamos na porra da uti e algum carniceiro filho da puta quer desligar os aparelhos, vender nossos órgãos, furar a fila do transplante. a metáfora ainda persiste, mas não se engane, gente morrer transborda dela. a metáfora é só um jeito melhor de dizer que estamos fodidos, um jeito mais bonito, mais palatável. é só para gente não esquecer que tumores também crescem em silêncio. bom, parece que o cirurgião chefe desse hospital esqueceu um bisturi em nosso estômago. agora é tentar não morrer. agora é lutar por justiça. justiça… justiça é um conceito abstrato demais pra gente entender. e só uma forma de dizer que tínhamos que ter o que é nosso por direito. que é nossa obrigação ter! que é nossa obrigação viver bem. que essa chaga não deveria continuar crescendo. que nossas vidas estão em risco, e tem gente por um fio. talvez aqui as metáforas acabem. um poema não pode seguir por muito tempo. nem tudo é poesia, isso aqui é só desgraça mesmo. cortes na aposentadoria não é poesia; gente preta e favelada morrendo não é poesia; universidades fechadas não é poesia; desistir de lutar contra o trabalho escravo não é poesia; feminicídio não é poesia; a sangria não para. é interno, mas mata.














