Perder o mundo ou perder a si mesmo
A escolha que muitas pessoas enfrentam quando percebem que só serão aceitas, ou sequer amadas, se deixarem de ser quem realmente são.
Esses dias li uma frase de E. E. Cummings que me atingiu como um meteoro:
"Ser ninguém além de si mesmo em um mundo que faz o seu melhor, dia e noite, para transformá-lo em alguém igual a todos os outros significa travar a batalha mais difícil que um ser humano pode enfrentar - e jamais deixar de lutar."
Algumas frases são apenas bonitas. Outras explicam uma vida inteira.
Esta, para mim, pertence à segunda categoria, e acabou por me tirar um peso enorme das costas - a culpa que carreguei e me paralisou até pouco tempo atrás, quando finalmente aceitei assumir os sacrifícios que eu nem imaginava que seriam tão dolorosos e inevitáveis apenas para ser eu mesma, e viver a vida que me pertence, ao invés da vida que esperam que eu siga.
Durante muitos anos, minha vida foi uma sucessão de conflitos que perturbaram minha mente e meu coração de forma devastadora. Eu não compreendia por que parecia tão difícil existir em um mundo onde tantas pessoas pareciam se encaixar naturalmente, ao mesmo tempo que não conseguia por nada no mundo abandonar minha essência e me tornar alguém que conduzisse a vida de forma tão errada aos meus olhos que fosse violentar tanto essa essência - como passei décadas assistindo as pessoas ao meu redor de fato conduzir - e de fato me violentar existencialmente.
Me sinto diferente desde muito cedo. Minha maneira de pensar, sentir, enxergar as pessoas, questionar injustiças, buscar significado e valorizar a verdade frequentemente me colou em rota de colisão com quase todos ao meu redor, me levando a assumir culpas que não eram minhas, ser punida pelo que não fiz, e até mesmo crescer na certeza de que eu era um monstro - apenas por ser quem sou. Por não entrar dentro da "caixinha" moldada pela sociedade, que escolhe a opção mais fácil: viver na negação e fantasia pela necessidade de aceitação, pertencimento e validação. Sociedade onde, infelizmente, a maior parte das pessoas fecham os olhos, rejeitam a consciência, e por consequência desperdiçam, jogam fora suas vidas inteiras e seus propósitos no mundo, deixando o mundo sem nunca saber quem são, no vazio de nunca ter cumprido o que estiveram aqui para cumprir, tendo, no fim, que encarar a mortalidade no pavor do limbo onde não há absolutamente nada que dê sentido às suas existências.
Por muito tempo, acreditei que a batalha era contra o mundo, mas hoje entendo que a batalha mais difícil sempre aconteceu dentro de mim. Porque existe algo muito tentador em abandonar a si mesmo, algo que para a maioria é o melhor caminho - e muito mais fácil, que vem de algo que pode chegar até a um desespero para se adaptar:
Falar menos. Questionar menos. Sentir menos. Aceitar menos. Ser menos.
A recompensa parece óbvia: aprovação, pertencimento, aceitação. No meu caso, era o pertencimento, e hoje finalmente sou livre por ter aceitado abrir mão dele, por ter percebido que o seu custo seria mesmo abandonar a minha própria essência - algo pelo que lutei e sempre lutarei a vida toda, sem jamais estar disposta a abrir mão. Porque perder a si mesmo é algo que nenhuma aprovação jamais conseguiria compensar, e cheguei a literalmente preferir a morte a ser alguém que eu repudiaria.
Nos meus anos formativos, a maior batalha da não era convencer os outros de quem eu sou, nem de entender o por quê eu não me encaixava, mas sim o conflito interno tão intenso e tremendo esforço para conciliar a consciência muito precoce de que eu de fato não me encaixava, ao o desejo de continuar pertencendo ao mundo das pessoas que eu mais amei na vida. Uma luta onde eu precisava:
proteger minha essência quando tudo a meu respeito era constantemente questionado;
continuar valorizando a minha sensibilidade quando ela era tratada como defeito;
seguir defendendo meus valores quando me pressionavam tanto a abrir mão deles.
viver meu verdadeiro eu quando o mundo - melhor dizendo, as pessoas, que eu tanto amava e valorizava, condicionaram meu valor à cessão para ser outra pessoa.
E depois de décadas nessa luta, essa conciliação entre dois mundos que eu nunca quis abrir mão, se provou ser impossível e intangível - e só conseguir enxergar isso depois de 7 anos de distância.
O preço dessa luta é tão alto que faz a grande maioria das pessoas ceder, se conformar e se moldar. Porque permanecer fiel a si mesmo nem sempre significa perder estranhos - muitas vezes significa perder pessoas próximas, talvez as mais próximas de todas - talvez quem você mais ama nesse mundo, e que, lamentavelmente, nunca conseguirão te aceitar, provavelmente nem te amar verdadeiramente, sendo quem é.
Às vezes isso significa afastar-se de relacionamentos que exigem sua submissão. Às vezes significa aceitar que certas pessoas só conseguem amar versões reduzidas, domesticadas ou controláveis de você.
Durante muito tempo, todo esse conflito me torturou sem trégua. Me fez viver na dualidade do mundo em que nasci onde habitam as pessoas que eu mais amava, e o mundo que é verdadeiramente o meu mundo.
Me custou muito tempo, resistência, força, mas principalmente: me custou a saúde mental aceitar a impossibilidade de conciliar os dois mundos. Mas hoje aceito pagar o preço. Hoje enxergo que o amor ao qual eu me apeguei a vida toda me levou a incontáveis extremos, e foi necessário sentir na pele que o "amor" que eu recebia não era um sentimento simétrico nem equivalente, e principalmente enxergar - de maneira literal, devastadora e sem sombra de dúvida que até mesmo a pessoa de quem eu mais esperava amor verdadeiro valoriza e prioriza esse mundo de fantasia acima da minha própria vida. Porque sim, isso por muito pouco quase me custou a vida - duas vezes, e a segunda deixou provas que eu não podia mais ignorar.
Me provou que amor verdadeiro nunca exigiria a aniquilação da identidade de alguém, e menos ainda colocaria o mundo de falsas narrativas como uma prioridade acima da vida de quem se pensa amar.
Quem ama você apenas quando você deixa de ser quem é não está amando você. Está amando uma personagem. E foi justamente nesse processo que comecei a compreender algo fundamental: o verdadeiro amor-próprio não é um sentimento de admiração por si mesmo - é lealdade. É permanecer ao seu lado quando ninguém mais permanece. É não abandonar a si mesmo para evitar a solidão. É não negociar sua essência em troca de aceitação. É olhar para a própria vida e dizer:
"Talvez eu perca muitas coisas sendo quem sou. Mas não vou perder a mim mesma."
E esse tipo de amor não nasce da facilidade, mas da necessidade. Nasce quando a vida deixa claro que a única pessoa que estará com você do início ao fim é você mesma.
E talvez seja justamente aí que surge outra verdade que pode custar tanto para compreender: é impossível cumprir o propósito da sua vida enquanto você está tentando viver, ou de fato vivendo, a vida que os outros escreveram para você.
Grande parte das pessoas passam décadas, se não a vida toda, buscando corresponder às expectativas da família, da sociedade, da cultura ou de qualquer grupo ao qual pertençam, negligenciando até mesmo seu propósito no mundo. E pode ser difícil, mas é preciso chegar à compreensão de que propósito não é algo que encontramos procurando - é algo que se revela a cada um quando finalmente nos comprometemos a ser nós mesmos, ao invés de representar personagens. Quando deixamos cair as máscaras. Quando paramos de viver para corresponder às expectativas alheias. Quando temos coragem de conhecer e assumir quem realmente somos.
Acredito que cada ser humano possui um caminho único, uma história única, uma combinação única de dons, sensibilidades, experiências, dores e aprendizados. E nenhuma dessas coisas pode florescer enquanto estamos tentando ser uma cópia de outra pessoa. Por isso acredito que o maior risco da conformidade não seja a infelicidade, mas sim morrer sem nunca descobrir quem você teria sido.
Depois de tantos anos e tanta dor, hoje estou começando a vencer algumas batalhas, e isso não aconteceu porque o mundo tenha mudado. Aconteceu porque a vida me levou ao extremo mais grave que já vivi - a dor de enxergar uma realidade tão cruel que eu finalmente tive forças para rejeitar, e enfrentar os sacrifícios para sair dela de uma vez por todas. Porque parei de medir meu valor pelo pertencimento a uma ficção nociva e destrutiva, por mais amor que eu tenha tido pelas pessoas que a criaram e nunca sairão dela. Porque finalmente entendi que algumas vitórias só podem ser conquistadas quando aceitamos perder aquilo que nos afasta de quem somos, e que pode até nos roubar o amor pela própria vida.
Com isso tudo, hoje sei o quão profundamente recompensadora é essa luta, e que quanto mais difícil for, mais valiosa se torna cada pequena conquista - cada passo em direção à minha própria verdade traz uma paz que nenhuma aprovação externa ou laço idealizado jamais conseguiria oferecer.
Durante grande parte da minha vida, disseram que eu era difícil, intensa demais, sensível demais, questionadora demais, diferente demais. Passei anos tentando entender por que não conseguia ser como os outros. E hoje a pergunta mudou: não me pergunto mais por que sou diferente. Me pergunto o que teria acontecido comigo se eu tivesse aceitado me tornar igual aos outros - quantos sonhos eu teria perdido, quantas verdades eu teria silenciado, quantas partes de mim eu teria enterrado para ser aceita.
Penso mesmo que E. E. Cummings estivesse certo: ser você mesmo é a batalha mais difícil que um ser humano pode enfrentar. Mas não enfrentá-la pode causar algo extremamente doloroso: chegar ao fim da vida e perceber que a desperdiçou pela aprovação dos outros às custas de viver o seu verdadeiro eu.
Finalmente aceitei pagar o preço de viver a vida que me pertence e assumir sem medo quem eu realmente sou. E, pela primeira vez, esse preço parece muito menor do que o custo de continuar vivendo em uma realidade à qual nunca de fato pertenci.
"O Conselho de um Poeta aos Estudantes
Um poeta é alguém que sente e que expressa seus sentimentos por meio das palavras.
Isso pode parecer fácil.
Não é.
Muitas pessoas pensam, acreditam ou sabem que sentem - mas isso é pensar, acreditar ou saber; não sentir. E poesia é sentir - não saber, acreditar ou pensar.
Quase qualquer pessoa pode aprender a pensar, acreditar ou saber, mas nenhum ser humano pode ser ensinado a sentir. Por quê? Porque sempre que você pensa, acredita ou sabe, você é um pouco todas as outras pessoas; mas, no instante em que sente, você não é ninguém além de si mesmo.
Ser ninguém além de si mesmo em um mundo que faz o seu melhor, dia e noite, para transformá-lo em alguém igual a todos os outros significa travar a batalha mais difícil que um ser humano pode enfrentar - e jamais deixar de lutar.
Quanto a expressar, por meio das palavras, esse ninguém além de si mesmo, isso significa trabalhar um pouco mais arduamente do que qualquer pessoa que não seja poeta poderia imaginar. Por quê? Porque nada é tão fácil quanto usar as palavras da mesma maneira que os outros. Todos nós fazemos exatamente isso quase o tempo todo - e, sempre que fazemos, não somos poetas.
Se, ao final dos seus primeiros dez ou quinze anos de luta, trabalho e sentimento, você descobrir que escreveu um único verso de um único poema, poderá considerar-se realmente muito afortunado.
Por isso, meu conselho a todos os jovens que desejam tornar-se poetas é: façam algo fácil, como aprender a explodir o mundo - a menos que estejam não apenas dispostos, mas felizes, em sentir, trabalhar e lutar até o dia da sua morte.
Isso parece sombrio?
Não é.
É a vida mais maravilhosa que existe na Terra.
Pelo menos, é assim que eu sinto."
(E. E. Cummings)











