irenne koën, terceira na linha de sucessão da holanda. ela nunca soube o que era ser só filha. nasceu com um nome grande demais para caber na infância — gravado em vitral, rezado em coro, vigiado em silêncio. foi treinada para parecer sagrada, mas cresceu entre suspeitas. aprendeu cedo que a fé tem preço, e que os altares nem sempre estão do lado certo da história. aos doze, já escondia pecadores. aos quinze, já mentia com a mesma elegância com que bordava. aos vinte e sete, descobriu que sua fé não bastava — e que sua irmã talvez nem tivesse morrido de verdade. desde então, a mulher que todos aplaudem como santa virou sombra nas entrelinhas do reino: observa o que não deve, protege quem não pode, pergunta o que ninguém mais ousa. hoje, vive entre máscaras: a princesa exemplar e a filha que já não acredita. e enquanto todos esperam dela apenas silêncio e piedade, irenne afia e desafia com suas perguntas — porque no fim, sua fé pode ter morrido… mas sua busca, nunca.
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A fé sempre foi mais presente que o amor em sua casa. Mais exigente também.
A linhagem Koën sempre foi mais santa aos olhos dos outros do que aos seus próprios espelhos. Entre uma santa e outra, nasceram monstros. E Irenne cresceu sem saber se era bênção ou resquício de maldição. Nasceu sob os vitrais da Glória Anil, com o nome de uma santa mártir gravado na testa e uma esperança quase arrogante costurada nas roupas. Era filha da oração pública e da penitência privada, educada para se ajoelhar antes mesmo de aprender a andar. Havia uma lógica nas coisas de Deus, diziam. Uma ordem superior. E ela acreditou — com fervor. Acreditou com joelhos roxos e promessas sussurradas entre lágrimas. Acreditou como só as crianças puras acreditam: sem suspeita, sem ironia, sem se proteger. Mas nem toda fé resiste ao que se ouve atrás das portas trancadas. Nem toda prece sobrevive ao altar sujo dos interesses.
Mas Irenne era feita de olhos e perguntas. Ouvia o que não devia. Lia o que estava lacrado. Tocava mapas escondidos e criava rotas em silêncio. Desde muito cedo, entendeu que a Glória exigia muito mais dos inocentes do que dos culpados. Seus primeiros pecados foram pensamentos. Depois, vieram as ações. Ela passou a esconder livros — depois, cartas — depois, pessoas. Escondia em conventos, em mercados, em portos. Financiava redes de fuga para os chamados “vermelhos”, sempre sob um nome falso, um selo impronunciável. Um fantasma azul entre moedas carimbadas. Enquanto os irmãos se dobravam aos dogmas do pai, Irenne era a sombra que abria portas. A santa dos becos. A filha que não rezava só com palavras, mas com riscos.
Quando descobriu sobre o tráfico de pobres e vermelhos feito com conivência da própria corte, tentou denunciar. Seu pai a trancou por três meses nos andares altos do castelo — com janelas seladas e correntes douradas. Foi ali, entre livros confiscados e ecos de promessas quebradas, que ela percebeu que não bastava ser curiosa.
Talvez tenha começado ali o primeiro cisma. Afinal, até o nome que carregava era uma promessa de pureza que nunca sentiu como sua. Nomeada em homenagem à Santa da Pureza e da separação sagrada entre o sangue divino e o caos vermelho. Irenne carrega um nome ousado — do tipo reservado às herdeiras diretas do trono. Não herdaria trono, tampouco responsabilidades reais maiores que sorrir em recepções e saber como cruzar as mãos diante de um duque. Foi criada para ser silenciosa. Cordial. Útil, se possível. Invisível, se necessário. Na juventude, foi treinada para manter as aparências: bordado, política, diplomacia e fé. Tornou-se uma princesa exemplar aos olhos da população — exemplo de piedade, elegância e serenidade. Nunca buscou glória, nem fez planos além das fronteiras da própria nação. Suas maiores guerras eram travadas no altar — onde pedia, dia após dia, que os Deuses abençoassem um mundo no qual as cores não significassem extermínio.
Irenne acreditou, um dia, que o mundo era redimível. Ajoelhou-se por aqueles que a desprezavam. Intercedeu por vermelhos que jamais conheceria. Pedia paz. Pedia compreensão. Pedia que os deuses não tivessem as mesmas prioridades crueis que os homens. Mas os céus permaneceram mudos — e a corte, muito eloquente. O altar mentiu para ela. Mentiu quando disse que todos os filhos dos Deuses eram iguais. Mentiu quando santificou a guerra como cruzada. Mentiu quando a obrigou a negar o amor por um príncipe banido — e chamou isso de obediência. Mentiu quando encenou o sequestro da irmã como martírio. E no silêncio entre esses acontecimentos, sua fé foi morrendo. Primeiro em gotas. Depois em enxurradas.
Sua irmã, a mais velha, a mais brilhante, a mais doce, a herdeira do trono — foi dada como morta. Sequestrada, diziam, pelos vermelhos. Mas Irenne conhecia demais os contos de fadas para aceitar finais tão limpos. As versões oficiais soavam encenadas. As datas, inconsistentes. Os olhos do rei… vazios demais para quem deveria estar em luto. Irenne sentiu o chão ceder. Enterraram um corpo que ela não viu. Choraram uma morte que ela não acreditava. Algo dentro dela — feroz, instintivo, absurdo — ainda sussurrava que a irmã estava viva. Ela entrou em luto. Um luto desordenado, que manchava a fé e dilacerava as certezas. E, como se a dor não bastasse, veio a raiva. Raiva do povo que ela antes tentava salvar. Raiva dos vermelhos, que viraram símbolo do sequestro, da mentira e da perda. Passou a vê-los com outros olhos — não mais como vítimas, mas como ameaça.
Hoje, Irenne fala com os deuses — mas não espera resposta. Reza porque conhece o valor do gesto, não da crença. Veste azul porque sabe o que esperam dela, não porque acredita. Assiste. Espera. Investiga. E, nas margens onde a corte não olha, segue buscando respostas.
❛ ៹ — PODERES (para azuis por enquanto)
ONEIROCINESE: É uma habilidade que concede ao usuário a capacidade de invadir o sonho de uma pessoa e nele descobrir informações, conversar com sua vitima, e até mesmo andar livremente pelo sonho, podendo observar sua vitima até o momento em que ela despertar. Usuários dessa habilidade podem implantar um pensamento, vontade, desejo, angustia ou medo na mente de seu alvo, enquanto ele estiver dormindo. Além disso, o usuário é capaz de manipular a realidade do sonho de suas vitimas em uma distancia máxima de 200 metros do corpo de seu alvo. Possui também a capacidade de gerar um trauma tão grande em sua vitima ao ponto dela acordar com várias dores, medo, ansiedade e pavor dos acontecimentos ocorridos em seu sonho.
Departamento de segurança do Magisterium — Castelo de Treatan
RESTRIÇÃO ABSOLUTA – Reprodução ou vazamento deste arquivo implicará em execução sumária por crimes contra a segurança mundial. Arquivo elaborado sob autorização direta do Chefe de Segurança.
✦ INFORMAÇÕES BÁSICAS
Nome completo: Irenne Elsje Cornelia Vollenhoven Köen
Reino de origem: Holanda
Título/Posição: Princesa (inicialmente 3ª na linha sucessória, mas atualmente é a 2ª.)
Idade: 30 anos
Status atual: Solteira (informou estar noiva, mas não há confirmação oficial)
✦ PERFIL PSICOLÓGICO
A princesa Irenne apresenta um perfil complexo, marcado por inteligência emocional acentuada, sarcasmo e uma habilidade notável de adaptação social. Foi criada para obedecer, para sorrir no momento certo, para representar o reino com graça. Mas por trás da postura comedida, parece ser uma jovem que internalizou o peso das expectativas e transformou isso em uma armadura. Pode possuir traumas de rejeição (verificar sessão sobre Wilhelm da Alemanha Sul e Hakon da RANU). Sob pressão, tende ao cinismo e à resposta ácida, mas raramente colapsa. Usa charme como mecanismo de controle, preferindo o escárnio sutil à confrontação direta. Sua fraqueza emocional mais visível: não suporta sentir-se esquecível ou descartável. Alto risco de desenvolvimento de quadro dissociativo leve, caso as pressões emocionais da Althara persistam sem intervenção. Há indicadores de trauma reprimido e tendência ao isolamento emocional.
✦ Análise complementar recomendada para perfis emocionalmente instáveis.
✦ PODER REGISTRADO
Habilidade: Oneirocinese (manipulação onírica)
Irenne possui a capacidade de interferir e moldar os sonhos de indivíduos próximos a ela — sejam sonhos espontâneos ou induzidos por seu toque ou presença prolongada. Em casos de grande concentração, é capaz de mergulhar parcialmente na mente de outro indivíduo durante o estado REM, interferindo em sua paisagem onírica e influenciando memórias, medos ou desejos latentes. Ela também é capaz de projetar fragmentos de sonhos acordada, criando ilusões breves e visões efêmeras no entorno de quem deseja afetar. É capaz de "invadir" sonhos alheios de pessoas conhecidas independente da distância; já desconhecidos, precisam estar a pelo menos 20 metros de Köen.
Limitações: exige conexão emocional ou mental prévia com o alvo para que a manipulação seja profunda; interferências forçadas em mentes hostis podem provocar efeitos colaterais em Irenne, como enxaquecas, vertigem ou dissociação. Não consegue manipular mentes protegidas por encantamentos superiores ou amuletos anti-oníricos.
Nível de controle: alto — Irenne demonstra pleno domínio das manifestações mais complexas de sua habilidade, sendo capaz de ocultar rastros e influenciar alvos sem que estes percebam o artifício onírico.
✦ ESTADO EMOCIONAL OBSERVADO
Classificação atual: Hipervigilância afetiva disfarçada por sociabilidade polida.
Observa e reage constantemente ao ambiente em busca de sinais de ameaça emocional. Não confia plenamente em ninguém.
✦ PERFIL COMPORTAMENTAL EM CRISE
Irenne tende a manter a compostura até o último instante. Reage a ameaças emocionais com sarcasmo e frieza. Contudo, em situações de risco real, alterna entre dois modos:
Retirada silenciosa, preservando sua dignidade;
Confronto, especialmente se sentir que foi subestimada.
Tende a não colapsar publicamente, mas registra tudo — e retalia com memória de ferro. Se pressionada ao limite, pode se tornar surpreendentemente agressiva em defesa de si mesma.
✦ PADRÕES DE INTERAÇÃO SOCIAL
Forma alianças principalmente afetivas, mas sabe se mover com estratégia entre figuras de poder. Preza pelas relações de longa data, e possivelmente confia apenas nelas. Mantém distância de figuras excessivamente devotas, controladoras ou previsíveis. Vem apresentando rivalidade com algumas mulheres, que coincidentemente possuem relação com Hakon da RANU. Busca conexões reais, mesmo em um ambiente onde tudo é encenação. Mas teme ser usada.
✦ PERFIL POLÍTICO-RELIGIOSO
Irenne demonstra um ceticismo velado em relação ao Magisterium e à Fé Azul, apesar da forte influência familiar. Cumpre os rituais quando necessário, mas sua postura diante das autoridades religiosas é ambivalente. Tem um histórico conhecido de visitas a conventos, mas acredita-se que o motivo tenha sido mais político que devocional. Não há vínculos suspeitos com facções rebeldes identificados até o momento. No entanto, sua busca por respostas sobre a irmã falecida levanta atenção.
✦ RISCO DIPLOMÁTICO
Classificação: médio
Irenne é educada e habilidosa, mas emocionalmente imprevisível quando provocada. Sua proximidade com príncipes de outras nações, pode gerar constrangimentos diplomáticos. Se pressionada, pode revelar segredos em público. Seu orgulho é maior que seu senso de sobrevivência política.
✦ RELAÇÕES ESTRATÉGICAS
Soren Nygaard (@sonotsoren) — príncipe herdeiro da Suécia — ex-cunhado e provável noivo. Irenne possuí uma relação de rivalidade com ele, por culpá-lo da morte de Nienke e mais ainda pelo pai querer dá-la como esposa substituta para ele.
Ludowig Von Liechtenstein (@ludowiglixostein) — príncipe de Liechtenstein — amigo de infância e provável confidente.
Wilhelm von Vessel (@wlhelm) — imperador da Alemanha Sul — ex-noivo. Parece possuir uma aliança estável.
✦ INDICADORES DE AMEAÇA
"Morte da irmã"
"Noivado com Soren"
"Você não foi escolhida"
"Você é só a substituta"
Contato com vermelhos, de todas as formas.
Para uso interno da segurança em protocolos de contenção.
✦ INFORMAÇÕES SENSÍVEIS
Desconfia que o Magisterium esteja envolvido no desaparecimento ou morte da irmã mais velha. (Sigilo absoluto recomendado. Está sendo monitorada.)
✦ BOATOS
Por já ter sido rejeitada por dois noivos, é recorrente atrelarem seu nome com algum boato de incapacidade — já disseram que ela era louca, e poderia "transmitir" isso aos filhos.
Ela não foi aceita na Académie de la Gloire, mas o pai pagou para que ela estudasse lá, e recebesse a melhor educação possível.
Ela tem um amante, mas ninguém sabe quem é.
✦ OBSERVAÇÕES ADICIONAIS
— Intenção aparente na Althara: evitar o noivado com Soren e entender o paradeiro da irmã, da qual não aceita a morte.
— Excelente oratória. Diplomata nata, embora despreze o jogo.
— Potencial alto de influência social e manipulação emocional dos outros participantes.
— Recomenda-se monitoramento contínuo. Especialmente em eventos religiosos ou interações com antigos envolvimentos.
▌ASSINATURA: T.N.S. Chefe de Segurança do Castelo de Treatan
Após análise, favor encaminhar ao setor de vigilância mágica e comportamental.
this is a starter for @emannalise + "rough day today?" !!
O sol da tarde parecia decidido a dourar tudo o que tocava — incluindo a pele alva da holandesa. Irenne se esticava preguiçosamente numa espreguiçadeira de madeira clara à beira da piscina, com o biquíni azul-marinho contrastando contra a toalha branca e os óculos escuros escondendo mais do que a luz. O reality permitia essas brechas de silêncio, mas nunca por muito tempo. Sabia que a qualquer segundo alguém surgiria para preencher o espaço com conversas calculadas ou flertes mal disfarçados. Por isso, permitia-se apenas o luxo de metade de um suspiro — não mais — antes de ouvir passos. Quando a voz veio, foi como um fragmento de outro tempo. "Rough day today?" Irenne não precisou abrir os olhos para saber quem era. Reconhecia aquele timbre com mais precisão do que gostaria — como se ele fizesse parte de uma lembrança quase sagrada, ou pior: quase enterrada. Annalise, a irmã de Ludo, o melhor amigo de sua infância, a sombra nobre que desaparecera num convento com mais véus do que explicações. Durante anos, Irenne só ouvira o nome dela em orações e cochichos, como se Annalise tivesse se tornado uma figura mística da família. Mas ali estava ela, de carne, osso e pele muito mais bronzeada do que a última vez em que se viram, quando Irenne foi obrigada a acompanhar os pais numa visita cheia ao convento. Ela ergueu os óculos devagar, sem pressa. ❛ Isso foi um eufemismo ou uma bênção disfarçada? ❜ Perguntou, arqueando uma sobrancelha e mirando a figura da loira com um meio sorriso. ❛ Porque se for a segunda opção, posso garantir que já recebi mais do que a minha cota para hoje. ❜ Silêncio por um instante. Apenas o som das águas calmas e das vozes distantes. Irenne virou levemente a cabeça, abrindo espaço ao lado dela — um gesto mais simbólico do que prático, mas ainda assim um convite. Algo na presença de Annalise exigia respeito, mesmo quando ambas estavam debaixo do mesmo sol e com os ombros à mostra. Ela não sabia dizer se era o hábito antigo da reclusa ou apenas o olhar que parecia ver mais do que devia. ❛ Não esperava te ver por aqui. ❜ Acrescentou, após um gole demorado de água com hortelã, se referindo não à piscina, mas ao reality. Não parecia combinar com a imagem que criavam à volta dela.
this is a starter for @dehvsse + "You're the distraction." !!
O café da manhã era um espetáculo coreografado. Risos ensaiados, discussões leves sobre clima e diplomacia, utensílios tilintando em perfeita harmonia — como se nada ali pudesse pesar mais que um croissant. Irenne estava sentada ao lado dele. Por sorteio, diziam. Por crueldade, pensava. A presença de Hakon era um campo magnético contra o qual ela havia aprendido a se blindar: olhos sempre voltados para a frente, a postura impecável, os dedos girando lentamente a colher de chá como se aquilo pudesse ocupar todas as suas vontades. Até chegou a procurar Ludo com o olhar, mas ele estava longe demais para que pudesse a distrair daquele infortúnio. E por isso ela concentrou-se apenas em comer. Não o olhou uma vez sequer. Nem quando ele se mexeu ao seu lado com o corpo ainda marcado da caçada. Nem quando uma das câmeras tentou capturar a "coincidência" de ambos servindo frutas ao mesmo tempo. Ela não mordeu a isca. Só sorriu para ninguém, disse banalidades a quem estava do outro lado da mesa e fingiu que Hakon não existia. Mas quando a refeição terminou e os participantes começaram a deixar o salão, Irenne sentiu — antes mesmo do toque — que ele se aproximava. Foi apenas ao alcance da porta, longe o bastante dos olhos atentos, que ele segurou seu braço. A mão dele não era violenta. Era firme. Como sempre foi. O tipo de toque que dizia "você vai me ouvir". E, por um instante, ela quase permitiu. Quase quis. Mas então vieram as palavras. "You're the distraction." A frase entrou como uma lasca de vidro sob a pele. Rasa, mas impossível de ignorar. Irenne ergueu o rosto devagar, os olhos castanhos agora encontrando os dele com precisão. Ela podia ter rido. Podia ter cuspido algo ferino, como estava acostumada a fazer com homens que não sabiam o peso das próprias palavras. Mas o que escapou foi algo mais perigoso: uma mentira. ❛ Lamento estar o distraindo, alteza. ❜ Ela disse, encenando uma pequena reverência que sequer era necessária, ou mesmo apropriada, para aquela situação. ❛ Mas seu incômodo irá durar pouco, pois eu pretendo deixar o Althara em breve. Deveria me dar as felicitações. ❜ Bastou que comunicasse, para tentar remover seu braço do aperto alheio. Sabia que ele entenderia a sugestão e, por um momento, não se importava com a reação. Era mais fácil esconder-se atrás de uma ficção confortável do que confessar que ele ainda a desestruturava. Que ela ainda pensava naquela noite em que quase tudo aconteceu. Que, por um segundo, ao se sentarem lado a lado, seu corpo ainda lembrava do dele.
Ao ouvir a exclamação, se perguntou se estava diante de mais uma virgem inocente que sonhava acordada. Sempre havia a possibilidade, estando na Althara, já que algumas princesas cresciam trancadas em torres. Ele tinha um pouco de pena, não ia negar. Ainda assim, era bonita demais para que ele a deixasse falando sozinha. "Está sendo bondosa demais, mas não quero acabar com seus sonhos molhados de adolescente. Pode ser que encontre um pouco de romance, mas não é a regra" ele não costumava falar sério, e ali não falava completamente a sério, mas suas ponderações eram verdadeiras. Mesmo que passasse a maior parte do tempo fingindo estar alheio ao que acontecia, ele sabia da importância daquele evento e do que se esperava dos herdeiros de sangue azul. "Alteza você pode deixar para os meus irmãos. Na verdade, a Jiyoung prefere até ser chamada de majestade, mas ela ainda não é digna desse título. Pode me chamar só de Jihoon. Ou de amor da sua vida, vamos descobrir em breve" recostou-se na mesa em que ela estava, elevando as sobrancelhas enquanto a analisava, como se a cada segundo descobrisse um traço mais atrativo, especialmente o cruzar das pernas. Ele não sabia se devia sentar ao lado dela já que dali tinha uma visão privilegiada. "Meu desejo?" perguntou, meio distraído, focando nos olhos castanhos. "Que você estivesse me caçando"
O pêssego descansava agora sobre o pratinho de porcelana, ignorado, como se a entrada repentina de Jihoon tivesse substituído a sobremesa. Irenne ergueu uma sobrancelha com a mesma leveza com que cruzara as pernas, como quem já havia aprendido a se proteger com pequenos gestos elegantes. O canto da boca se curvou num sorriso, mas seus olhos permaneciam fixos e atentos, como se tentassem decifrá-lo — ou ao menos classificá-lo. ❛ Sonhos molhados de adolescente? ❜ Repetiu, com uma entonação quase musical, fingindo estar encantada, mas com uma pontada de desdém que qualquer bom observador reconheceria. ❛ Que poético. Imagino que seja esse o tipo de charme que distribui por aí? ❜ Ela se recostou levemente na cadeira, como se aceitasse a presença dele, mas ainda não decidisse o quanto dele deixaria se aproximar. ❛ Jihoon, então. ❜ Repetiu, como quem testa o som do nome na própria língua. ❛ Eu teria apostado que o seu medalhão estava guardado junto com um espelho e uma lista de cantadas de gosto duvidoso. ❜ O sorriso se alargou, agora sim com certa diversão genuína, como se ele tivesse conquistado ao menos uma fração da sua atenção — e talvez até da sua simpatia. Mas ao ouvir a última frase — “Que você estivesse me caçando” — ela inclinou a cabeça levemente para o lado, estudando-o com mais calma, mais silêncio. E então, respondeu sem pressa: ❛ Caçadas exigem interesse. E… bom, eu ainda estou avaliando se vale o esforço. ❜ Ela mordeu um pedacinho do pêssego, finalmente, como quem sela uma provocação com um gesto simples. Depois limpou os cantos da boca com o guardanapo de linho e acrescentou, em tom mais leve: ❛ Mas confesso que aprecio o entusiasmo. É quase… encantador. Quase. ❜
O brunch era uma ótima maneira de conhecer as pessoas; Charlie podia escutar conversas bêbadas e sussurros que escapavam altos demais por entre as vozes estridentes e animadas dos convidados. Depois de algumas garfadas do brunch para experimentar um pouco de tudo, Charlie se afastou. Ele adoraria saber mais sobre os segredos da realeza, mas ele podia fazer isso muito bem em outras ocasiões. Sem contar que preferia fazer isso quando passava despercebido e não quando tinha que fazer parte de conversas entre um grande grupo de pessoas. Enquanto ia para perto da floresta, Charlie se deparou com uma figura ali parada, e a fala dela lhe trouxe um sorriso ladino nos lábios. "Não posso ser um médico louco?" Charlie se recostou em uma das árvores ao lado da mulher. "Bom, você disse que ia adivinhar, então quem acha que sou?" Perguntou, ainda sorrindo enquanto a observava. Charlie reconhecia Irenne, da Holanda, pois estudou sobre as realezas antes mesmo de começar o trabalho. Só que nunca havia trocado nenhuma palavra com a princesa. "Colocaram meu irmão como caçador e eu como coração... estou um pouco surpreso que nos deixaram participar. Achei que esses eventos eram mais para a realeza."
O balanço ainda rangia em um ritmo suave, e ela se permitiu mais um impulso antes de responder — como se aquele embalo pudesse dar tempo suficiente para decidir se valia a pena ser sincera com um estranho. ❛ “Médico louco”... soa como uma categoria especial de perigo. ❜ Murmurou, como se refletisse em voz alta. ❛ Mas me parece mais plausível que o senhor seja o psicólogo. O tipo de pessoa que analisa tudo, mas sorri como se não soubesse nada. ❜ Ela arqueou uma sobrancelha, virando-se um pouco mais para encará-lo — os olhos escuros mais inquisitivos do que acusatórios. ❛ Diga-me, senhor Callahan... é isso que está fazendo agora? Me analisando? ❜ Ela não esperava realmente uma resposta. Mas, naquele momento, achou justo devolver uma pergunta por outra. O gesto dele — recostar-se na árvore ao lado, não insistir em aproximações forçadas — despertava um tipo de curiosidade que não costumava alimentar com frequência. Ainda assim, ela riu com leveza, sem humor real, ao ouvi-lo mencionar o irmão. ❛ Ah, sim. A velha dinâmica dos gêmeos — um para a guerra, outro para o divã. Clássico. ❜ O tom era brincalhão, mas não havia crueldade. Era só cansaço disfarçado de sarcasmo. ❛ Eu acredito que os tenham convidado pelas fofocas. O Magisterium gosta de ver quem são os dignos. Com todo o respeito, senhor Callahan, mas algumas nações deserdariam herdeiras que aceitem o flerte de plebe. ❜ Ela fitou por um momento o chão sob seus pés, onde folhas secas começavam a se acumular, e então ergueu o olhar para ele de novo, sem sorrir dessa vez — apenas com uma franqueza cansada. Havia algo curioso em estar ali, conversando com um desconhecido que carregava o título de "coração", como ela. ❛ Heresia, eles dizem. ❜
Uma corrente elétrica pareceu correr por todo corpo, fazendo-o ficar em alerta. Seus objetivos para aquele dia eram simples, ainda que difíceis. Conversar, sorrir, analisar. Encontrar possíveis pontos para uma suposta e única lista. Pensar em quais delas poderiam, enfim, carregar e dividir o fardo consigo- mesmo que isto durasse por pouco tempo, ele completava, admitindo em pensamento. Porém, ali, estático, Wilhelm não pensou na possibilidade de um reencontro com aquela que poderia ter sido sua esposa. O contrato de casamento, armado três anos antes, era satisfatório politicamente descrito. Duas nações se uniriam, as rebeliões hipoteticamente diminuíriam e ele, finalmente em paz, poderia reinar. Mas ainda assim, havia o perigo e a presumível morte que demorava a chegar. Que tipo de vida daria a alguém enquanto estivesse com medo? Flashs daquele ano correram pela mente e por alguns breves instantes, ele lembrou do desespero, quando em surto, rasgou o contrato de casamento, gritando com os conselheiros e com outros nobres que apoiavam a união. Lembrou-se também do choro entalado que nunca aconteceu e das lágrimas que nunca vieram. De sentir medo em sua forma mais primitiva. Da necessidade de correr sem um destino, fugindo de um mundo que não o satisfazia. Irenne era o retrato daquele episódio, que agora, considerava vergonhoso. Para remediar a situação, algumas flores e um cartão escrito com a própria caligrafia pedindo de forma simplória desculpas foram enviados uma semana depois. Wilhelm também lembrava em como se sentiu depois. Derrota. Derrotado por ter fraquejado e não ter seguido em frente, correndo contra daquilo que poderia ajudá-lo de alguma forma, deixando que a imagem da morte que mudava o lugar, a hora e sua forma, mas nunca a finalidade, ganhasse mais uma vez. Antes que voltasse a realidade, suspirou alto, deixando que os ombros se recolhessem um pouco para frente. As íris azuis focaram-se nos castanhos dela e na tentativa de tornar aquele encontro inesperado o mais agradável possível, ele acenou com a cabeça, sentando-se onde havia sido indicado, sorrindo minímamente de canto. — Irenne. — Disse baixinho, inclinando-um pouco para frente. — É agradável vê-la novamente. — Poderia começar pedindo desculpas mais uma vez como havia acabado com algo que parecia certo. Mas, hesitou. Pela primeira vez, deixaria que ela conduzisse aquela interação. Ainda era cedo. Não buscava, ainda, inflamar os humores de ninguém. Muito menos de alguém a quem acreditar dever muito. — Também não fazia ideia que precisaria estar aqui... Mas cá estou eu. Não é algo que se consegue evitar... mesmo em uma posição com a minha. — Tentou sorrir um pouco mais, criar um arco perfeito nos lábios, mostrar o que precisava fingir, mascarar a apreensão. Porém, Wilhelm falhou miseravelmente. — As flores... — Suspirou novamente. — Espero que tenham sido de sua preferência. Eu as entregaria pessoalmente mas... — A mandíbula travou, alertando-o de que não deveria continuar. Pelo menos, não por agora. — Espero que esteja bem...
Wilhelm parecia pouco mudado. O mesmo tom polido, o mesmo gesto gentil, como se jamais tivesse aprendido a ferir ninguém. Talvez não tivesse mesmo. Talvez a dor que causou tenha sido só um efeito colateral da fuga — e não uma escolha. Irenne cruzou as pernas sob a mesa com delicadeza, apoiando a lateral do rosto sobre a mão como quem permite, por um instante, relaxar na presença de um rosto familiar. ❛ Fico feliz em vê-lo também, majestade. ❜ Disse enfim, com um sorriso leve, quase nostálgico. Por um período, a ideia de vê-lo era desconfortável. Trazia para ela a sensação de ter sido descartada. E agora, gradativamente, a presença do alemão aflorava isso novamente, tendo sido ele o primeiro a tê-la feito se sentir indesejável, mesmo quando fazia tudo certo. Mas não podia dizer que aquilo era totalmente culpa dele. Virou a xícara devagar no pires, e quando enfim voltou a falar, o tom era calmo, quase doce. ❛ Eu imaginava que, justamente pela posição que ocupa, estar aqui seja um anseio. Ao menos de seu conselho. Algo sobre encontrar a esposa mais adequada, o mais rápido possível...? ❜ Sugeriu. O pai havia noivado Nienke com o herdeiro sueco tão logo teve a oportunidade, para fortalecer acordos diplomáticos e impedir que perdesse aquele prêmio — sim, era absurdo que considerasse Nygaard como um — para o Althara. Por isso, contudo, existia certa curiosidade faiscando nas íris amendoadas da holandesa. Ela se lembrava do bilhete assinado à mão. Gentil, delicado — mas vazio. Tão educado que quase parecia escrito por um estranho. As flores eram belas. E, por meses, Irenne não conseguiu sequer entrar em um jardim sem que o estômago se encolhesse. Wilhelm não havia sido um amor. Não chegara a ser sequer um afeto verdadeiro. Mas representava tudo aquilo que ela acreditava ser capaz de cumprir: o papel de boa filha, boa esposa, boa aliada. A recusa, ainda que gentil, tocou em um ponto mais fundo: o de não ter sido suficiente nem mesmo quando se esforçava para sê-lo. ❛ As flores eram perfeitas, sim. ❜ Respondeu com simplicidade, antes de bebericar do chá. Não haviam motivos para alongar-se no assunto, principalmente quando estavam sendo observados. ❛ Eu nunca tive a chance de agradecê-lo. Muito obrigado, alteza. ❜ O sorriso curvava o canto direito de seu lábio, de forma sincera. Ela se recostou levemente na cadeira, o sorriso ainda gentil enquanto o olhava. Foi depois de ser recusada que descobriu o desejo por unir-se a alguém por amor. E não apenas por dever. ❛ Bem, posso pedir um pequeno favor? Evite essa pergunta, caso os jornalistas me mencionem? ❜ Certamente era indelicado pedir que o fizesse, mas não desejava acabar noticiada como alguém que tentava uma reaproximação. Já tinha sua cota de problemas, e não queria que Wilhelm se transformasse em mais um. ❛ Imagino que não seja vantagem para Vossa Majestade mencionar, de qualquer forma. ❜
No fim, aquela parecia mais uma tradição boba da Althara para obrigá-los à interação. O medalhão que tinha em mãos pertencia a Irina Yusupov, mas não havia sinal da princesa em parte alguma. Ótimo. Uma pista da resposta que ela lhe daria quando formulasse o pedido formal para um jantar. Duvidava muito que a mente estrategista da russa o colocasse entre seus pretendentes. Outrora, talvez, quando ele era a representação de uma nação próspera e conquistadora, mas não no cenário atual. Girou o medalhão alguma vez entre os dedos, apreensivo, protelando a inevitável humilhação. Devia ter pensado nisso antes mesmo de se inscrever na Althara, no entanto, de que outra maneira teria fácil acesso a todas as nações de uma só vez? Casais pareciam se formar em torno dele – uns mais satisfeitos com o resultado do que outros - enquanto Hakon se limitava a esperar. Estava cansado após a Caçada e desesperado por um banho. Uma camada de lodo seco ainda cobria seu uniforme, ainda que ele tivesse feito o possível para lavar o rosto e afastar a sujeira das partes mais visíveis. Quisesse ou não, ainda tinha de posar para as câmeras.
Era inevitável para o príncipe não pensar que, se tivesse honrado com seus compromissos do passado, as coisas podiam ser diferentes agora. Mesmo destituído, teria um país em que se apoiar, Contudo, não era apenas pela parte racional que fazia tal cogitação. Irenne não se limitava, em seu imaginário, aos números de um exército e um território seguro em que ele pudesse se abrigar. Ele havia chegado perto demais da consumação daquela união, reservando para ela o anel de noivado da mãe – ou de quem ele pensara se tratar da mãe e que, por isso, ainda tinha algum significado. A materialização do matrimônio, todavia, havia feito com que recuasse, em especial quando Zircon exigiu mais dele, de sua presença nas fronteiras. Agora, não tinha nem Zircon nem Irenne. Pior que isso era saber que a princesa estava a poucos passos de distância, tendo acabado de receber seu medalhão de volta das mãos de Ludo, e ele sequer podia suplicar ao amigo que se afastasse dela, porque já havia pedido demais dele.
Estava para se retirar dali, sem desejo de seguir acompanhando aquela cena, quando ouviu algo que se assemelhava um gemido, com a Köen tendo se materializado ao seu lado. ' Oh, olá. ' ele cumprimentou, sem saber exatamente como reagir, já que a última interação deles não tinha acabado exatamente da melhor maneira – Irenne havia dito verdades difíceis de digerir, como se o quisesse longe. Era uma surpresa que ela estivesse indo atrás dele. Porém, o que veio na sequência foi algo que seria capaz de prever, tanto que teve de conter o impulso de rir, pois não havia se afastado de imediato quando ela regurgitou em suas botas. ' Dizem que botas de combate aguentam de tudo mesmo ' disse, escondendo o sorriso, como que para dizer que ela ficasse à vontade, franzindo o cenho depois de alguns segundos de silêncio. Ele aparentemente era incapaz de se mostrar em sua melhor forma na presença da holandesa. ' Está doente? Precisa de um médico? Vamos até a enfermaria ' se aproximou, colocando a mão no antebraço alheio para iniciar sua caminhada em direção ao local, sem esperar por resposta, ao mesmo tempo em que retirava um lenço de um dos bolsos e entregava à morena.
Era o tipo de humilhação que só a vida parecia capaz de preparar com tamanha precisão — e ela, claro, era sempre o alvo preferido das ironias do destino. Irenne continuava ali, imóvel, sentindo o próprio estômago se contorcer mesmo depois do desastre. Tinha vomitado nas botas dele. De todas as pessoas, justo ele. E não foi porque estava doente, não foi porque bebeu demais. Foi porque viu o medalhão nas mãos dele. Não estava ali por ela. O corpo dela ainda estava tremendo, mas já não sabia se era de vergonha, de nojo ou de raiva. Talvez dos três. Era como se o corpo inteiro tivesse se transformado em chumbo. Irenne sentia o gosto metálico da vergonha queimando no fundo da garganta, mais forte do que qualquer vinho ruim que já tivesse provado. Ela não conseguia nem levantar os olhos. As botas dele. Ela tinha regurgitado. Nas botas dele. Que cena. Que ironia grotesca do destino.
O lenço em sua mão parecia um insulto, mesmo sendo só algodão. E o toque no braço — aquele toque — acendeu em sua pele uma lembrança tão antiga quanto dolorida. O gesto de alguém que ela ainda associava, contra toda razão, com lar. Com um lugar seguro. O problema era que ele tinha deixado aquele lugar ruir. Com ela dentro. Respirou fundo, tentando conter o tremor do lábio inferior. Não. Não ia chorar. Não na frente dele. Não depois de tudo. ❛ Estou bem. ❜ Mentiu. A voz saiu abafada, trêmula de um jeito que odiava. Era o toque dele em seu braço. Aquela velha familiaridade de um gesto pequeno, mas que ela conhecia bem demais, que fez o coração apertar com mais força do que a náusea. Ele ainda sabia ser gentil. Ele ainda a tocava como se tivesse algum direito. ❛ Estou bem. ❜ Repetiu rápido, rápido demais, antes que ele pudesse conduzi-la por mais um metro que fosse. Não estava disposta. Mas também não queria deixar que ele cuidasse dela agora. Não depois de tudo. ❛ Só… não comi direito. ❜ Comunicou a primeira coisa que lhe veio a mente, o tom ligeiramente seco. Passou o lenço devagar pelos lábios, tentando recuperar uma dignidade que já tinha escorrido junto com o estômago. Ainda assim, não o olhou. Não queria ver pena. Nem a sobrancelha arqueada que ele fazia quando estava preocupado. Nem aqueles malditos olhos de âmbar, que já tinham sido dela. Que ela jurava que a viam.
❛ Botas de combate aguentam de tudo, claro. Só não sei se estavam preparadas pra isso. ❜ Fez um gesto vago, quase debochado. Quase. A náusea não tinha passado. Mas agora era outra — mais emocional do que física. ❛ Aposto que isso não estava nos treinamentos: Vomitado por uma ex-noiva em pleno campo de batalha. ❜ Por fim, ergueu o olhar e encontrou o dele. E mesmo que quisesse queimar de vez qualquer ponte entre eles, a voz saiu mais baixa, quase um sussurro. ❛ Alianças são estratégia, certo? ❜ Não precisava olhar para o medalhão para que ficasse claro ao que se referia. O veneno era só uma tentativa de se manter em pé. Ela cruzou os braços, como se estivesse com frio, e desviou o olhar antes que ele visse o que talvez estivesse por trás. ❛ Você acha que um bom casamento fará com que Vossa Majestade o reconheça? ❜
Andando pelos jardins, acabou por se sentar a beirada de uma das fontes, o calor fazendo com que molhasse uma das mãos na água e esfregasse na nuca para se refrescar. Nem se dando conta que de que havia outra pessoa ali antes dele ou que ela poderia estar querendo uma resposta da fonte. ❝Foi mal, estraguei seu momento?❞ Indagou, mas sem ligar muito já que o poder daria seu jeito de suavizar as coisas pra ele depois. ❝Se te serve de consolo, pelo que percebi as fontes não andam dando visões na maioria das vezes... Ouvi alguém mencionar sobre pergunta certa, mas o que configura uma pergunta certa? Acho meio sem noção, tem cara de ser coisa do Magisterium, certeza. Eles sempre parecerem ter isso de nunca serem muito óbvios ou diretos, não é algo que te incomoda?❞
Ela não o viu se aproximar — o que, por si só, já era um pequeno incômodo. Irenne costumava perceber tudo ao seu redor. Mas os jardins da Althara tinham esse dom de distrair, e ela estava ansiosa demais para ser atenta. Estava ali fazia alguns minutos, observando a superfície trêmula da fonte como quem esperava que algo surgisse — uma imagem, uma resposta, um delírio. Em vez disso, ganhou uma companhia barulhenta e um respingo involuntário. Não se moveu de imediato. Apenas piscou uma vez, devagar, e inclinou o queixo na direção dele. ❛ Estragar é uma palavra forte, alteza. ❜ Murmurou, com um canto de sorriso que não chegava aos olhos. ❛ Vamos dizer que a sua chegada… redirecionou a estética do momento. ❜ A voz dela não era exatamente ríspida, mas também não cedia espaço para muitos rodeios. Estava curiosa, e ela era péssima em esconder curiosidade. ❛ O Magisterium adora essa estética enigmática, sim. Perguntas certas, respostas veladas, tudo envolto em metáforas. ❜ Ela soltou um suspiro leve, cruzando as pernas com a graça mecânica de quem aprendeu a performar desde cedo. ❛ Mas é engraçado, não acha? Pessoas que nunca são diretas normalmente têm algo a esconder. ❜ Pela primeira vez, o olhar dela realmente o examinou — não com desconfiança, mas com aquele interesse quase felino, como se estivesse tentando entender que tipo de jogador acabara de se sentar na beira do tabuleiro. ❛ Você acredita que tem algo para descobrir aqui… ou só está se divertindo com os mistérios? ❜
O balanço pendia de uma das árvores mais antigas do bosque, com cordas tão firmes quanto as tradições que mantinham aquela caçada viva. Irenne se deixava embalar suavemente pelo balanço. O ar tinha gosto de hortelã recém-amassada e antecipação. Atrás dela, o burburinho do brunch seguia firme — risadas calculadas, copos tilintando, vozes de príncipes e princesas tentando parecer mais desinteressados do que realmente estavam. Ela não queria ouvir. Mas ouvia mesmo assim. Talvez fosse isso que mais a irritava. A incapacidade de se desligar. Mesmo ali, escondida à vista de todos, Irenne ainda estava com os olhos abertos demais para as tensões que se acumulavam no ar. Ainda interpretando cenas que nem tinham começado. Ainda esperando ser a próxima peça no tabuleiro. Suspiros não resolviam nada, mas às vezes eram necessários. Ela soltou um, curto, exato, apenas para impedir que o nó na garganta se tornasse algo mais. Era estranho estar como "coração" naquela edição da Caçada. Quase irônico. Como se o destino estivesse zombando da própria metáfora — seu coração já tinha sido caçado, enterrado e ressuscitado com mais cicatrizes do que qualquer pessoa deveria colecionar. O balanço rangeu de leve. Um aviso, talvez. Mas não tivera tempo de pensar nisso ao ouvir o som de passos se aproximando, olhando sobre o ombro para que encontrasse a figura do louro. ❛ Oh, deixe-me adivinhar: o senhor é o médico, ou o louco? ❜ Testou o gracejo, já tendo ouvido falar que havia dois dele na Althara atual.
O salão de café da manhã da Althara era amplo e ridiculamente ornamentado, o tipo de lugar onde até o silêncio tinha eco, e os talheres pareciam julgar as conversas. Ela passava manteiga em um pão com, preguiçosamente, quando ouviu. Aquela voz. Baixa, educada, com o tipo de sotaque que não estava familiarizada, mas reconhecia. Seu corpo reagiu antes da mente. A coluna se retesou. O pão foi esquecido no prato. E quando ela ergueu os olhos, lá estava ele. Wilhelm. Ainda loiro, ainda perfeitamente alinhado, ainda com o mesmo ar de alguém que tinha sido criado para parecer confiável. Eles não se viam desde o fim do noivado. Três encontros formais, talvez quatro, algumas cartas. E, claro, o buquê de flores que chegara uma semana depois do fim, como uma tentativa polida de mitigar o embaraço. O gesto fora bonito. Irenne pousou a faca devagar no prato e ergueu a sobrancelha com surpresa elegante. ❛ Imperador Wilhelm. ❜ A saudação saiu tranquila, educada, como se estivessem prestes a discutir comércio entre reinos. ❛ Não fazia ideia de que estaria presente nessa edição da Althara. É uma surpresa encontrar vossa alteza aqui. ❜ Uma vez que havia rompido com ela, a Köen acreditava que, ou ele tinha um amor, ou não estava pronto para casar-se. E encontrá-lo ali ia contra suas duas teorias, restando apenas acreditar no que temera por alguns meses: não era o suficiente para ele. Isso, contudo, não chegava a incomodá-la naquele momento. Fitou aqueles olhos azuis — que um dia ela tentara imaginar como os de seu marido, a pedido de seu pai. E finalmente gesticulou para que se sentasse. ❛ Recebi suas flores, na época. ❜ Não falava com ironia, mas sim com um toque de gratidão.
Talvez estivesse indo longe demais – não que fosse fácil raciocinar com ela ali tão próxima. Irenne era ainda um fantasma nos pensamentos de Hakon, do tipo persistente, que ele via nos momentos que mais gostaria de evitar. A própria Althara tinha evocado visões da mulher e do anel que tinha cogitado entregar a ela, porque sempre que pensava em casamento, mesmo que por breves segundos, era a princesa que vinha à mente. A ideia de que ela se casasse com outro, depois de tudo, não lhe descia. Mas não era porque ela estava ali que já tinha um noivo – ele podia estar se precipitando, vendo coisas onde nada existia. Por outro lado, se ela estava ali, era provável que, em algum momento, tivesse um noivo. Ouvir a voz dela era como revisitar o passado, quando suas únicas preocupações giravam em torno de agradá-la, ou de fazer com que Zircon ficasse orgulhoso. No fim, ele tinha considerado mais importante agradar o pai, já que tinha escolhido o Exército. Vergonha fez com que desviasse os olhos brevemente, pressionando o lábio inferior com os dentes. " Não foi o que eu disse " não era exatamente um pedido de desculpas, porque ele não iria se desculpar. Nem mesmo sentia a blusa começar a pinicar e o cheiro de vinho exalar. " Só não achei que estivesse tão desesperada por isso " desesperada não era a palavra mais adequada para lançar sobre ela, mas o veneno no tom de Irenne fez com que ele fosse atingido, e a mágoa era visível em seus olhos, porque Hak era uma pessoa bem transparente, para o próprio azar. "Alianças, não necessariamente um casamento. Deve estar a par da minha situação " retorquiu, amuado, se virando para buscar por um lavatório, já que não podia continuar naquele estado, no meio do jardim. Se alguém percebesse, os boatos não demorariam a aparecer.
❛ Esse é o seu problema, Albert. Você nunca diz nada. ❜ Dessa vez não se preocupou em esconder o ressentimento, a mágoa. Sabia que, vivendo tão próxima dele, seria inevitável que aquela conversa viesse à tona. A voz saía suave demais, quase gentil. Quase triste. Porque ela estava triste — não com ele. Com ela mesma. Com a versão que acreditou que o amor bastava. Que achou que ele voltaria, de algum jeito. Que segurou esperança como se fosse escudo. Mesmo após passar os últimos meses sem sequer uma notícia dele. ❛ Desesperada? ❜ Soltou um riso sem humor, e sentiu a mão pinicar. O desejo de dar-lhe um tapa na cara se acentuando. A palavra ecoou como uma bofetada — não pela força, mas pelo desdém. Hakon parecia ter desenvolvido um talento peculiar para magoá-la, mesmo sem perceber — ou talvez, ela cogitou, fosse o que ele quisesse. Parecia agir como se a dor dela fosse uma consequência menor de suas escolhas. ❛ A verdade é que você não sabe absolutamente nada sobre mim. Não mais. Então não ouse me resumir a um adjetivo preguiçoso só porque não gostou do que está vendo. ❜ Seus olhos, antes cansados, agora estavam atentos. Não furiosos — só tristes de um jeito que era difícil de encarar sem sentir culpa. E ela desviou o olhar por um momento, como quem se protege, antes de voltar a encará-lo. ❛ Sabe quando eu fui desesperada? Sempre que aceitei sua ausência, ou quando eu fingia que não doía ser priorizada por último, só para não tirar sua concentração em assuntos mais importantes. Tudo isso porque te amava. ❜ Deu um passo para o lado, como se decidisse que aquela conversa não merecia mais tanto do seu corpo, nem da sua presença. Mas quando foi ele quem se afastou primeiro, ela retornou. ❛ Não me dê as costas de novo. ❜ Pediu, talvez por desespero, talvez por orgulho, diminuindo irresponsavelmente a distância entre eles, para puxá-lo pelo braço, exigindo a atenção do ranudense. Ciente, contudo, de que o melhor teria sido deixá-lo partir, de novo.
O fim de tarde tingia a Ilha de Treatan com tons dourados e ocres, como se o sol estivesse tentando acalmar os corações inquietos, com promessas de um calor que já não alcançava mais tão fundo. Irenne caminhava devagar pelos jardins vazios após o brunch, os saltos afundando levemente na terra úmida. Seu medalhão já havia sido requerido, e ela não era capaz de dizer que estava desgostosa. Estava grata por ter sido Ludo. Mas parte de si esperava outro resultado. Ela sorrira durante o anúncio do Sumo Sacerdote. Rira até, porque Ludo era... Ludo. Amigo de infância, leal, gentil — e, claro, portador da promessa boba de um casamento feito entre risos infantis e pulseiras de corações magnéticos. Mas agora, longe dos olhares e das câmeras, com o silêncio da tarde crescendo ao redor, algo nela pesava mais do que gostaria de admitir. Ela havia imaginado — por anos, em segredo, em silêncio — um outro destino. Um nome que tentava esconder até de si mesma. Hakon.
Desde a juventude, desde antes de tudo desmoronar, ela acreditava que ele seria o único que amaria, e que poderia casar-se em nome daquele sentimento. E mesmo depois que ele foi embora... parte dela ainda esperava que tudo tivesse sido um erro. Que ele voltaria. Que a escolheria. Mas agora ele estava ali. De verdade. No fim do caminho de pedra, entre o dourado do pôr do sol, ela o viu. A postura ainda ereta, o perfil familiar. E nas mãos, reluzindo contra a luz baixa, um medalhão. Não o dela. Irenne parou. Todo o ar pareceu escapar dos pulmões de uma só vez, como se tivesse levado um soco. Ele tinha escolhido outra. E mais do que isso — estava segurando, com delicadeza, um símbolo que pertencia a alguém que não era ela.
Talvez ele nunca tivesse voltado para ela porque, de fato, não havia nada para onde voltar. Talvez ela só tivesse sido uma página, um capítulo que ele já tinha virado. ❛ Ah... ❜ Ela murmurou, sem nem saber para quem. O gosto ácido da bile, misturado com ansiedade subiu pela garganta de forma implacável. Ela tentou se manter firme, tentou afastar a tontura com uma respiração funda — mas tudo o que conseguiu foi vomitar direto nas botas lustradas de Hakon. Um som abafado, um respingo vergonhoso. Silêncio. A vergonha subiu mais rápido que qualquer febre. Ela nem conseguia levantar o rosto. Talvez se fingisse de morta. Talvez implodisse. Talvez fosse melhor assim. ❛ Ótimo. ❜ Murmurou, finalmente, com a voz embargada e um fio de riso nervoso. ❛ Isso definitivamente não é um sinal do universo, imagina. ❜ Ela se encolheu sobre si mesma, os olhos cerrados, o rosto rubro. Não sabia se corria ou se pedia desculpas. Não sabia sequer se queria que ele dissesse alguma coisa. Mas parte dela torcia para que ele risse. Para que fosse como antes.
O aroma suave de flores cítricas se misturava ao calor ameno da manhã, enquanto Irenne rodava distraidamente a xícara entre os dedos, apenas esperando, como foram instruídos todos os corações a fazerem. Conversas brandas ecoavam pelo jardim, e ela já sorria para alguma piada boba de um arquiduque qualquer quando um movimento, ao canto da visão, fez o mundo estreitar. Soren. Ele estava ali. A poucos passos. Tranquilo demais, elegante demais, como se nada nele pesasse — ela só se dava conta do quão azarada era, por ter escolhido participar da Althara no mesmo ano que ele, agora. O sangue gelou sob a pele clara. O sorriso permaneceu — treinado, afiado, quase convincente. Mas os olhos, ah… aqueles olhos se voltaram para ele com a frieza de um inverno sem fim. Ela ergueu a xícara de chá com leveza, como se brindasse ao acaso da manhã, e falou com doçura falsa, sem nem olhá-lo diretamente: ❛ Que curioso… pensei que arrumaria um jeito de escapar desse compromisso, príncipe. ❜ Seu tom era suave como seda, mas o veneno nas entrelinhas era impossível de ignorar. E só então ela voltou o rosto, encarando-o com uma expressão doce e impenetrável. ❛ Tem esse costume, não tem? ❜ O sorriso que veio depois era tão bonito quanto cruel.
A relva sob seus pés parecia mais macia do que antes. O silêncio era quase cerimonial. E então, o som grave e ritmado de um sino ecoou pela clareira, chamando a atenção de todos os presentes. O Sumo Sacerdote, em vestes azul-noite e ombros cobertos por fios de prata, surgiu ao centro. Ele ergueu um rolo de pergaminho selado e, com uma solenidade que fazia até o vento prender a respiração, anunciou: "O medalhão escondido por Irenne Köen foi reclamado." Uma pausa dramática. Os olhos de Irenne, arregalados, buscaram por qualquer rosto familiar na multidão. Ela quase não ousava respirar. "Foi o príncipe Ludowig von Liechtenstein quem o encontrou." O mundo parou por um segundo. Um riso desacreditado escapou por seus lábios antes que ela pudesse impedir. Irenne levou as mãos à boca, sem saber se ria ou se chorava. Ludo? De todas as possibilidades naquela floresta, ele era a última que esperava… e talvez, a única que fazia total sentido. A lembrança surgiu como uma brisa: dois pares de pés descalços correndo pelos corredores do castelo Liechtenstein, uma pulseira de metal com funções magnéticas que se completavam, a voz dele sussurrando entre risos: "Se um dia quiser fugir, eu te escondo debaixo da cama de novo. Juro que cabe." Quando Ludowig surgiu por entre a bruma, medalhão nas mãos e aquele sorriso largo que ela conhecia desde os sete anos, Irenne apenas balançou a cabeça, rindo em silêncio. ❛ Você não existe. ❜ Disse, aproximando-se dele. ❛ Mas pelo menos ainda me acha, mesmo quando eu me escondo mal. ❜
A claridade suave do jardim filtrava-se pelas folhas altas, tingindo tudo com um dourado pálido e quase onírico. O aroma de frutas frescas, pão doce e flores pairava no ar. Irenne mordiscava uma fatia de pêssego com a ponta dos dentes, distraída, o olhar perdido entre as bordas da toalha bordada e os passos dos outros corações pelo jardim. Só agora, naquele brunch — com todo o simbolismo dos medalhões, dos pares ocultos e da chance de um “encontro fora das câmeras” — a ficha parecia finalmente cair. Ela também estava ali… para encontrar um marido. ❛ Pelos sete santos... ❜ Murmurou para si mesma, como quem solta uma confissão secreta. ❛ Será que demorei demais pra perceber que esse reality é, de fato, sobre romance? ❜ Deu uma risadinha abafada, quase envergonhada, antes de erguer os olhos e dar de cara com Jihoon se aproximando da mesma mesa. Ele era bonito, claro — todos ali eram, de algum jeito. Mas o jeito dele se destacava de alguma forma, e agora ela o observava de forma quase analítica. ❛ Bom dia, alteza. ❜ Fez uma pausa curta, cruzando as pernas com leveza. E então, apontando para a cadeira ao seu lado. ❛ Soube esconder bem seu medalhão, ou não é exatamente esse o seu desejo? ❜