O Que Eu Quero Deixar
Eu nunca odiei muitas coisas na minha vida, nem quando os meus pais revelaram que iriam se divorciar ou quando eu tive que mudar de escola na quinta série. O que eu sempre odiei foi o ódio. O ódio que as pessoas sentiam por mim. A única coisa que eu nunca superei foi o bullying que eu sofri aos doze anos, o abuso físico, mental e moral que eu nunca compartilhei com ninguém, nem com a minha mãe, nem com os meus amigos da época.
Eu sempre me senti triste e com raiva, desde os meus, sei lá, cinco anos. Eu não sei por que eu sentia tanta raiva e tanta tristeza. A raiva eu consegui controlar através dos anos e fui aprendendo a transferir ela para outros objetivos na vida e no mundo. A tristeza, sempre permaneceu. Eu lembro de ir em um doutor quando eu tinha lá para uns quatorze anos e ele examinava a íris dos olhos, e quando ele examinou a minha íris, ele viu muita tristeza.
Eu tenho uma memória seletiva, mas as que eu tenho viva em minha mente são reais. Algumas confusas, outras felizes, outras satisfeitas, outras tristes. O que fica comigo hoje são todos os aprendizados de tudo o que eu vivi, de toda a dor que eu senti e uma coisa que eu aprendi é que não importa o tamanho das coisas que você passa na vida, porque podemos aprender com cada pequena coisa e cada momento conta. Uma vida ainda é uma vida.
Eu não sei como sintetizar a tristeza de um homem em uma sociedade binária e sexista que diz que homens não podem chorar ou que não devem demonstrar sentimentos. Eu fui assim por muitos anos da minha vida, até o ponto que eu imaginava, deitado na minha cama, soltando uma bomba ou entrando metralhando o último lugar que eu trabalhava (eu sei que muitos sentem isso com alguns lugares que trabalham), mas isso me consumia de uma forma que eu não conseguia controlar a minha raiva mais. Eu conseguia deixar ela dentro de mim, mas com mil explosões dentro da minha cabeça e tudo o que conseguia sentir e sonhar eram coisas destrutivas. Eu não quero ser piegas nesta parte, então vamos dizer que eu superei estes sentimentos e me elevei acima de todo o ódio.
Eu quero dizer e lembrar das coisas que eu amei na minha vida. A minha mãe, o meu pai, a minha irmã, a minha prima com quem eu cresci junto. Quando você é criança é muito fácil amar as coisas e as pessoas, porque tudo é mais simples. Quando você é adulto, os sentimentos se distorcem, pequenas coisas se tornam gigantes e existe uma área cinza onde as pessoas ficam, onde você não sabe se ama ou não estas pessoas. As pessoas mentem, fofocam, dizem coisas horríveis para você, que as vezes são verdades, mas as vezes elas dizem sem pensar.
Eu não quero levar a dor desta vida. A dor que eu sinto deve ficar junto com o meu corpo. Assim como nascemos sofrendo, devemos partir deixando este sofrimento junto com o nosso corpo.
A minha vida adulta é separada entre duas fases: antes da internação psiquiátrica e a depois da internação.
Depois da internação eu sentia que o tempo estava me esperando, que o meu tempo é o que contava. Isso foi muito bom para eu poder construir uma personalidade que eu nunca tive. Eu me senti livre para ser quem eu era sem vergonha nenhuma, sem timidez. Eu pude viajar para onde eu quisesse. À noite eu colocava quem eu era no lugar e de dia eu buscava ser quem eu queria ser. Eu não tinha um objetivo claro na vida, mas ainda assim, eu era feliz.
Quando eu decidi morar sozinho, a minha cabeça não tinha mais interferência. Eu podia fazer as coisas domésticas da forma que eu quisesse e fazer as coisas no meu horário, da forma que eu quisesse, usando todo o espaço no meu apartamento, como se fosse uma extensão da minha mente. Este foi o tempo mais feliz da minha vida, tanto que quando eu me mudei de volta para a casa dos meus pais, eu queria aquilo de volta.
Escrever foi algo que eu descobri quase como tricotar ou desenhar. Eu sempre tive vontade de escrever, mas nunca tive a faísca para começar. E quando eu comecei, eu senti que eu não queria parar.
O que eu quero deixar é o amor, a esperança, a empatia, o meu coração que eu coloco na minha escrita.
“Deixe me voltar
Para quando eu era jovem
Aqui eu nasci
Aqui eu vou morrer solitário
Que haja luz
Que haja amor
Ouça os sinos
Tocando nossa canção
Acorde-me, acorde-me, acorde-me meu querido
Quando o Senhor tiver descido entre nós
Todas as preocupações que carregastes contigo
Elas se dissiparão em um quente abraço
Eternamente
Bem distante
Da terra
Onde o amor é vergonha
E vergonha é amor de uma prisão
Longe da escuridão
Dos corações feitos de gelo
Suavemente, pouse suas mãos em mim
Acorde-me, acorde-me, acorde-me meu querido
Quando o Senhor tiver descido entre nós
Todas as preocupações que carregastes contigo
Elas se dissiparão em um quente abraço
Eternamente”
— When The Lord by Susanne Sundfør















