crônica por William Costa
Paulo ia correndo em direção à empresa onde trabalhava, trombando pela multidão.
Se ele estava atrasado? Que absurdo! Ele corria para chegar o mais adiantado que pudesse. Como fazia todo dia.
E quer saber por que um respeitado homem de negócios estava a pé? O estacionamento do prédio ficava sempre cheio com os carros dos superiores e, acostumado, Paulo deixava o seu na primeira vaga que encontrasse, mesmo que a quadras de lá. Para então ir a pé.
Mas, nesse dia, houve uma tragédia: Paulo caiu no chão, após tropeçar num vira-lata que marcava o território na calçada.
— Filho de uma... — além de chutá-lo no tropicão, ainda xingou o coitado. Mas o tenha por escusado, provável é que estivesse apenas reproduzindo em outro cão o padrão de interação que ele mesmo recebia.
Ali no chão, Paulo observou por uns segundos as pernas que passavam sobre ele — sem pisoteá-lo, claro, embora teria sido um resumo de sua vida se pisoteassem.
Quando se levantou, não tinha mais pressa alguma. Seu amado e caro terno, de uma dessas marcas de título de filme, estava imundo, com todo tipo de coisa que se encontra numa calçada movimentada do centro, incluindo a urina do tal cachorro.
Paulo não retomou a corrida. Em vez disso, sentou-se numa beirada e se pôs a observar os transeuntes. Percebeu que a maioria se parecia com ele: ternos iguais, correndo na mesma direção e com a mesma pressa. Outros, mais jovens, de mochilas nas costas, eram iguais a ele quando novo, na metade do caminho para se tornarem o que ele era agora.
A conclusão a que chegou foi a seguinte: um Paulo igual a outros milhões, correndo sem ir a lugar algum, esperando o dia do tropeço final, e dos cachorros urinarem em suas lápides.
Paulo quis deixar tudo aquilo pra trás. Pensou em viajar o mundo — tinha condições de fazer isso.
Melhor: formar uma família e viver num lugar calmo, com poucas preocupações.
— Sim, é isso o que eu devo fazer! — falou em voz alta, erguendo o punho aos céus.
Finalmente, se levantou e saiu andando, alegre e decidido.
Chegou ao trabalho de terno limpo, cinco minutos adiantado.
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