Há dias em que se permitir ser visto parece um risco calculado, como esticar a tela em juta ainda crua e confiar que o que vier depois não vai rasgar por completo. Há um tipo de encontro que não acontece só no outro, mas no reflexo que ele devolve, às vezes bonito, às vezes impreciso, às vezes honesto demais e ainda assim, algo ali te convida a ficar, como se, por um instante fosse possível existir sem tantos retoques, sem tantas camadas tentando corrigir o que nunca precisou ser corrigido, mas nem sempre a mão acerta e traço.
Tem dias em que a tinta pesa, escorre, mistura o que não deveria e falhar, consigo, com o outro, no outro, vira quase inevitável, como um esboço abandonado no canto do ateliê, não por falta de tentativa, mas por excesso de expectativa. e tudo bem, até Vincent deixou pinceladas inquietas que só depois encontraram sentido, Monet precisou olhar a mesma paisagem inúmeras vezes até entender que a luz nunca é a mesma.
Existe uma beleza estranha nisso tudo, nesse processo imperfeito de se permitir, de errar o tom, de borrar a própria tentativa. Porque no dia seguinte, quando a luz entra de novo, não é sobre apagar o que foi feito, mas reconhecer que ainda há tela, ainda há cor, ainda há mão.
E ainda nisso tudo ainda há valor.
Ainda há tela - Jorge Santéu













