"Então era isso o que se dizia sobre nós: que éramos trotskistas, fascistas, traidores, assassinos, covardes, espiões e assim por diante. Admito que não era nada agradável, especialmente quando imaginava quem eram as pessoas responsáveis por isso. Não é uma coisa prazerosa ver um menino espanhol de quinze anos sendo carregado em uma maca, com o rosto pálido e atordoado, olhando por entre os cobertores, e pensar nas pessoas finas em Londres e Paris escrevendo panfletos para provar que aquele jovem era um fascista disfarçado. Uma das características mais horríveis da guerra é que toda a propaganda bélica, todos os gritos, as mentiras e o ódio vêm invariavelmente de pessoas que não estão lutando. Os milicianos do PSUC que conheci na linha de frente e os comunistas das brigadas internacionais que encontrei de vez em quando nunca me chamaram de trotskista ou traidor; deixavam esse tipo de coisa para os jornalistas na retaguarda. As pessoas que escreviam panfletos contra nós e nos difamavam nos jornais permaneciam seguras em casa ou, na pior das hipóteses, nas redações de Valência, a centenas de quilômetros das balas e da lama. E, além das calúnias da contenda interpartidária, todas as coisas usuais de guerra, o palavreado violento, a grandiloquência, a depreciação do inimigo - tudo isso foi feito, como sempre, por pessoas que não estavam lutando e que, em muitos casos, teriam preferido correr em disparada para não lutar. Um dos efeitos mais deprimentes dessa guerra foi me ensinar que a imprensa de esquerda é tão espúria e desonesta quanto a de direita."
Homenagem à Catalunha, Apêndice 01 George Orwell













