Ah, que dias implacáveis aqueles que se seguem à catástrofe! O sol desaba sobre a cidade como um funcionário burocrático e indiferente, exigindo que o homem ande, respire, finja coerência e sorria com a boca enquanto o peito, por dentro, jaz em ruínas carbonizadas. É uma vergonha indizível carregar a própria desgraça à luz do dia, sob os olhares apressados de quem apenas vive.
Mas e quando a noite finalmente vence? E quando a última lâmpada se apaga e o mundo cessa o seu frenesi hipócrita?
É aí, precisamente aí, que começa o verdadeiro tormento — e também a nossa frágil, miserável trégua.
Aos corações partidos, aos que tiveram a existência estilhaçada por uma palavra cruel, por uma ausência ou pela constatação súbita de que tudo o que amavam era um delírio, eu não desejo a felicidade. A felicidade é um insulto para quem sangra por dentro. O que eu desejo, com toda a intensidade de uma alma que já espreitou os abismos do desespero, é que os dias sejam gentis com vocês.
Ah, e o que dizer daqueles outros? Os incuráveis. Os que trazem no peito a incurável e sagrada doença do lirismo. Sim, refiro-me aos românticos inveterados, aos poetas que sangram versos no breu, àqueles que já morreram incontáveis vezes de amor e, contudo, continuam a ressuscitar, estúpidos e sublimes, apenas para morrer de novo na manhã seguinte. Para essa estirpe maldita e maravilhosa de sonhadores, que confunde a realidade de um quarto fétido com os jardins do Éden, os dias não são apenas difíceis — são uma conspiração vulgar. Como pode um espírito que conheceu o infinito contentar-se com o pão sovado da rotina, com a conversa fiada dos mercados e com a moderação dos prudentes?
Que a rotina não vos esmague com o seu chicote de obrigações estéreis. Que o pão de cada dia não vos engasgue na garganta.
E, mais especificamente, que as madrugadas vos poupem.
Pois é na madrugada que o abismo se inclina sobre a nossa cama. É nas horas mortas que o fantasma do passado ergue-se altivo, repassando cena por cena, palavra por palavra, com a precisão sádica de um inquisidor. O quarto estreito parece expandir-se até se transformar no infinito, e o peito — ah, o peito quebrado! — parece pequeno demais para conter tanto eco, tanto arrependimento, tanto nada.
Que nessas horas de trevas absolutas, quando o teto desaba sobre a vossa fronte febril e a solidão vos aperta a garganta como um laço invisível, haja um sopro de piedade no ar. Que a insônia vos seja menos feroz. Que o delírio da lembrança encontre, ao menos por instantes, uma trégua na vossa memória martirizada.
Se havemos de sofrer — e parece ser este o destino inevitável de quem ainda é capaz de amar e sentir com toda a força do espírito, de perecer por excesso de alma —, que o mundo exterior, pelo menos, vos conceda a misericórdia de uma brisa leve, de um pensamento que não fira, e da certeza secreta, guardada no fundo do calabouço, de que até mesmo os corações mais destroçados continuam a bater, teimosos e irredutíveis, contra a própria ruína.
𓂃 ࣪˖ ִֶָ𐀔
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