Hoje, de repente, em meus afazeres diários e depois de algum tempo, pensei em você. É engraçado que toda vez é a mesma coisa, sempre que você vem à mim eu invento mil diálogos diferentes, coisas nunca ditas e que fico imaginando como seria se eu falasse e tentando adivinhar qual seria a sua reação.
Quando a garota chegou à sala do diretor, era visível sua palidez. Seus passinhos eram cautelosos, o corpo miúdo se abraçava já que a temperatura caíra alguns graus desde a manhã em que saíra do Castelo Dillamond. Ainda possuía o choque de estar sendo interrogada para saber acerca do desaparecimento de outros aprendizes, porém, Karou tentou manter a calma quando seus olhos encontraram a Fada Azul e percebeu que ela brilhava tanto quanto se tinha notícia. Obviamente, não conseguiu segurar a animação, mesmo que mínima, e levantou a mão para cumprimentar a fada que amistosamente lhe respondeu. — A senhora é muito mais bonita do que o retrato do seu conto. — Afirmou a Bredenberg. Eustáquio, o texugo, também estava ao seu lado e assentiu com a fala da dona.
— Obrigada, querida. Venha, tome o assento. Temos algumas perguntas para você. Não precisa se preocupar, tudo bem? Apenas seja sincera. — A voz dócil da Fada Azul preenchera o lugar. Karou assentiu ao se aproximar da mesa, sentando-se na cadeira indicada. EuEu pulara em seu colo, farejando a mesa do diretor. Era melhor que Karou o abraçasse a fim de evitar qualquer furto. Ela não possuía condições de pagar o que quer que o texugo roubasse de Merlin. — Você sabe o motivo de estar sentada aqui, Karou? — Merlin indagou com as mãos sobre a mesa. Mas, é claro, Karou estava extremamente distraída com a pena mágica, curiosa para saber como o mago fazia tal coisa. — Karou? — O mago retornou à chamá-la, fazendo com que, com o olhar vago, voltasse para ele.
— Sim?
— Você sabe o motivo de estar aqui? — Tornou a perguntar, fazendo com que a cabeça da garota se balançasse positivamente.
— Sim, senhor. Alguns — sua voz tremeu ligeiramente, fazendo-a engolir em seco. Acreditava que não iria chorar quando chegasse a sua hora, mas possuía um nó em sua garganta insistente. — Alguns estudantes desapareceram. Ye-Ye-Yeren — fez uma pausa para inspirar profundamente. — Cheryl, Li-Lilith... — não foi capaz de continuar recitando os nomes, sentindo-se cada vez mais apreensiva e triste por saber quais eram os amigos que já não se encontravam em Aether. Muitos disseram que não eram esquecimentos, mas desaparecimentos. Era diferente.
Estava prestes a chorar quando a voz feminina lhe chamou atenção. — Sim, Karou, é a respeito disso. Você aceita alguma coisa para beber querida? Que tal um chocolate quente? — A Fada Azul parecia ter um tato maior para lidar com a garota. Ao assentir, rapidamente um uma xícara de chocolate quente apareceu diante da Bredenberg que a tomou em suas mãos. Primeiramente, inspirou o aroma, sentindo o seu âmago se acalmar instantaneamente. Bebericou um pouco, mas seu estômago ainda estava ligeiramente incomodado. — Nós faremos algumas perguntas importantes para você. Queremos saber algumas coisas. Vamos registrar nossa conversa para podermos ler com cuidado depois. Está tudo bem? — A Fada Azul tornou à perguntar.
— Sim, senhora.
— Muito bem. Poderia se identificar, por favor? Dizendo seu nome, sua idade, sua filiação e a sua raça.
— Sim. Meu nome é Karou Bredenberg, tenho vinte anos-não, vinte e um! Fiz no dia três de março. Vinte e um anos. Sou filha de Ida Bredenberg, do conto As Flores da Pequena Ida, e Emil Bredenberg. Meu pai morreu quando eu tinha oito anos de idade. E eu sou humana. — Assentiu com a resposta.
— Muito bem, Karou. Qual foi a primeira coisa que fez assim que chegou à Ilha dos Prazeres? — Merlin voltou à falar com a Bredenberg que retirou as íris castanhas da Fada Azul e voltou para o mago.
— Eu dei parabéns para a Alexis. Ela disse que era seu aniversário, mas nenhum dos pais ligou ou disse nada. Eu dei parabéns com EuEu, não foi, EuEu? — Perguntou para o texugo que concordou dizendo: “pega ele”. — E, depois disso, fomos comer torta com ela. Ela de limão e eu de amora. Eu queria ter dado um presente para ela, mas não sabia qual. — Concluiu sua fala, observando a pena escrever o que fora dito.
— Você viu que tem alguns aprendizes desaparecidos, certo? — Com a cabeça confirmou, fazendo com que Merlin prosseguisse: — Você era próxima de algum deles? Ou tinha alguma inimizade? Viu algum deles no passeio em alguma atividade suspeita?
— Eu era próxima da Yeren. Tínhamos um grupo da PAL na Nimbo. Eu gostava dela. Cheryl também era legal. Ela estava me ensinando a dançar funk. Marzia também era uma boa pessoa e Lilith — Karou fungou. Lilith era sua amiga, mas, por alguma razão, não eram mais próximas. Lilith se afastou tão abruptamente! Mas não queria dizer que não gostava da filha do Senhor do Tempo, tampouco que não se entristecia com o que ocorria agora. Após alguns segundos, bebericando o líquido quente e amarronzado, a Bredenberg concluiu: — eu as conhecia e fico triste por ter sumido. Eu não conhecia bem os outros, mas acho que eram legais. Eu os vi, conversei com a Yeren um pouco, sorri para o Matteo. Mas não vi nada suspeito no comportamento deles.
— Fez algo inusitado no passeio?
— Eu acho que não, professor. Eu fui na casa dos espelhos e Jane passou mal. E depois eu-eu passei mal, no túnel do amor. No final do passeio. Eu passei mal e caí do trem do túnel do amor. Bati a cabeça e fiquei desacordada.
— E você está melhor agora, querida? — O modo delicado com que a Fada Azul falava lhe lembrava sua mãe. Karou fez que sim com a cabeça, olhando para a fada.
— Estou sim, senhora. Eu fiquei com a Maggie por um tempo. Ela cuidou de mim. Ainda estou enjoada por causa da queda, mas estou melhorando. — Não era somente a queda que lhe deixava enjoada, mas também toda a pressão que havia ali, tal como o fato de ter acabado de sofrer com um dos sintomas do esquecimento. Mas não era uma mentira, pois a queda também a deixara um tanto mal.
— Você se lembra de ter visto algo estranho no passeio ou uma presença estranha? — Negou com a cabeça, olhando para o texugo.
— Você viu, EuEu? — o texugo começou a repetir seus dizeres de sempre: “pega ele, frita ele, frita ele, pega, frita, faz purê!”, mas Karou não sabia o que isso queria dizer com toda a certeza. O que EuEu falava não era totalmente compreensível para a Bredenberg, mas algumas coisas conseguira captar. — EuEu disse que ou tinha um homem esquisito, ou o jiló é um moço rico. — A garota de fios coloridos voltou-se para o professor que parecia impressionado com a capacidade do texugo e da própria aluna.
— Muito bem, Eustáquio. Você poderia nos dizer, também, onde se encontra os objetos que andou afanando dos alunos nos últimos anos, o que acha? — Mas o texugo continuou calado, fingindo não ter compreendido o que o mago falava. — Imaginei que não diria. Karou, você tem alguma inimizade ou desafeto em Aether?
— Não, senhor.
— Já cogitou prejudicar ou fazer mal a um colega aprendiz?
— Não, senhor. — EuEu se remexeu em seu colo, empertigando-se. Ele sim. E, recitando: “pega ele, frita ele, faz purê!” o texugo parecia dizer que sim, havia alguns aprendizes que queria fazer mal a ele. — Ah, EuEu, não é sobre você... É sobre as pessoas desaparecidas. O professor quer saber se faríamos mal a alguém. Não faríamos. E ninguém vai fazer mal a você. Até o Njord gosta de você agora, lembra! Ele não te ameaçou de novo. — Quando sua face se ergueu, proporcionando-a olhar para o professor, ela concluiu: — Sinto muito por isso. EuEu foi ameaçado pela Araminta e está com isso na cabeça.
— É por isso que você disse que acabaria com a raça de Araminta De Vil? — O corpo miúdo de Karou se encolheu na cadeira.
— É...
— Por que disse isso?
— Porque ela chegou gritando com o EuEu, falando que acabaria com a raça dele e eu... Eu falei de volta. Disse que se ela fizesse algo com EuEu, eu também acabaria com a raça dela. Mas não era de verdade. Eu não faria nada com a Araminta. — Negou. Era incapaz de ferir uma mosca!
— Esse foi o desentendimento que teve no final do passeio? — Merlin perguntou para a garota. Karou não hesitou em responder:
— Sim, senhor. EuEu roubou um broche dela. Ou algo assim. E depois, quando vi, ela estava gritando com ele, dizendo que iria matá-lo ou acabar com a raça do Eustáquio. Eu retruquei. Disse que faria isso com ela, se ela fizesse algo com o EuEu. Eu não faria, senhor Merlin, mas eu precisava defender o EuEu. Ele só tem a mim. Eu salvei ele, você sabe? De um homem mau. Não posso deixar nada acontecer com meu texugo. Mas, senhor, eu nunca machucaria a Araminta de verdade. Aconteceu alguma coisa com ela? — Um tanto ansiosa, perguntou, empertigando-se na cadeira.
— Não, querida. Ela está bem. Só queremos saber o que aconteceu entre as duas para possíveis resoluções. — Como sempre, a Fada Azul interveio, fazendo a descendente se acalmar ligeiramente. Retomou sua atenção para o chocolate quente que nunca esfriava, tomando outro gole. — Bom, Karou, fomos informados que você foi visto em atitude suspeita perto do Trem Fantasma... Como explicaria isso? — A garota apertou os lábios, pensando sobre o momento.
— Eu entrei com a Mel e gritei algumas vezes. Eu acabei arranhando a Mel. Ela me deu uma pulseira de néon e um apito para quando fosse até a casa dos espelhos, caso me perdesse... Quando saí, estava nervosa. Nervosa para pensar muito em uma coisa. Eu não dei nome, mas parecia um cachorrinho. Era um animalzinho. Era para ficar calma porque animais me acalmam. O senhor acha que algo que eu fiz no trem fantasma fez com que todos sumissem? — Era o pensamento agora, fazendo com que o coração da garota acelerasse. — Eu não tenho certeza de como controlar meus poderes, professor. Talvez eu tenha feito um bicho que devorou todo mundo e-e
— Não foi o que você fez, Karou. — a voz da Fada Azul inundou, novamente, o espaço. — Querida, tome seu chocolate, sim? Logo terminaremos. Mas não fique nervosa. Nada do que você fez poderia ter afetado os aprendizes. Teríamos relatos de um ataque animal, caso fosse o caso. Não se preocupe. — A fada era tão dócil que era impossível ficar nervosa em sua presença. E, obedientemente, Karou voltou sua atenção para a bebida relaxante. De fato, a cada vez que tomava um gole do chocolate, se sentia mais tranquila e relaxada, assim como sonolenta. Comicamente, o líquido nunca diminuía, não importava o quanto bebesse. — Querida, agora preciso da sua colaboração. Você demorou quinze minutos para chegar ao ponto de encontro do seu grupo e foi uma das últimas pessoas à chegar. Por que disso? — Perguntou a fada. Karou apertou os lábios, sentindo o peso em seu peito aumentar.
— Sim, senhor. Eu-Eu estou sendo esquecida, professor. Eu sei disso. Metade da minha história desapareceu e, às vezes, eu sinto dores. Eu sei que alguém no mundo humano me esqueceu. E eu sinto dor quando isso acontece. Acho que o senhor previu isso, não é, professor? — Havia um sorriso melancólico na face da garota. — E quando eu senti essa dor, eu caí do trem no túnel do amor. Eu bati a cabeça e desmaiei. Maggie me tirou de lá e depois ficou cuidando de mim. O parque estava quase vazio e ficamos esperando com que eu melhorasse. Eu não estou dolorida ou enjoada apenas pela queda, mas também por causa disso. Meu corpo está formigando também. Uma coisa ruim. — Por mais difícil que fosse dizer isso, Karou não chorou ao proferir. Era um fato. E, eventualmente, todos saberiam.
— Está tudo bem, Karou. Vamos conversar sobre isso depois, sim? Agora não terei tempo, mas você não será esquecida. É para isso que Aether está aqui. — Merlin pigarreou, olhando para a fada que assentiu. Não havia razão para continuar o interrogatório da Bredenberg, porém, ainda havia algumas perguntas a serem feitas.
— Karou, temos uma última pergunta: existe alguma razão para qualquer aprendiz ter relatado tantas coisas sobre você? Algum desafeto ou inimizade? — Mas a pergunta fora feita outrora e a resposta era a mesma: não. — Tudo bem, querida. Acabamos aqui. Tem alguma coisa que queira nos contar? — A Fada Azul perguntou, mas com a nova negativa de Karou, ela assentiu. — Então pode ir agora.
A Bredenberg esperou EuEu pular de seu colo e colocou a xícara de chocolate quente na mesa de Merlin. — Obrigada pelo chocolate quente. Estava uma delícia. Obrigada, professor. — Acenou para o diretor e para a fada, afastando-se de ambos enquanto rumava para a saída.
— Ah, Karou. Nunca se esqueça do que acontece quando você deseja sob uma estrela. — A fada sorriu e, quando abriu a porta, Karou olhou para seus pés. O All Star azul. Ainda havia uma pergunta. Algo que a atormentara por semanas.
— Ah, professor, eu tenho uma pergunta.
— Diga, Karou.
— O Sersak também desapareceu com os alunos?
— Não. Sersak não desapareceu, Karou. Ao menos, não tenha chegado ao nosso conhecimento algo assim. Por quê?
— Porque ele foi embora sem dizer adeus. Se o senhor esbarrar com ele por aí, diga que estou com saudades. E que ele é o melhor amigo do mundo. E que eu escrevi o nome dele no all star azul porque o preto de cano alto combina com o azul de cano baixo. — Aquilo parecia fazer tanto sentido na cabecinha da Bredenberg que Merlin não discutiu.
— Darei o recado. Boa noite, Karou.
— Boa noite, professor. Tenha bons sonhos. A senhora também, Fada Azul. A senhora é muito bonita. Mais do que os retratos.
— Você também, Karou. Boa noite.
E, assim, terminou a entrevista de Karou Bredenberg.
Eu vou ser bem sincera contigo, eu não tenho a mesma paciência que antes de ficar falando contigo o mesmo assunto 500 vezes, não sou assim, isso cada vez mais enche meu saco e eu tenho certeza que tem alguém aí que possa te escutar do jeito que tu merece, eu entendo o que um amigo disse uma vez que eu era quase a pessoa certa, mas nao deixava de ser quase. Eu me sinto muito indiferente agora, muito distante, não posso mais dizer que damos certo. A gente briga por besteira quase todos os dias e cada briga foi tirando um pouco da tela do que realmente sinto, eu gosto muito de você mas tenho certeza que não sou a pessoa certa pra ficar do seu lado, não mais.
Esperei tanto por esse dia que contei os segundos até dar meia noite. Preparei uma texto de todo o coração. Pensei e repensei se deveria fazer o que fiz, mas foi aí que decidi que era o certo.
Foi tão inesperado tudo que me disse. O coração apertou, um pouco de esperança me bateu, mas em seguida mandou um alô fazendo acreditar que aquilo era só um lembrete de como fui importante e uma boa namorada. Talvez eu tenha entrado na sua vida numa época errada, quem sabe se fosse em outra época não teria dado certo. Hoje não me arrependo de tudo que passamos, mas guardo em minha lembrança todos os momentos. Eu agradeço por você ter sido uma das melhores pessoas que passaram em minha vida até hoje.