Dentro da caixinha de madeira, em meio às cartas e fotografias levemente amareladas pelo tempo, o anel de cornalina permanecia intacto, tão delicado quanto a primeira vez que encontrara o dedo anelar de seu dono. Era ainda brilhante o suficiente para refletir a luz dos raios de sol que escapavam das grandes janelas de vidro, bem como o sentimento com o qual haviam sido marcadas as letras “A” e “J”. Julian pegou-o cuidadosamente, como se a joia fosse feita do vidro mais frágil. Tomou um gole do vinho que pousava ao lado da caixa, devolvendo a taça para a mesa enquanto observava de forma atenciosa os mínimos detalhes da pedra. Lembrou-se então, do dia em que Augusto havia lhe presenteado.
Em uma noite de verão, à beira de um lago a poucos quilômetros do internato, os jovens, como de costume, compartilhavam os seus pensamentos enquanto fumavam. Fazia algumas semanas desde a primeira vez que se encontraram ali e, desde então, aquele vinha sendo o lugar favorito de ambos os amigos. Discorriam sobre literatura, cinema, música e quaisquer outros tipos de arte que consumissem, sempre compartilhando suas leituras e vez ou outra escreviam um para o outro, os textos sempre carregados de fraternidade e afeto. Também gostavam de compartilhar o silêncio, muitas das vezes interrompido apenas pelo som das folhas que caíam no chão.
Naquele dia, Augusto segurou o amigo pela mão sem formalidades, apenas deslizando o anel em seu dedo com uma breve explicação:
— Mesmo quando estivermos distantes, uma parte de mim sempre estará com você.
Julian riu, sem saber que em alguns anos, tudo o que lhe restaria seria aquele anel.
Vítima de tuberculose, Augusto partiu mais cedo do que o esperado, no auge de seus vinte e sete anos, tempo em que não se falavam pelo medo que lhes foi imposto. Julian não poderia se entregar aos pecados da carne se quisesse ser um bom escritor, visto que a amizade de Augusto o levaria ao fracasso, por mais dócil e calorosa que fosse. Mas em 1892, após receber uma carta de sua irmã com a notícia, nenhuma poesia ou verso poderiam trazê-lo de volta.
Aquele anel nunca deixou Julian. Era para ele um lembrete dos risos, das notas do piano que ecoavam pelo internato, dos poemas a ele dedicados e do cheiro de terra molhada nos dias chuvosos no lago. Era um lembrete do que foram, mas também, do que nunca puderam ser. O pequeno anel de cornalina refletia a ausência e o vazio que nenhum escrito e nenhum outro corpo poderia preencher.
“Mas eu a amei com tal verdade
Na qual o tempo quis roubar
Fosse na presença ou na ausência
Julian viveu até os setenta e cinco anos. Partiu enquanto sonhava com seus poetas favoritos, vítima dos tantos anos vividos. Foi encontrado em sua cama, com um livro de poesias românticas ao seu lado e o anel de cornalina firme em seu dedo. A sua vida de escritor não havia sido das melhores, poucos haviam sido os seus escritos conhecidos e lidos. No entanto, como quase todos os autores de todo o mundo, foi reconhecido após a morte. Mas o que realmente o interessava era rever o antigo amigo, que continuaria a brilhar em seu dedo anelar por toda a eternidade.