Se perguntassem a Annelyne o que a fez deixar Campbell provavelmente teria uma lista de motivos na ponta da língua. Bastava perguntar.
Com uma carreira de sucesso no cinema foi forçada pelo tio e sua empresária a entrar de férias e relaxar, afinal o casamento de sua irmã estava próximo, teria que voltar para casa cedo ou tarde. Então dez anos depois de sua partida para Los Angeles, Anne se vê obrigada a voltar para sua cidade natal, Campbell. Um lugarzinho perdido no meio do Texas.
Rever a família e os amigos. Encarar o lugar onde cresceu e onde sente que se perdeu. Ter que lidar com o passado não era seu ponto forte, principalmente quando sua partida não foi fácil.
Embora Annelyne soubesse todos os motivos que a fez deixar Campbell, o que ela não sabia era que havia uma lista igualmente numerosa de motivos para ficar.
Era uma vez, num lugar distante, que a princesa Emília nasceu.
Minha pequena Liza era um anjo e uma princesa ao mesmo tempo. Ela tinha o coração mais puro e o olhar mais feliz que eu já havia visto em toda a minha vida. Mesmo que eu tivesse só um mês de vida quando a conheci, devo dizer que senti meu coração pular de alegria quando ela entrou no comôdo onde eu me encontrava, resgatado, junto a meus irmãos.
Minha dona havia chegado.
Liza era incrivelmente linda. Me lembro de ter me levantado calmamente e olhado pra trás e dar de cara com os cabelos loiros finos e brilhantes da menina. Nunca entendi porque os humanos a chamavam de Liza, quando seu nome era Emília. Mas humanos são estranhos então a gente releva isso.
Quando minha dona chegou, ela queria correr e pular e beijar e amar todos os meus irmãos, e eu. Ela demorou pra me ver, eu ficava num cantinho, enquanto meus irmãos se mostravam a todos os candidatos e candidatas a nos adotar. Bando de exibidos.
A loirinha era branca e extremamente magricela. Depois, vim a descobrir que era porque ela era um anjo esperando para voltar aos céus, mas eu explico isso depois. Me lembro como se fosse hoje quando ela abriu um sorriso gigantesco ao me olhar e falou:
—Mamãe, é o Pantera mamãe, meu gato mamãe! —E correu ao meu encontro para me pegar no colo. O corpo pequeno da menina de seis anos era fraco e mesmo eu sendo pequeno e leve, ela teve certa dificuldade de me abraçar. Me senti amado como nunca.
E então, humanos sendo humanos aconteceu.
—Filha... Ele é... —A mãe de Liza era estranha, hesitava muito tentando proteger a filha de seus pensamentos antepassados.—Por que você não escolhe um cinzinha? Um branco de olho azul! Imagina que lindo, filha! —Só depois eu fui entender que ela não tinha problema comigo só porque eu era preto, ela tinha problema com todos os seres pretos, especialmente outros humanos. Acho deselegante essa posição nojenta da mãe de minha dona, porém eu não posso simplesmente atacar ela todos os dias. Não que eu não faça isso, mas se eu a machucasse para valer a Liz ia ficar super brava.
Do momento que minha pequena entrou dentro daquele quarto, eu sabia que tinha alguém que me amava mais que tudo no mundo, e a humana nojenta queria me tirar da minha garotinha.
Me lembro de passar a pata pelo seu rostinho e dar um miado baixo, que fez ela dar uma risadinha e me dar um beijinho, interrompido novamente pela senhora chata...
—NÃO BEIJA ISSO LIZA, VOCÊ PODE PEGAR UMA BACTÉRIA! EU SEI LÁ! MOÇO, ME AJUDE, TIRE AQUELA CRIATURA NOJENTA DE PERTO DA MINHA FILHA! —A maluca era histérica. Senti pena da minha humana ter uma progenitora tão doida. Ela gritava pra tudo quanto é canto. Porém, o rapaz que havia resgatado a gente disse para ela se acalmar e isso e aquilo, não prestei muita atençao, eu estava brincando com minha menininha.
Naquele mesmo dia a pequena convenceu a chata a me levar pra casa. Ainda bem. Não faz bem para gatos ficarem sem seus humanos, eu posso ser frio e um tanto arrogante, afinal a minha espécie é muito superior a dos humanos, menos a dos donos, porque os donos de animais são anjos, eles não são humanos sujos e nojentos.
Vivendo na casa de Liza, percebi que ela era uma menininha diferente. Toda semana, no dia que a mãe saía para comprar ração, ela levava Liz junto para ver um médico.
Eu não sei o que um médico é.
Conforme eu crescia junto com minha amada, percebi como é ótimo ter o sua cara metade em outra espécie. Liz era como minha mãe. Mas pra falar a verdade, eu também cuidava dela, e como ela não tinha pai, e eu não tinha mãe, a gente meio que fazia o serviço um pro outro.
Me lembro que a loirinha precisou ir mais no médico depois que nós tivemos que trocar minha caixa de areia por uma maior porque eu havia crescido. Fiquei muito preocupado. Todas as vezes que Liza passava pela porta, uma grande barreira chata de madeira que me mantinha fora dos lugares onde eu queria estar, meu coração se apertava e eu ficava na cama dela, sentindo seu cheiro para tentar me acalmar.
Chegou numa época onde ela tinha que sair todos os dias para ver esse tal de médico. Até que um dia, no meio da noite, me levantei de onde eu dormia com minha princesinha e com cuidado, desci da cama e em seguida as escadas e com cuidado, ouvi a chata falando no telefone.
—Tenho que me livrar da criatura depois que Emília ser internada. —O que é internada? Criatura, sei que está falando de mim. Humanos nojentos. Prefiro mais os anjos e almas boas que me dão carinho e amor, como Liz. Conseguia ouvir a voz de outra pessoa de outro lado da linha, mas não entendia o que dizia.
Isso que nós animais entendemos todas as línguas do mundo.
—Junior, me escute, não tem mais volta. Isso dói muito mais em mim do que em você. Nunca se importou com ela. Dez anos, Junior. Faz dez anos que você não vê sua filha. Não, não fala nada. Me escuta. Ela ta morrendo Junior. Pra falar bem a verdade, ela já está morta. —A humana chata fica em silêncio e consigo ver algo que eles chamam de choro em seu rosto. Consigo sentir sua tristeza e sua preocupação. Quero ajudar ela, fazer ela se sentir bem. Porém, não sei se devo. Não acho que ela goste de animais. —Escuta aqui seu preto imundo, se algum dia eu liberei meu corpo pra você, foi um erro. Uma mentira. Um engano. A única coisa boa que isso me trouxe foi minha menina e agora a porra dessa doença, que ela deve ter por esse DNA imundo seu, vai tirar ela de mim. Ela tem 13 anos, Junior. 13. E ela vai morrer. Assim, de graça. Desde que ela nasceu eu vivo para essa maldita doença pra você querer que ela passe os últimos dias de vida nesse quilombo imundo que você chama de lar? —Odeio quando a chata fala assim.
Com assim eu quero dizer cuspindo e com raiva, isso é extremamente irritante. Tratando nós pretos como inferiores. Vi ela fazer isso várias vezes, especialmente com a espécie dela. Alguém deveria ensinar pra ela que cores são o que fazem a vida bonita. Se fosse pra tudo ser de uma cor só as coisas não teriam graça. Liz ama cores. É uma pena que a mãe dela não veja assim.
Depois de mais um tempo, Liz parecia melhorar. Queria ir pra faculdade, namorar, casar. Ela era especial, ninguém conseguia negar. Ela se focava tanto e se esforçava tanto.
"Pra nada" Conseguia ouvir a voz de sua mãe ecoar na minha mente. Humana nojenta. Nunca entendeu Liz.
Quando meu anjo fez 15 anos, a humana maior fez uma festa. Uma grande festa. E me trancou no quarto de hóspedes. Cruel, sim. Porém, eventualmente a minha fofa descobriu e veio atrás, engatando uma briga com a mãe por não me respeitar da maneira como devia. Me lembro disso com uma clareza sem igual. Ver ela toda crescida, batendo boca com a mãe a meu favor, me fez sentir bem. Cruel, porém a verdade. Eu me senti bem ao ver ela brigando por mim.
Nessa festa, conheci Amélia. Filha da prima da irmã de uma moça que a humana maior conheceu no salão e que conheceu minha Liz pela internet, a única coisa que ligava ela ao mundo exterior. Essa menina era diferente, tinha olhos verdes, pontos escuros e opacos marrons avermelhados na pele extremamente branca e mesmo assim com vida e cabelos que me lembravam o vestido que minha dona usou no aniversário. Eu não sabia o nome daquela cor, mas era sem igual, era forte, intensa e demonstrava força como nunca jamais uma cor demonstrou. Rebeldia e raiva faziam parte do pote e eu conseguia sentir como a energia da cor afetou minha anja para ela brigar com a mãe.
Se bem que se eu fosse ela eu também já estaria de saco cheio aquela altura do campeonato, afinal eu mesmo estava de saco cheio desde que conheci a maldita.
Essa amiga da minha humana começou a frequentar muito a minha casa, e um dia eu vi elas se aproximando e encostando suas carnes rosas do rosto uma com a da outra. O cabelo fino da Emília estava começando a cair mais por causa de um tratamento novo e eu entendi que com aquele movimento seguido de um abraço, coisa que a Liz fazia o tempo todo comigo, era uma ação de apoio.
—Vai ficar tudo bem, eu amo você, se acalma, vai ficar tudo bem! —A voz controlada e firme da moça de cabelos intensos enquanto tentava acalmar minha humana me fez sentir bem também. Finalmente ela tinha alguém que se importava com ela de verdade, como eu.
Inclusive ela, a amiga de Liz, era um ótimo ser. Um anjo também, resgatava gatinhos e os direcionava para seus humanos.
O tempo passou e eu via as duas ficando cada vez mais íntimas, entendi que elas eram um casal depois de um bom tempo. Eu sou meio lerdo e elas não faziam coisas de casal dentro da casa, eu não tinha como saber. Até que minha dona recebeu o número e decidiu abrir o jogo com a velha que não gostava de seres pretos.
Contou que namorava com aquela menina.
A gritaria, o choro, ela apanhando, ela revidando, eu atacando a velha, tentando defender minha menina, ela me segurando, tentando me defender de apanhar, nós dois tentando salvar um ao outro.
Como Amélia diz, um inferno.
Se a viver naquela casa já era ruim, quando minha humana achou o amor as coisas pioraram. Aparentemente ela também não gosta de humanos que encontram o amor em outros humanos.
Imagino se Amélia fosse preta, daí sim a velha chata matava a minha Liz com toda certeza.
Descobri que ela era algo chamado "homofóbica, racista, nojenta e uma vergonha" nas palavras que minha dona gritou para a mãe num dia quente de verão. Eu sei o que nojento é, ração mole é algo nojento e eu sei o que é vergonha, pisar no chão com a pata suja me faz sentir vergonha. O resto, acredito que seja ligado ao fato dela não gostar de pretos e amor. Algo assim.
Até que o dia chegou. Trinta e um de maio de dois mil e quatro chegou. Minha lindinha ia ir pro hospital pra provavelmente não voltar mais.
A humana velha comprou uma caixa cinza, onde eu deveria entrar, para me levar ao hospital. O que quer que seja que um hospital. Ela viveu tanto e tão bem.
Me lembro dos últimos diálogos dela com Amélia, dizendo o quanto a amava e o quanto os anos que viveram juntas foram importantes para ela. Me lembro dos últimos diálogos que ela teve com a mãe. Me lembro dos últimos diálogos que ela teve até com si mesma.
Porque eu estava lá, o ser que ela mais amava no universo, estava lá. Eu era mais que seu gato e mais que seu filho, eu era sua alma companheira na estrada fria e suja da vida terrena. Eu era o guia dela por entre os pensamentos da mãe e a força que ela teve para encarar a mulher não uma, não duas, mas diversas vezes, sempre mostrando quem era com força. Na imensidão de seus olhos da cor da ração e na cor pálida de seu couro sem pelos, eu via minha versão humana, eu via minha versão feminina, eu via eu mesmo, em essência.
Quando ela partiu eu fiquei mal, muito mal. Era aniversário dela. 17 anos. Jovem e carinhosa, ela sempre se provava. Confesso que não imaginei que ela ia viver tanto. No dia de sua partida, eu consegui sentir ela leve. Consegui sentir o encostar da carne rosada dela e de Amélia. Consegui sentir sua última refeição e seu choro no colo da mãe.
—Eu não quero morrer! Eu mudei de ideia! Eu não quero morrer! Mãe, por favor, não me deixe morrer! —Seus gritos desesperados abafados pelo abraço apertado e preocupado da mãe me cortavam a alma. Eu queria miar e avisar a todos que ela estava certa, que iria partir. Ninguém acreditou nela. Diziam "Não diga isso, você vai melhorar". Ela não ia melhorar, não nessa dimensão.
A mãe dela havia saído para ir ao banheiro. Amélia tinha sido convencida pela velha a ir para casa descansar e os médicos, bem, ninguém sabe. Era apenas eu e ela.
Estávamos de conchinha quando aconteceu. Senti ela ir ficando leve e quando me dei conta eu estava miando desesperado e tentando arranhar e morder e fazer um show gigantesco. "Eu quero ela de volta! Eu quero ela de volta! Eu quero ela de volta!" Me lembro de pensar. Uma enfermeira ouviu meu berreiro e veio ao nosso encontro, tarde demais devo dizer, minha menina já havia ido. Sua expressão de paz me acalmou porém a dor de a perder me doeu muito no coração.
Hoje, fazem três dias desde que minha dona morreu e eu estou em cima de sua cova. Porque? Porque eu vou morrer também. Inclusive, já morri.
Quando Alionora é forçada a fugir da igreja onde foi criada, acaba descobrindo todos os fatores que a levaram até lá - e todas as consequências de sua chegada. Deparando-se com assustadoras injustiças cometidas por aqueles que juravam representar o poder divino na Terra, descobre que tivera sua personalidade moldada e modificada pelas mãos de religiosas durante toda sua formação por conta de uma antiga profecia. Agora, deixa para trás o solo sagrado para encontrar a verdade: sobre sua família, sua nação e sua própria mente.
the golden tragedy é um romance steampunk em desenvolvimento. apoia minha arte barroca & conceitual clicando aqui pra dar uma olhada no primeiro capítulo e aqui para conferir o blog dedicado ao desenvolvimento dessa história!
Bom dia gente! Madrugando (são sete horas, ainda tá escuro aqui) pra postar esse capítulo que eu adoro! Finalmente vocês vão conhecer um dos personagens mais importantes dessa história. Mandem asks me dizendo o que vocês acharam <333
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CAPÍTULO 3
Cravei as unhas na borda do parapeito do terraço, fechando os olhos com força e tentando me lembrar de como havia subido ali. Na pior das hipóteses, havia escalado os cinco andares do prédio, mas isso me parece improvável. Não acho que tenha entrado por uma porta.
A chuva havia dado lugar a um vento frio que me deixava sem ar.
Olhei para baixo e busquei, no piso distante, os saltos pretos envernizados da mamãe. Eu tinha certeza de que eles haviam caído ali em algum lugar, mas vi apenas um segurança fazendo a ronda de modo distraído. Ele nunca olhava para cima.
De repente, saindo do meu transe em um susto, uma figura alta parou a pouco mais de um metro à minha frente. Levei a mão ao peito, o coração subitamente disparado. Quando recuperei o equilíbrio, ergui o rosto para a pessoa que quase me fez cair do precipício. Ele me olhou como se eu fosse louca por ter me assustado tanto e, levantando os braços em forma de rendição para que eu visse que em suas mãos não havia arma mais letal que um cigarro apagado, se sentou na borda.
Simples assim. Acendeu o cigarro com um isqueiro e ficou sentado, ignorando a minha existência.
Isso não está acontecendo, disse a mim mesma. Eu não estou em um telhado com um estranho.
Com uma rajada de vento frio carregando o cheiro da chuva, meu cabelo cobriu o meu rosto e me inclinei em direção à queda.
“Vai acabar se matando.”
O garoto disse, e me assustei mais uma vez. Respirando pesadamente, olhei para ele de relance, chocada com sua hipocrisia descarada. Quero dizer, eu estava na beirada do telhado de um hospital psiquiátrico de cinco andares. Ele, estava na beirada do telhado de um hospital psiquiátrico de cinco andares, inalando milhares de substâncias tóxicas e entupindo os pulmões de nicotina.
"Você também.”
Retruquei secamente, de forma que ele olhou com um meio sorriso para o cigarro.
“Acho que tanto faz, não é?”
Não entendi a frase, então apenas dei de ombros.
De repente, o ruído do tecido de suas calças jeans contra o cascalho me chamou a atenção e percebi, horrorizada, que o garoto se arrastava tranquilamente em minha direção, o corpo oscilando na beira do precipício.
“Você é louco?” Eu perguntei, a voz aguda.
“Possivelmente. E você?”
“Nós estamos literalmente sentados em um lugar para loucos, não estamos?”
"Hum, isso é meio pejorativo.” Ele assopra um monte de fumaça. “Se está falando do quinto andar, é a clínica psiquiátrica do Hospital St. Lawrence, não um manicômio ou coisa assim.”
“Que diferença faz o nome dessa merda?” Murmurei, me afastando alguns centímetros de seu corpo.
“Olhe a boca, mocinha.” Ele replicou, o tom acusador.
“Então, você fuma, mas não fala palavrões?”
“Então, você fala palavrões, mas não fuma?”
Tomei em meus dedos uma mecha de cabelo pousada em meu ombro esquerdo e a enrolei em meu indicador, fitando as pontas duplas esbranquiçadas.
“Gosto dos meus pulmões.” Afirmei, por fim. “Muito embora meu fígado provavelmente esteja tão inchado e fibroso nesse momento que os estejam esmagando contra as costelas, cheio de gordura e esteatose.”
Suas sobrancelhas se ergueram, como se o desconhecido estivesse mesmo surpreso.
“É mesmo? Você parece uma garota defensora da abstinência.” Dei de ombros, mais uma vez, encarando os meus dedos dos pés. “Então, você fica chapada e foge para um hospital psiquiátrico?”
Encarei o rosto divertido do garoto.
“Não estou chapada. Eu nunca fico chapada.”
“Todo mundo fica.”
“Eu estou legal.”
“Você não está chapada, mas, ainda assim, está, literalmente, sentada em um hospital psiquiátrico. Você está fugindo?”
“Não estou fugindo.” Eu respondi, impaciente.
“Deixe-me adivinhar: internação voluntária?”
“Eu não preciso de atendimento psiquiátrico. Ok?” Ele riu pela primeira vez, uma risada simples daquelas que você ri quase involuntariamente.
“Certo, desculpe.”
O garoto apagou o cigarro no chão e o deixou cair no vazio abaixo, em meio aos carros que começavam a se movimentar na manhã recente e em meio aos sapatos da minha mãe que caíram em algum lugar. Fitei-o até que tocasse o asfalto e, finalmente, se camuflasse no concreto, desaparecendo de meu campo de visão.
“Você vem muito aqui?” Indaguei, a voz embargada. Ele mexe o pescoço de maneira positiva. “Por que?”
“O nascer do sol. Acontece uma vez no dia, e muita gente não vê nem uma vez na vida.”
"Me refiro à clínica psiquiátrica.” Expliquei, revirando os olhos.
“Ah, claro.” Ele sorriu de novo. Torci o nariz ao sentir o cheiro de fumaça. “Eu praticamente moro lá. E você?”
Em vez de responder, desviei os olhos, que pousaram sobre a escada de emergência externa. É claro. Agora, me lembrava de como subira por ela de maneira desengonçada. Foi quando os saltos despencaram.
Minha cabeça latejava, e a agarrei com os dedos.
Em uma época que parecia ter sido há séculos, eu havia me escorado mais de uma vez naquela escada de pintura descascada, dando uns amassos com Done, cujo pai era dono da propriedade.
E lá estava eu. E lá estava o fumante desconhecido. E lá estavam meus olhos ardendo e de novo assumindo uma coloração avermelhada tão explícita que o garoto acabou percebendo.
"Ei. Você está bem?”
Coloquei atrás da orelha alguns fios loiros rebeldes que insistiam em grudar na minha testa e me levantei, o frio fazendo com que eu me envolvesse em um auto abraço insuficiente.
“Como saio daqui?”
Dando as costas, escutei o som de seu corpo se erguendo.
“Entrou em um lugar do qual não pode sair? Eu podia ser um serial killer, sabia?”
"Eu estava chapada, lembra?”
Ele riu, a risada próxima de meu ouvido deixando um estranho gostinho de quero mais.
Ele passou em minha frente, se virando de costas e andando de ré. Ele arrastava uma das pernas como se estivesse machucada.
“Quer ir para fora ou para dentro?”
Trinquei os dentes.
“O que tem dentro?”
“Um bando de loucos.”
“E o que tem fora?”
“Um bando de loucos.”
Permiti que um curto riso sarcástico aparecesse em meus lábios ressecados.
“Faz diferença?”
Parando diante de uma porta na qual eu ainda não havia notado, ele se virou para mim com um grande sorriso inclinado para a esquerda.
“Faz toda a diferença.”
E, dizendo isso, empurrou a espessa porta de metal pintada desleixadamente de branco com certo esforço e me guiou por uma escada estreita. Mordi o lábio inferior com força, me segurando no corrimão enferrujado.
Encarei o seu cabelo de um castanho vivo e escuro, quase tocando a gola da camiseta preta, que tinha o símbolo de alguma banda na frente. Algumas partes da calça jeans estavam rasgadas, como se usasse o mesmo par há dias, mas o garoto não parecia se importar.
“Onde vai quem tenta cometer suicídio?” Perguntei em voz baixa. O garoto me encarou outra vez.
“Primeiro andar. Emergência.” Ele virou uma esquina, em direção ao lance de escadas seguinte, e eu fui atrás.
"Isso não seria um caso para a ala psiquiátrica?”
“Não imediatamente. Overdose, por exemplo. É preciso fazer uma limpeza estomacal desintoxificante ou algo assim.”
“Desintoxicante.” Corrigi.
“Tanto faz.” Ele disse e, de repente, parando de descer, começou a desenhar com o dedo no ar. “Olhe: a clínica psiquiátrica tem a Ala A e a Ala B. São duas partes separadas, com dois conjuntos de dormitórios que abrigam seções diferentes. A de reabilitação e a de psiquiatria. São interligados no mesmo andar, o quinto, porque a maioria precisa de atendimento dos dois lados. Quarto andar, UTI, salas de cirurgia, pós operatório; terceiro andar, oncologia, ortopedia, dermatologia… e por aí vai. Entendeu?”
Após algum tempo de silêncio no qual temi que o garoto fosse mesmo um serial killer, ele pulou os três últimos degraus como uma criança louca para exibir seus novos tênis pisca-pisca coloridos e se virou para mim mais uma vez, agora, a expressão totalmente fechada.
“Por favor. Se você tem drogas no seu organismo, me fale agora e eu a levo ao pronto socorro.”
“Infelizmente, estou bem.”
“Estou falando sério.”
E estava mesmo. Havia uma determinação curiosa em suas feições. O que não fazia muito sentido. Ele sequer me conhecia. Respirei fundo, minha barriga quase tocando minhas costas.
“Eu também estou.”
Empurrei-o para o lado com o ombro, tocando a maçaneta fria e empurrando a porta.
Então, pelo que parecia, a coisa era mesmo um hospital. Frio, muito embora não houve sistema de ar condicionado visíveis em lugar algum. Silencioso, muito embora um choro fraco pudesse ser ouvido em algum lugar. Levemente movimentado, muito embora eu soubesse que não eram mais que cinco horas da manhã.
“Como disse que era seu nome mesmo?” Ele questionou, batendo a porta atrás de si.
“Eu não disse.”
“Essa é a Ala A?” Questionei distraidamente, não me preocupando em olhar para ele.
“É a B.”
Continuei andando meio perdida por entre os corredores monocromáticos do local, ignorando a insistência em correr do garoto do telhado. Com um elástico prestes a arrebentar, prendi o cabelo em um alto rabo de cavalo e, olhando para o meu próprio corpo, não pude evitar um sentimento de vergonha. Meus pés descalços expunham o esmalte descascado, de cor que já não se podia mais determinar. O vestido sequer era meu, era curto demais e as lantejoulas refletiam as lâmpadas fluorescentes.
Eu sentia culpa, frio e uma dor insuportável em minhas pernas finas demais, que correram demais sobre saltos altos demais. Que eram tudo o que restou da minha mãe e foram jogados fora. Por mim. O que Caribe diria quando descobrisse?
Eu sentia como se, por ter entrado clandestinamente naquele lugar, automaticamente poderia ser diagnosticada como louca. Mas e se eu estivesse lá fora? O que eu seria?
Virei uma esquina e, finalmente, vi um elevador no fim do corredor. Passei pelas portas 112, 111, 110, 109… elas iam até o final.
Antes que as portas se fechassem, o garoto enfiou braço lá dentro. Por um momento, pensei que seu cotovelo seria esmagado, mas elas se abriram novamente.
"Vá em frente.” Disse, apontando para os botões numerados de -1 até o 5º andar. Entrei e fiquei diante da porta, esperando. “Alguém que você conhece tentou se matar?”
"Sim.”
"Como?”
"Isso não é da sua conta.” Ele franziu o cenho em resposta à minha explosão, e me senti mal. Esfreguei os olhos. “Desculpa. Você tem sido muito prestativo. As coisas aconteceram muito rápido. Eu ainda não me acostumei com a ideia.”
"Tudo bem.”
"Não está tudo bem.” Eu meio que ri, como se a minha própria desgraça chegasse a ser engraçada. E então voltei a ficar séria, colocando uma mecha de cabelo atrás da orelha. “Ele se feriu com um canivete.”
"Ele é o seu namorado?”
As portas duplas do elevador se abriram e corri para fora, não me preocupando em responder. Extasiada, pousei os olhos em um guichê onde duas mulheres faziam anotações em pranchetas de papelão e uma terceira, ruiva, tinha o rosto iluminado pela tela do computador.
O garoto sabia o que estava fazendo e alcançou o guichê antes mim. Fui atrás nas pontas dos pés, os dedos congelando no piso gelado.
Aqui embaixo era diferente. Era claramente mais movimentado, com crianças de aparência doentia no colo de pais preocupados e cadeiras de rodas sendo empurradas pelos corredores.
“Bom dia, Starla.” Ele falou, olhando para frente. Por um momento, fiquei confusa, até perceber que a frase não se dirigia a mim, mas para a garota de cabelos vermelhos.
A jovem atrás do balcão ergueu os olhos bem delineados do monitor em sua frente e franziu o cenho exageradamente, checando o relógio atrás de si.
“Você é narcótico, garoto?”
“Saberia se eu fosse.” Retrucou, como se a conhecesse há tempos. Talvez conhecesse. “Escute, precisamos achar alguém que pode estar internado na clínica.”
Ela franziu os lábios, como se previsse o final desta história.
“Eu não devia dar esse tipo de informação, sabia? Acabei de ser promovida para o pronto socorro e se me fizerem voltar para o quinto andar, vou esmagar o seu rostinho bonito.”
"Ninguém vai descobrir, Starla.” Ele se inclina no balcão, revirando os olhos. "Só olhe se as vagas nos quartos vazios foram preenchidas.”
Ela balança a cabeça, relutante, e clica em algo com o mouse.
"Bem, houve duas entradas esta noite. Uma veio em uma ambulância e o outro chegará ao meio dia. Qual é o nome?”
“Velibor.” Eu falei, esbaforida. “É o da ambulância.”
O rosto de Starla desapareceu novamente na tela do computador por segundos intermináveis antes que ela voltasse a falar.
“Caribe Velibor?”
“Isso.”
“O nome dele é ‘Caribe’?” O garoto provocou, e me limitei a lançar a ele um olhar fulminante.
“Eu preciso vê-lo.” Murmurei, em parte para mim mesma.
"Você é a irmã dele?” Ela pergunta, as sobrancelhas unidas na testa. "Australia Velibor?”
"Sou eu.”
Ela fez uma careta para a tela.
"Querida, a notícia ruim é que aqui diz que a faca atingiu o estômago do seu irmão. A boa notícia é que a cirurgia é um procedimento de rotina.”
A comida da noite passada se revira no meu estômago intacto.
"Ele está em cirurgia?”
"Ah, não. A cirurgia já terminou faz tempo. Ele vai ficar bem e, quando acordar, será transferido para um quarto no quinto andar.” Starla lança um olhar ao garoto, mas ignoro.
"Posso vê-lo?”
"Ele está se recuperando da anestesia. Mas você pode esperar bem ali.” Com o queixo, ela aponta para várias fileiras de cadeiras, todas ocupadas por gente doente. “Tente dormir um pouco, está com olheiras. Se algo acontecer, eu chamo você.”
Olhei para trás. Uma lâmpada piscou reluzindo sobre as únicas cadeiras disponíveis em uma área pouco iluminada próxima da saída do hospital; uma porta de vidro com sensores que a faziam abrir e fechar automaticamente.
Fiz que sim e me arrastei até lá, incapaz de agradecer. A espuma mal distribuída do assento se afundou sob o meu corpo quando me sentei.
Esfreguei os olhos, percebendo pela primeira vez como estava cansada. Sentimentos são estranhos. É como se eles se odiassem, um se jogando por cima do outro com violência e tentando ser sentido com mais força. Mesmo que um supere o outro por alguns minutos, você sabe que estão todos ali.
"Todas as pessoas da sua família têm nome esquisitos?”
Dirigi ao desconhecido do telhado, parado e minha frente, um olhar frustrado.
"Pensei que você tinha ido embora.” Resmungo.
"Estava pegando café” Ele me oferece um copo descartável de má qualidade. “Pegue.”
"Por quê?”
"Porque eu sei o que está sentindo. Não consegue dormir, mas também não consegue ficar acordada por conta própria. Não posso dar a você meus remédios para dormir, mas o café nesse andar é de graça.”
"Obrigada, mas eu não gosto de café.”
"Você não gosta de café? Que tipo de pessoa não gosta de café?”
"Pessoas chamadas Australia.”
"Bem, isso faz muito sentido.”
Queria que tudo acabasse logo. Me perguntei o porquê desse garoto estar ali. Ele parecia conhecer o prédio. Provavelmente estaria a visita de algum familiar. Mas as visitas eram abertas às cinco da manhã? Bem, eu estava lá. Não entrara de forma sancionada, mas ele também não.
"Você acha o meu nome muito engraçado, não acha?” Exclamo. "Qual é o seu, afinal?”
Ele pareceu querer sorrir, mas não o fez. O canto do lábio permaneceu manchado pelo sorriso jamais sorrido e, em vez disso, tirou do bolso mais um cigarro.
“Iraque.” Foi o que disse, com o cigarro aceso por entre os dentes pequenos. “Encantado.”
O garoto, agora conhecido como Iraque, fez uma reverência exagerada e se sentou ao meu lado. Encarei-o por segundos inteiros enquanto fumava tranquilamente fitando o espaço. Iraque? Todo o desdém para com o nome de Caribe para se chamar Iraque?
“Você não está falando sério.” Consegui pronunciar, sorrindo de leve, ainda que não soubesse o porquê.
“Eu não costumo mentir, Sidney.”
“É Australia.”
“Iraque.” Ele estendeu a mão, à qual fitei como uma tonta por um tempo antes de tocá-la quase sem querer. “É uma honra conhecê-la. Muito embora o primeiro-ministro australiano tenha enviado 300 soldados contra a República Iraquiana no mês passado.”
“Que tipo de nome é Iraque?”
“Que tipo de nome é Australia?” Replicou. Vendo que ele ainda segurava minha mão, cruzei os braços, desvencilhando meus dedos dos seus.
“Deve haver um motivo.” Insisti.
“Causa debet praecedere effectum.” Ele proferiu, pausadamente.
“Isso é latim.” Exclamei.
Iraque sorriu.
“Como sabe?”
Abri a boca para dizer a ele como sou apaixonada por provérbios em latim desde que aprendi a ler. No entanto, fui interrompida antes de começar.
“Você nunca aprende, não é?” Disse um homem vestido de branco, que se materializara em nossa frente e partira o cigarro de Iraque em dois pedaços congruentes, jogando ambos em uma lata de lixo. O garoto, ainda um pouco aturdido, não disse nada e o homem pareceu, com os olhos arregalados, perceber minha presença pela primeira vez. “Você está… visitando ele?”
Visitando?
“Não. A gente se esbarrou.” Gaguejei, confusa.
"Me dê os cigarros e volte para a clínica.”
Ele estava internado neste lugar? Na clínica psiquiátrica?
Oh, Deus. Ele estava internado naquele lugar.
Por que eu estava tão surpresa? Quero dizer, ele era louco, certo?
Iraque se levantou e entregou ao enfermeiro uma caixa vazia de cigarros Camel, enquanto eu olhava para ele em choque.
“Não se preocupe. Acabou, Gerard.” Ele olhou para mim uma última vez antes de se afastar e sorriu. “A gente se esbarra por aí, Australia.”
Disse, praticamente enfatizando a frase inteira. E foi embora. Gerard foi atender um telefone. E aquele sorriso foi a última coisa boa que eu vi antes que meu pai estacionasse em frente à porta de vidro, em meio à manhã cinzenta já completamente estabelecida do lado de fora.
Finalmente o Iraque apareceu! Sei que tinha muita gente ansiosa pra conhecê-lo, e aqui está uma prévia de um dos personagens mais importantes dessa história. Esperam que tenham curtido o capítulo. Mandem asks dizendo o que acharam, eu vou adorar responder tudo <3 Até semana que vem!
Se perguntassem a Annelyne o que a fez deixar Campbell provavelmente teria uma lista de motivos na ponta da língua. Bastava perguntar.
Com uma carreira de sucesso no cinema foi forçada pelo tio e sua empresária a entrar de férias e relaxar, afinal o casamento de sua irmã estava próximo, teria que voltar para casa cedo ou tarde. Então dez anos depois de sua partida para Los Angeles, Anne se vê obrigada a voltar para sua cidade natal, Campbell. Um lugarzinho perdido no meio do Texas.
Rever a família e os amigos. Encarar o lugar onde cresceu e onde sente que se perdeu. Ter que lidar com o passado não era seu ponto forte, principalmente quando sua partida não foi fácil.
Embora Annelyne soubesse todos os motivos que a fez deixar Campbell, o que ela não sabia era que havia uma lista igualmente numerosa de motivos para ficar.
Capítulo novo na área, gente! Agora a festa vai começar mesmo, Anne até tenta continuar na sua zona de lobo solitário, mas no fim se entrega na comemoração. Vem ler! https://my.w.tt/ILHrVFhY1M
Passando pra lembrar que: AMANHÃ TEM ATUALIZAÇÃO DE QOC! Já que é feriado, nada mais justo adiantar um capítulo para passar bem esse dia de folga. https://my.w.tt/fQl5AoWoGL