Quando eu te conheci, não queria ser mais eu. Tirei de algum lugar inseguro de dentro de mim que eu não seria levada à sério no mundo dos adultos sendo quem eu era. Eu nunca fui de seguir as regras e seu ofício é exatamente delinear por onde se deve caminhar.
Parecia certo, e eu falava isso para todos que questionavam o nosso caso.
O seu mundo todo parecia certo, enquanto o meu parecia tão torto. Eu queria sair de mim e entrar em você.
Seu mundo é feito de retas, malhas, mapas. Você anda na linha e orgulha disso. Seu corte é cirúrgico, sua análise é calculada. Você nunca precisou se esforçar de verdade para conseguir alguma coisa, então, sua comemoração é insípida. Sem grito, sem graça.
Você não sonha, não ri, não chora, não morre.
Você gosta de ser visto como frio, mas a verdade é que você só é morno, mesmo. Insosso, monótono, medíocre.
Meu mundo tem som e fúria, guerra e paz.
É feito das histórias que vivi, das que escutei, das que escrevi e das que ainda vou viver. Eu choro, eu grito, eu falo alto; eu gargalho a ponto de perder o ar. Eu tenho essa mistura de sangue e brilho nos olhos. Eu vivo da minha criatividade, busco refúgio na minha imaginação e meu fio condutor é feito de letras; redondas demais, grandes demais, vivas demais.
Nesse choque de mundos suas retas me atropelaram como um trem que passa por cima de alguém, alguém que assim como eu, cismou em andar na linha. Eu fui, pouco a pouco, dissolvendo minhas histórias, abafando meu grito, azeitando meu discurso. Perdi o brilho, congelei o sangue. Fui me anulando aos poucos. "Porque quando eu jurei teu amor eu traí a mim mesmo" eu canto hoje como lembrete do que eu fiz comigo, do que eu vivi contigo.
O problema é que uma pessoa não consegue negar a própria natureza por muito tempo. Uma hora ou outra o sapato aperta e, esse relacionamento era uma roupa que já não me servia mais.
Eu poderia ter seguido o script, me aventurando às escondidas e mantido a instituição do nosso relacionamento intacta, mas eu estava tão cansada de viver essa encenação que ateei fogo no castelo inteiro; castelo esse que só me murou, nunca me protegeu.
Eu rasguei seus mapas, quebrei suas bússolas, entortei suas retas. Me descolonizei das suas demarcações e dali eu corri pra nunca mais voltar.
Desanexada de você, comecei a navegar em mim. Fui apresentada não a quem eu era, mas quem eu poderia me tornar. O vazio deixado por você só mostrou todo o meu potencial.
Hoje eu não sigo a estrada, eu abro meu próprio caminho.