Desde os três anos de idade, Peter Pan e sua história têm me acompanhado e, sempre que assisto os filmes ou leio o livro, a sensação é de estar dentro da história.
Imagina se existisse mesmo esse lugar mágico, onde ninguém envelhece, cheio de aventuras como nadar com as sereias, lutar contra os piratas, voar com as fadas, caçar com os índios, brincar com os meninos perdidos de caça ao tesouro... Sinto falta da minha infância.
Se a Terra do Nunca existisse de verdade, seria mais fácil de lidar com tudo. Se alguma coisa acontecesse aqui, eu poderia abrir a janela, chamar por Peter Pan e iríamos pra lá. Ficaria quanto tempo eu quisesse, me divertindo como uma criança de novo. Depois de chegar aos 20 anos (ou talvez antes), se descobre que a vida não é tão simples como quando se é criança, não se pode agir inconsequentemente como um adolescente e não vai ter ninguém ali pra fazer minhas vontades ou me ajudar como quando se é bem novinho. Responsabilidades, faculdade, emprego, contas, saúde mental e física, tempo pra si mesmo. É bem difícil de conciliar tudo sem se sentir completamente exausto no fim do dia. Dá vontade de largar tudo? Dá. Todo dia. E, às vezes, a gente se esquece de sorrir e de brincar como uma criança. Essa criança que existe dentro da gente, aos poucos desaparece... Chega uma hora que a gente nem lembra que ela um dia existiu.
Se tem uma lição de vida que eu levo comigo é não deixar essa criança interior sumir. Tudo bem ser um pouco infantil e não se preocupar muito às vezes, faz bem. Já pensei que as pessoas com síndrome de Peter Pan são sortudas, por manterem a inocência e a vontade de ficarem jovens pra sempre, mas não é algo bom. Pensamento equivocado. Uma síndrome ou um transtorno nunca são bons. Há sequelas, manias, tiques, medos, ansiedades, pânicos, atitudes, pensamentos, efeitos colaterais, remédios, terapias... É uma vida um tanto desanimadora. Ninguém quer viver à base de remédios controlados.
Apenas o período que passei pela depressão me dá calafrios de lembrar. A sala do psiquiatra, toda semana, as mesmas perguntas, as mesmas prescrições, os mesmos pensamentos. Até que um dia, finalmente, mudaram de forma. Pra melhor. Sempre repito pra mim mesma que a última coisa que eu quero é precisar entrar naquele consultório outra vez. A gente se sente impotente, dependente e perdido.
Quando se passa por uma situação assim, de estresse, ou ansiedade, ou negativa, é difícil de manter a criança interior viva. A gente perde a fé nela aos poucos. E ela se torna triste. A inocência já está perdida mesmo.
Porém, peço pra você, que tá lendo esse post, não deixa ela morrer. Se ela se perder, traz ela de volta. O ser humano precisa de um pouco da inocência e da pureza, da bondade e da positividade, da alegria e da vontade de viver de uma criança. Porquê senão a gente morre infeliz. A criança é a risada que ressoa alto no ambiente. É o machucado que surgiu na pele e a gente não lembra onde que bateu. É o não se importar com a aparência porquê o que se quer é se divertir. É o não enxergar o mal nos outros pra conseguir acreditar só um pouco que o ser humano ainda é bom. É o aproveitar cada momento do dia como se fosse um jogo ou uma brincadeira. É encarar os desafios como uma aventura, com piratas, um baú do tesouro e uma espada. É o andar pelas ruas e sorrir quando se vê um pequenino brincando no parquinho, ou correndo alegremente com os amigos, ou brincando com um bonequinho do Homem-Aranha. É o enxergar o lado bom nos momentos ruins. É ter vontade e garra pra viver. Pra que mais aventuras venham.
"Todas as crianças crescem, menos uma."