A Negra História de Valéria
Enquanto aguardava seu atendimento em um hospital público, quase desfalecendo de tanta dor provocada pelas contrações que cada vez eram mais frequentes e intensas, percebendo o desprezo de enfermeiras e médicos que passavam de um lado para o outro sem olhar para ela, Valéria - uma adolescente negra, com seus quinze anos, alta, cabelo curto despenteado, com 26 dentes na boca, após extrair os demais ao longo de sua curta vida – pensou em como havia chegado até aquele momento. Algumas lágrimas escorreram em sua face. Ela sentiu uma dor dupla, a física e a psicológica. Lamentou muito as escolhas erradas que havia feito na vida. Se perguntou como será a vida dela após o nascimento de Gislayne. Como ela iria sustentar uma família composta por ela, sua mãe e sua filha em uma comunidade do Rio de Janeiro?
Perdida em seus pensamentos, Valéria lembrou do dia em que conheceu o pai de Gislayne. Foi em um baile funk que ela viu no salão um preto lindo, que sabia dançar como ninguém, ele fazia os passinhos e tinha um estilo próprio que chamava a atenção. Todas as meninas do baile queriam ser notadas por ele, mas, foi Valéria quem se destacou naquela multidão.
Valéria havia colocado o seu melhor vestido, a sua trança africana foi refeita poucas horas antes do evento, suas amigas compraram litrões de cerveja para que todas já entrassem no baile “no esquema”. Valéria rebolou seu enorme “popozão” no meio do salão atraindo para si toda a atenção.
Não demorou muito para o “boy magia” se aproximar dela e lhe tascar um beijo tão quente e envolvente que a fez dizer sim para a proposta que ele havia feito a ela. Foram beijos, amassos, sarradas e o ato sexual em si, tudo isso encostados na parede do local do baile funk. No calor do momento, não pensaram em nada, simplesmente curtiram e se entregaram aos desejos.
Cerca de um mês depois, Valéria estava preocupada com uns sintomas estranhos que andava sentindo. Um enjoo matinal, cansaço, se sentiu um pouco inchada, além da bendita da menstruação que estava atrasada. Ao perceber que estava grávida, Valéria se apressou em contar a novidade para o Cleiton, o “crush” que estava saindo com ela desde aquele baile.
A primeira reação de Cleiton foi duvidar que o filho era dele. Após insistência da Valéria garantindo ter provas de que ele tinha sido o único homem com o qual ela havia mantido relações sexuais nos últimos meses, Cleiton, então, mudou a tática. Ele insistiu que a Valéria desse um jeito de interromper a gravidez.
Valéria chorou muito com a reação de Cleiton. Ela esperava que ele fosse assumi-la como esposa e que juntos fossem criar o filho que estava por vir.
A princípio, contra a sua vontade, Valéria tentou algumas fórmulas abortivas que suas amigas e site da internet falaram para fazer, mas, como não foi bem sucedida em nenhum procedimento e também por ela preferir levar a gravidez adiante, Valéria desistiu de tentar interromper a gravidez.
Cleiton pressionou muito a Valéria para que abortasse, só falava com ela sobre isso. Evitava o contato com ela ao máximo. Ele já não desejava mais estar com ela. Ele tinha outros “contatinhos”.
Quando Valéria contou ao Cleiton que não iria abortar e tentou saber como os dois poderiam sustentar aquela criança, Cleiton jogou toda a culpa da gravidez sob a Valéria. No entendimento dele, a Valéria quem deveria ter se cuidado para não engravidar. Outras mulheres não engravidaram dele. Ele também disse que ao não interromper a gravidez a responsabilidade seria somente dela porque ele não queria ter filho. Ordenou que ela não o procurasse mais e se virasse sozinha, pois ela quem quis isso.
Valéria era filha de Maria das Dores, uma mulher sofrida que após um relacionamento tóxico com um alcoólatra, acabou ficando paraplégica por conta de uma surra que levou do ex-companheiro em um dia de bebedeira. Maria das Dores também foi mãe na adolescência e, devido a uma complicação no parto, acabou ficando estéril.
A mãe de Valéria trabalhou como diarista até ficar inválida. Após este episódio, passou a receber aposentadoria do estado por invalidez.
Valéria nunca conheceu o seu pai porque ele foi morto poucos meses após seu nascimento por estar envolvido com traficantes da comunidade onde os pais dela moravam.
Maria das Dores nunca conversou sobre sexo com a filha. Ela entendia que a vida a ensinaria, não achou ser da responsabilidade dela este tipo de educação. Mas, quando soube da gravidez de Valéria se culpou por não ter orientado a sua filha a não cometer o mesmo erro dela.
Valéria, por incentivo da mãe, estudava em colégio público, cursava a sétima série do ensino fundamental quando engravidou. Em plena gravidez, Valéria precisou largar os estudos e fazer trabalho como diarista e outros bicos que foram aparecendo para poder se sustentar, pois a aposentadoria que sua mãe recebia já era escassa antes mesmo de ela ter que ser preparar para gerar uma criança.
Com ajuda de alguns amigos da comunidade, Valéria conseguiu montar o enxoval do bebê, nada luxuoso, é claro, apenas com o básico para a criança sobreviver.
Foram nove meses muito difíceis. Com dificuldade para fazer um pré-natal na rede pública, sofreu com o descaso de profissionais que a atendiam com raiva por ela estar naquela situação. Além das dificuldades normais de uma gestação, ou seja, muitos hormônios, mudanças constantes de humor, depressão, ansiedade, medo, incertezas, arrependimentos, tristeza, carência, baixa autoestima, dores, cansaço, desânimo e mudanças no corpo. Desejos? Sim, muitos, mas ela já estava habituada a isto. Quantas e quantas vezes ela teve desejo de comer algo, mas não pode por falta de dinheiro, mesmo antes da gravidez?
Eis que finalmente, um enfermeiro se aproxima dela e avisa que ela será a próxima a ser atendida. Ele pergunta a nível de curiosidade, a frequência das contrações. Valéria informa sem ter muita certeza, pois, estava divagando em pensamentos e quase desmaiando de tanta dor.
Após horas em trabalho de parto, Gislayne chega ao mundo.
Gislayne é aquela menina típica de comunidade, rodeada de amigos que brincam conforme os recursos que têm. Em dia de calor, eles se refrescam tomando banho no valão. Sua mãe, a Valéria, está sempre ocupada com afazeres de casa, nos trabalhos de diarista, cuidando da sua avó e dando de mamar para o seu irmão três anos mais novo.
Aos quatro anos de idade, Gislayne ajuda a mãe a cuidar do seu irmão e de sua avó, nos momentos em que ambas estão podendo descansar, Gislayne gosta de acariciar a barriga de sua mãe que está à espera do terceiro filho.
Gilberto é o novo companheiro da sua mãe, ele é auxiliar de pedreiro e alcoólatra. Inúmeras vezes, Gislayne e seu irmão presenciaram a mãe sendo agredida pelo atual marido, o que provocou grande tristeza neles e um grande medo. Maria das Dores também testemunhava aquilo com enorme tristeza. Ela sempre pedia para a Valéria largar o Gilberto, mas a Valéria alegava que encontrou o amor da vida dela e não iria largar.
Alguns meses após o nascimento de sua irmã, Gislayne passou a ser importunada pelo Gilberto. Ele a acariciava em partes íntimas e a fazia acaricia-lo também. Gislayne não tinha a certeza que isso era errado, mas desconfiava porque o Gilberto a obrigava a ficar calada senão ele machucaria sua mãe e seus irmãos. Por amor, Gislayne se calou.
Ao presenciar uma cena suspeita, Maria das Dores chamou sua neta Gislayne para conversar, a esta altura, a filha de Valéria estava com 10 anos e 4 irmãos, cuidava da casa, dos irmãos, da avó e continuava sendo importunada pelo Gilberto. Maria das Dores quis saber se a sua neta tinha algum problema com o seu genro. Foi, então, que Gislayne caiu em prantos e contou tudo que ela estava passando nestes últimos 5 anos de vida. Sua avó ficou chocada com o relato. Até aquele momento, ela não suspeitava de nada. Ela quis saber o porquê ela não contou para ninguém e Gislayne explicou.
Naquele mesmo dia à noite, Maria das Dores teve uma conversa muito séria com a Valéria. Contou tudo que ela ouviu de Gislayne e exigiu que Valéria tomasse alguma providência em relação ao Gilberto. Atônita, Valéria ouviu tudo calada. Quando Gilberto chegou em casa, cheirando a álcool, Valéria o confrontou para saber se o que a Gislayne havia dito era verdade, mas, Gilberto negou. Disse que era a palavra de uma criança contra a dele. Alegou que jamais faria isso com ela pois a tratava como filha. Por fim, fez juras de amor a Valéria e a noite terminou com muitos beijos e a promessa de mais uma gestação.
No dia seguinte, furiosa, Valéria puxa a Gislayne pelo braço, interrompendo o seu escasso café da manhã. Valéria quis saber o porquê que a Gislayne estava inventando histórias sobre o Gilberto. Gislayne muito assustada, tentou alegar que não estava mentindo. Valéria deu uma surra na Gislayne, colocou-a de castigo, proibindo de ir para a escola e de brincar. Além disso, ela obrigou a Gislayne a pedir desculpas para o Gilberto e desmentir tudo que ela havia falado com a Maria das Dores.
Gislayne sofreu muito neste dia, foi o momento da vida dela que ela mais chorou. Ela sentia vontade de sumir, de morrer, ela se sentiu um lixo.
Maria das Dores se viu impotente diante da situação, ela acreditava na neta e via que sua filha estava cega pelo amor que dizia sentir por Gilberto. Lamentou muito ao perceber que aquele relacionamento abusivo que ela teve no passado com o homem que a deixou paraplégica e que a Valéria vivenciou era o motivo pelo qual a Valéria continuava aceitando se sujeitar a este relacionamento.
Algum tempo depois, Maria das Dores veio a óbito. A causa da morte que consta em seu obituário é falência múltipla dos órgãos, mas, extraoficialmente, cogita-se que o que a levou a morte foi a profunda depressão que a abateu, principalmente, por ver a sua neta e sua filha sofrendo e não poder fazer nada. Os problemas de saúde que ela passou a apresentar como diabetes, pressão alta e anemia parecem ter relação com este estado em que ela ficou.
Gislayne sentiu muito a morte da sua avó. Ela era a única companheira, só ela a entendia e defendia. Gislayne se sentiu sozinha.
Por ironia do destino, cerca de um mês após a morte de sua mãe, Valéria finalmente colocou o Gilberto para fora de casa, mas o motivo nada teve a ver com a Gislayne. Na realidade, o motivo da separação foi porque ela ficou furiosa quando descobriu que o Gilberto estava tendo um caso com a menina que fazia o seu cabelo.
Talvez por raiva e não por consciência, Valéria passou a espalhar para todos da comunidade que Gilberto abusava da sua filha. Gislayne se sentiu mal com a situação, achou que estava sendo usada por sua mãe para atacar o Gilberto.
Com o falecimento de sua avó e a separação da sua mãe, Gislayne e seus irmãos foram obrigados a largarem a escola para irem vender bala no sinal.
Os anos se passaram e Gislayne agora tem 15 anos. Ela trabalha como ajudante de cabelereira e está grávida de Juninho, o braço direito do dono do tráfico na comunidade em que ela mora. Um dos irmãos de Gislayne se encontra recolhido em uma unidade que atende a menores infratores, após ele participar de um assalto com arma de fogo com bandidos da comunidade. Um outro irmão de Gislayne foi morto em uma operação policial que envolveu uma troca de tiros entre traficantes e polícia. As duas irmãs mais novas ainda moram com a Valéria, mas, Gislayne tem planos de tirá-las da mãe delas porque suspeita que o atual namorado da mãe está fazendo com as meninas o que o Gilberto fez com elas.
Valéria está em sua 7ª gestação, sendo que a penúltima ela sofreu aborto espontâneo talvez por conta de todo o estresse da separação com o Gilberto e do falecimento de sua mãe. Ela adquiriu o vício em álcool e cocaína. Foi cheirando uma coca que ela conheceu o atual namorado que ela jura ser o amor da vida dela. Em alguns raros momentos de consciência, Valéria reflete sobre sua vida, sobre tudo que aconteceu com seus filhos e se pergunta onde foi que ela errou. Depois ela volta a mergulhar naquele caos sem fim que é a vida dela, repetindo velhos hábitos e tendo os mesmos resultados dramáticos. A biografia de Valéria é um “loop” de horrores infinito.
Cleiton, o primeiro “boy magia” da Valéria e pai da Gislayne, nunca mais teve notícias de nenhuma das duas. Ele foi morar em outra comunidade que ficava bem distante do local onde ele conheceu a Valéria.
Ele continuou seduzindo outras mulheres e as engravidando. Ele detestava usar camisinha e defendia que a responsabilidade pela gravidez era das mulheres. Todas que tiveram filhos dele foram largadas. Não receberam qualquer tipo de assistência ficando à própria sorte.
Cleiton sempre suspeitava se o filho era mesmo dele, este era um dos motivos que o fazia não assumir a paternidade das crianças. Muitas vezes, ele até achava que um ou outro se parecia com ele ou com alguém da família dele, mas ele se justificava dizendo que “todo preto se parece”, então, nada fazia.
Assim, Cleiton viveu do jeito que ele queria, sem compromisso, sem responsabilidade e sem cobrança da sociedade. Cleiton não abortou qualquer filho já que ele não tinha o dom de gestar, mas Cleiton abandonou vários incapazes ao longo de sua vida.
Em alguns raros momentos nos quais ele se sentiu sozinho, Cleiton relembrava de sua infância. Ele era filho de uma costureira que foi abandonada pelo marido assim que o Cleiton completou 1 mês de idade.
Cleiton sofreu muito com a ausência do pai na sua criação. Ele aprendeu sobre as questões masculinas ao ouvir seus amigos comentando. Sua mãe não entendia as suas necessidades enquanto uma pessoa do sexo masculino, então, ele nunca se dirigiu a ela para comentar sobre este tipo de assunto.
As questões masculinas que Cleiton aprendeu na rua foram carregadas de muito machismo de pessoas com pouquíssimas ou nenhuma experiência, que sabiam ou achavam que sabiam um pouco mais que o Cleiton. A crença em relação a responsabilidade exclusiva da mulher na concepção de um filho foi uma das várias crenças ensinadas a ele.
Uma vez, um professor no colégio onde Cleiton estudou até os 16 anos, se prontificou para tirar dúvidas sobre qualquer assunto que os meninos pudessem ter a respeito da masculinidade e da vida sexual. Cleiton ficou inclinado a conversar com o professor, comentou com uns amigos da escola e prontamente foi zoado por eles. Cleiton se sentiu envergonhado e, além de não ter a tal conversa com o professor, ele ainda decidiu abandonar a escola.
Há poucos dias, sua jornada terminou. Ele se envolveu com uma moça que era namorada do dono do tráfico na comunidade onde sua primogênita mora. Ele foi alvejado com 18 tiros quando saiu de casa para trabalhar, em uma emboscada que fizeram para ele. Por uma questão de orgulho, seu corpo foi levado até a comunidade do namorado traído e desovado em um terreno baldio próximo à casa de Gislayne que viu os traficantes carregando o corpo, mas não sabia e nem nunca saberá que aquele ali era o seu pai.
História meramente fictícia, mas que traz fatos da realidade da mulher negra no Brasil.
Afinal, quais foram os erros de Valéria, Maria das Dores, Gislayne, Gilberto e Cleiton? Todos são vítimas e vilões?
Por que a história dos negros se repete?
O que podemos fazer enquanto sociedade para mudar este panorama?
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