Eu passei a vida em guerra - e nunca fui eu quem a começou
Às vezes penso na minha vida como penso na Segunda Guerra Mundial.
De jeito nenhum por querer comparar a minha dor à dor de milhões de pessoas que viveram uma guerra de verdade, mas puramente de uma forma análoga, porque existe algo na lógica de uma guerra que traduz uma parte daquilo que vivi durante décadas: eu passei boa parte da minha existência tentando sobreviver a um conflito que não fui eu quem comecei.
Nasci dentro de um território que deveria ter sido seguro.
Não era.
Desde muito cedo, aprendi a observar, antecipar, compreender, me defender. Aprendi a ser independente antes de estar pronta para isso. Aprendi que determinadas emoções incomodavam, que determinadas perguntas eram perigosas e que ser diferente podia ter um preço.
E, em algum momento, uma coisa terrível aconteceu:
eu passei a ser responsabilizada por ser quem eu era.
Como se eu tivesse escolhido minha sensibilidade.
Como se tivesse escolhido sentir tudo com intensidade.
Como se tivesse escolhido perceber aquilo que outras pessoas preferiam não ver.
Como se tivesse escolhido ter uma mente que não conseguia simplesmente aceitar contradições, injustiças e mentiras.
Como se tivesse escolhido ser diferente.
Como se tivesse escolhido sofrer.
Eu não escolhi nada disso.
E, ainda assim, passei boa parte da vida sendo punida por características que nunca pedi para ter.
Fui chamada de difícil.
De complicada.
De exagerada.
De problemática.
De alguém que precisava mudar.
E talvez a maior crueldade tenha sido esta: transformaram aquilo que havia de mais vulnerável em mim na prova de que eu era o problema.
Enquanto eu tentava entender as pessoas, fui pouco compreendida.
Enquanto eu tentava ajudar, muitas vezes fui ferida.
Enquanto eu absorvia a dor dos outros, ninguém perguntava o que estava acontecendo com a minha.
Passei a vida carregando dores que não eram minhas.
Sentindo o sofrimento de pessoas que nem sequer percebiam o meu.
Tentando fazer o bem mesmo quando eu mesma precisava desesperadamente que alguém fizesse algum bem por mim.
E isso talvez seja uma das maiores tragédias da minha história:
eu passei décadas tentando ser uma pessoa boa em um mundo que tantas vezes me ensinou que bondade não era suficiente para ser tratada com bondade.
Eu queria justiça.
Queria compreensão.
Queria que as pessoas olhassem para uma situação inteira antes de escolher um culpado.
Queria que alguém perguntasse:
"O que aconteceu com ela para que ela tenha chegado até aqui?"
Mas quase sempre foi mais fácil perguntar:
"O que há de errado com ela?"
Foi assim que o rótulo nasceu.
A garota problema.
O bode expiatório.
A pessoa que precisava carregar aquilo que os outros não queriam olhar.
E talvez exista uma ironia cruel nisso tudo.
Porque eu passei a vida tentando fazer exatamente o contrário daquilo que me acusavam de fazer.
Eu tentei compreender.
Tentei ajudar.
Tentei proteger.
Tentei perdoar.
Tentei permanecer.
Tentei amar.
Tentei encontrar alguma explicação para pessoas que me machucavam.
E, muitas vezes, fiz isso enquanto ninguém tentava encontrar uma explicação - melhor dizendo, nem sequer a existência da minha dor.
Uma vida em território ocupado
Quando penso na Segunda Guerra Mundial, penso em pessoas que acordavam todos os dias sem terem escolhido a guerra.
Civis que simplesmente nasceram no lugar errado, na época errada.
Pessoas que tiveram suas casas ocupadas, suas famílias destruídas, sua liberdade restringida e sua realidade determinada por forças que não controlavam.
É assim que algumas partes da minha infância e da minha vida adulta parecem quando olho para trás.
Como viver em território ocupado.
Eu estava ali.
Eu precisava sobreviver ali.
Mas não tinha escolhido as regras daquele território.
E, pior:
em vez de reconhecerem que eu estava sofrendo dentro daquele sistema, muitas vezes me fizeram acreditar que eu era a própria causa do conflito.
Isso produz uma coisa terrível na mente de uma pessoa:
ela começa a lutar contra si mesma.
Durante anos, tentei descobrir o que havia de errado comigo.
Por que eu sentia tanto?
Por que eu não conseguia simplesmente esquecer?
Por que certas coisas me destruíam enquanto pareciam não afetar ninguém?
Por que eu precisava de liberdade de maneira quase desesperada?
Por que eu questionava tanto?
Por que eu não conseguia fingir que estava tudo bem?
Talvez porque eu estivesse tentando sobreviver.
O preço de sentir a dor dos outros
Existe uma crueldade particular em ser uma pessoa profundamente sensível em ambientes onde a sensibilidade não é compreendida.
Você percebe o sofrimento.
Você percebe o silêncio.
Percebe a mudança no tom de voz.
Percebe a injustiça.
Percebe aquilo que ninguém quer dizer.
E, quando percebe demais, começa a carregar demais.
Eu carreguei pessoas.
Carreguei histórias.
Carreguei culpas.
Carreguei conflitos.
Carreguei dores que não eram minhas.
E, enquanto fazia isso, fui ficando cada vez mais cansada.
Até que um dia já não sabia mais onde terminava a dor dos outros e começava a minha.
Talvez eu tenha passado tanto tempo tentando salvar pessoas que ninguém percebeu que eu também precisava ser salva de alguma coisa.
E então veio a tragédia
Não consigo olhar para a minha história e chamá-la simplesmente de "difícil".
Foram décadas.
Décadas de sofrimento psicológico.
De injustiças.
De incompreensão.
De relações que deveriam ter sido abrigo e acabaram sendo fonte de dor.
De crises.
De perdas.
De tentativas de recomeçar.
De acreditar novamente.
De me decepcionar novamente.
De tentar encontrar um lugar onde eu pudesse finalmente existir sem precisar me defender o tempo inteiro.
Existe uma tragédia nisso.
Não porque minha existência esteja condenada a terminar tragicamente.
Mas porque uma quantidade absurda de sofrimento foi colocada sobre uma pessoa que, desde muito cedo, só queria compreender o mundo e fazer o bem.
Essa é a parte que mais dói.
Eu não queria ser uma guerra.
Eu queria apenas viver.
Talvez eu nunca tenha sido o problema
Hoje, olhando para trás, existe uma pergunta que me persegue:
E se eu nunca tivesse sido o problema?
E se eu tivesse sido apenas uma criança tentando sobreviver ao ambiente em que nasceu?
E se a menina considerada difícil estivesse apenas tentando compreender coisas que eram difíceis demais para uma criança compreender?
E se a mulher considerada complicada tivesse passado décadas tentando encontrar alguma coerência em um mundo que tantas vezes lhe ofereceu contradições?
E se aquilo que chamaram de defeito fosse, em parte, o resultado de ter precisado desenvolver mecanismos de sobrevivência cedo demais?
E se eu não fosse uma pessoa quebrada?
E se eu fosse uma pessoa ferida?
Existe uma diferença gigantesca entre as duas coisas.
Uma pessoa quebrada é descartada.
Uma pessoa ferida pode cicatrizar.
Depois da guerra
A Segunda Guerra Mundial terminou.
Mas ninguém esperou que as cidades destruídas fossem reconstruídas em um dia.
Primeiro vieram os escombros.
Depois, a tentativa de encontrar os sobreviventes.
Depois, o luto.
Depois, a reconstrução.
Talvez seja isso que eu precise aprender agora.
Não sei se algum dia conseguirei olhar para minha história sem sentir revolta.
Talvez eu nunca consiga perdoar determinadas coisas.
Talvez algumas feridas nunca desapareçam completamente.
Mas existe algo que começa a mudar quando finalmente compreendemos uma coisa:
eu não fui responsável pela guerra que encontrei quando cheguei ao mundo.
Eu não escolhi ser quem sou.
Não escolhi sentir tanto.
Não escolhi carregar tantas dores.
Não escolhi ser diferente.
Não escolhi ser transformada em problema.
Não escolhi as feridas que me trouxeram até aqui.
Mas talvez, pela primeira vez, eu possa escolher o que fazer com o que restou.
Talvez minha vida não precise continuar sendo apenas a história de uma pessoa que sofreu.
Talvez possa ser também a história de uma pessoa que, depois de atravessar décadas de guerra, finalmente decidiu não entregar o resto da própria existência àqueles que ajudaram a construir o campo de batalha.
Eu passei a vida tentando sobreviver.
Agora preciso aprender algo muito mais difícil:
viver.
Não para provar que eu estava certa.
Não para provar que os outros estavam errados.
Não para ser finalmente reconhecida como a pessoa que eu sempre soube que era.
Mas porque, apesar de tudo que aconteceu comigo, a minha vida ainda é minha.
E talvez essa seja a primeira coisa que ninguém mais tenha o direito de tomar de mim.



















