Eu já sabia que precisava evitar você antes mesmo de saber qualquer coisa de verdade sobre quem você era.
Bastou perceber que havia alguma coisa ali - um jeito de olhar demorado demais, uma presença inquietante, uma faísca silenciosa que acendia em mim sem pedir licença - para eu entender que manter distância era a escolha mais sensata. Você era meu vizinho. Perto demais. Possível demais. E eu, naquele momento, não podia me permitir conhecer alguém que tivesse o poder de me atravessar. Eu sabia do que sou capaz quando gosto: da intensidade, do cuidado, da entrega. Sabia também que, se você me conhecesse de verdade, se eu deixasse aparecer tudo aquilo que escondo com tanto esforço, alguma coisa irreversível aconteceria.
Então eu evitei.
Evitei os encontros casuais, as conversas longas, as oportunidades pequenas e perigosas de transformar proximidade em intimidade. Mas você insistiu. Não de um jeito invasivo, e sim decidido. Como quem reconhece alguma coisa valiosa e não quer recuar diante dela. Você fez contato, puxou assunto, criou passagem onde eu tinha erguido muro. E, sem que eu percebesse exatamente quando, o cuidado que eu tinha para não gostar de você se transformou justamente nisso: eu já gostava.
E talvez a tragédia mais bonita tenha sido essa - nós parecíamos duas pessoas que não deveriam se encontrar daquele jeito, duas vidas que, em tese, não combinavam, que não faziam sentido juntas, que talvez devessem ter permanecido apenas no campo das possibilidades nunca tocadas. Mas aconteceu. E, quando aconteceu, foi como se alguma parte do mundo finalmente tivesse deslizado para o lugar certo.
Naquela madrugada, tudo começou no beijo.
Não foi só um beijo. Foi um reconhecimento. Como se nossas bocas soubessem antes de nós o que estava prestes a acontecer. Havia uma fome calma, uma delicadeza impaciente, uma sensação absurda de familiaridade dentro de algo completamente novo. O jeito como você me olhava entre um toque e outro fazia tudo ganhar outra temperatura. Seus olhos em mim já eram uma forma de me despir. E seus carinhos tinham uma lentidão quase cruel, como se você soubesse que havia beleza em prolongar o instante antes do abismo.
O mais estranho - e talvez o mais assustador - é que nada parecia forçado. Nada parecia ensaiado. Tudo era simples, direto, quase básico, e ainda assim fazia um sentido devastador. Como podia algo tão natural ser tão avassalador? Como podia a pele responder desse jeito, o corpo se abrir desse jeito, a respiração perder o compasso desse jeito, se, em tese, era "só" sexo? Não era. Nunca foi.
Era você.
Era a maneira como suas mãos encontravam meu corpo como se já soubessem o caminho. E sentir o efeito delas em mim foi algo surreal, desses acontecimentos raros que a gente reconhece no exato instante em que vivem: isso só acontece uma vez. Havia uma eletricidade impossível em cada toque, uma mistura de desejo e ternura que me deixava sem defesa. Eu me senti vista, sentida, percorrida de um jeito que nenhum lugar e nenhuma outra pessoa jamais tinham conseguido proporcionar.
E a intimidade daquilo tudo me desmontou mais do que o desejo.
Porque não foi só intenso. Foi seguro.
Foi desconcertante perceber que eu podia me entregar tanto a alguém que eu conhecia havia tão pouco tempo. Mais desconcertante ainda foi perceber que, em vez de medo, meu corpo sentia paz. Como se perto de você eu pudesse baixar a guarda sem pagar caro por isso. Como se me desfazer em prazer na sua frente não fosse exposição, mas abrigo. Como se depois de atravessar aquela noite louca, de poucos minutos de sono e muitos excessos, o gesto mais íntimo de todos ainda fosse adormecer nos seus braços.
E eu dormi.
Dormi com aquela estranha sensação de ter ido longe demais e, ao mesmo tempo, exatamente onde eu deveria estar. Nós nos deitávamos, nos abraçávamos, nos encaixávamos de qualquer jeito, e tudo era absurdamente confortável. Isso me assustou talvez mais do que todo o resto. Porque desejo eu conhecia. Química eu conhecia. O que eu não conhecia era essa paz quente no meio do caos, essa facilidade corporal, esse silêncio sem esforço, esse conforto quase doméstico nascendo no meio de uma madrugada incendiada.
Parecia errado que algo tão recente pudesse ser tão íntimo.
Parecia errado que algo tão simples pudesse ser tão bom.
Parecia errado que o corpo entendesse tão depressa aquilo que a mente ainda não teve coragem de nomear.
Mas foi.
E talvez seja isso que mais me bagunça desde então: saber que existiu. Saber que nós existimos naquela noite de um jeito tão inteiro que agora todo o resto parece um pouco menos vivo. O gosto de você ainda ficou na minha boca como uma lembrança teimosa, dessas que se recusam a ir embora porque sabem o estrago bonito que fizeram. E eu continuo voltando àquela madrugada não só pelo desejo, mas pela transformação.
Porque alguma coisa em mim mudou quando a gente transou.
Alguma certeza antiga caiu. Algum medo perdeu a força. Alguma versão minha, mais contida, mais defensiva, ficou para trás quando eu percebi que ainda era capaz de sentir nessa escala. Que ainda era capaz de querer assim. De confiar assim. De me desorganizar assim diante de alguém.
E agora eu não sei muito bem como seguir vivendo a vida depois disso.
Não sei como voltar para os dias comuns depois de descobrir que existe uma conexão capaz de incendiar o corpo e, ao mesmo tempo, acalmar a alma. Não sei como fingir normalidade depois de experimentar uma noite que teve gosto de exceção. Só sei que houve um antes e um depois. E que, em alguma parte de mim, eu vou continuar deitada naquela madrugada, entre o seu abraço e o eco de tudo o que senti, tentando entender como alguém que eu mal conhecia conseguiu se tornar inesquecível em tão poucas horas.







