A entrada da Caverna não é o que se espera, apesar de sua porta ser decorada com pedras: não há placas, crucifixo, ou sequer uma pequena faixa. Na Rua Aimorés, o número 482 tem “academia” escrito embaixo. No entanto, pode-se ser recebido por pessoas que dirão “a Caverna é aqui sim” com um sorriso no rosto, enquanto conversam no hall. Mais para dentro, vemos a característica sala espelhada e piso de madeira das academias de dança, mas, às quartas e domingos, é ocupada também por cadeiras e um púlpito, além de música e oração.
Talvez seja difícil imaginar uma igreja evangélica frequentada por barbudos, cabeludos e tatuados vestidos de preto, mas eles também carregavam bíblias - alguns em seus respectivos tablets - e entoavam as canções naquela noite de quarta-feira. Mulheres de cabelo curto e homens de cabelo longo, tingidos de vermelho ou estilo rastafári, com piercings e alargadores, eram apenas mais fiéis no louvor, junto a pessoas mais velhas, crianças e quem parecia chegar do trabalho em trajes mais formais. A banda contava com violões, uma meia lua e um cajón – instrumento de percussão que se toca sentando em cima – e o vocalista cantava com energia. Enquanto as pessoas iam chegando, se cumprimentando e acomodando, o clima parecia leve e íntimo, acolhedor.
Houve um breve momento de oferta, em que os presentes fizeram suas doações, as colocando em uma caixa artesanal, parecendo ter sido decorada à mão. No púlpito recém-pintado por Natty com flores e espinhos, as pessoas subiam e davam seus recados, aproveitando para elogiar e parabenizá-lo. Chamavam-se pelo nome e aproveitavam para brincar uns com os outros, enquanto pediam voluntários para o bazar que haveria no final de semana e doações para os índios Maxacalis, alguns dos projetos da igreja. “Vai ter almoço?”, alguém indagou sobre o bazar, ao que responderam, rindo: “Ah, sim! Tendo comida todo mundo ajuda, né?”.
O pastor Geraldo, facilmente reconhecível pelos cabelos longos presos em um rabo de cavalo, foi à frente, vestindo o que parecia uma camisa estilo souvenir, em que se lia “Belém-Pará” e uma calça colorida – roxa. Leu versículos da Bíblia (2 Timóteo 3.1-5) sobre os homens que viveriam nos últimos dias, ingratos, profanos e cruéis, ao que relacionou aos sequestradores do grupo Boko Haram das mais de 200 nigerianas no mês de abril. Geraldo leu uma notícia da Folha de S. Paulo no culto e pediu oração por elas e outras crianças em situação de risco, como as crianças Maxacalis e também do Morro das Pedras, amparadas por projetos da Caverna. O pastor não se atinha apenas ao texto bíblico, e suas referências seculares – de fora do mundo cristão – não pararam por aí.
Ao ler mais uma passagem bíblica, do livro de Mateus (16:24-26), mencionou o filme O Nome da Rosa e o musical de Cazuza na discussão, descontraído e pouco convencional. Entre uma risada e outra, em que primeiro ríamos da piada e depois de seu jeito de rir, Geraldo descreveu Jesus como esquisito, andarilho, hipster. “Pegue sua cruz e siga-me”, disse Jesus aos seus discípulos, e ele vai a todo lugar, mesmo no meio da miséria humana. “Ai que Jesus bandido”, o pastor comentou, “nunca para quieto em seu trono”.
O culto terminou com a partilha de pipoca Aritana. Ficamos ainda conversando com o pastor após o culto, vendo as pessoas passando e cumprimentando. Um dos presentes nos pediu para que orássemos pela vitória do Cruzeiro naquela noite, ao que o pastor respondeu: “não caiam em tentação”.