the world is quiet here. | Alina ✖ Anthony
yourwish-notmycommand:
Existiam pessoas que entravam numa festa com um rádio imenso pendurado no ombro. Outras, em conjunto brilhante e de roupas curtas, faziam a entrada triunfal lançando olhares de flerte e ameaça. E existiam os mais memoráveis da festa. Não pelas posses que exibia ou pela falta de pano das roupas, mas pelas ações não planejadas e inevitáveis – a menos que carregasse um vira-tempo funcionante ao redor do pescoço esguio. Anthony tentava fazer a entrada menos perceptível do mundo. Encolhido, disfarçado pelas roupas escuras no escuro dos exteriores da casa. Sabe, daquela maneira que os ninjas de seu videogame pareciam aparecer no lugar que queriam. O chão tinha obstáculos invisíveis, pequenos diabinhos escondidos na terra fofa e gramada do jardim. Por favor, eu rezo para seu deus todos os dias, não me desapontem. Se Deus não podia resolver os travamentos do computador, o carinha debaixo tinha que ter algum poder, certo? Mas voltando para o interessante. Algo de natureza desconhecida agarrou seu pé. O tempo parou. O corpo resolveu se submeter ao poder avassalador da gravidade. Perdeu o ar ao atingir o chão, os óculos voando para um lado numa poça bem diluída de lama. E a entrada ninja foi por água abaixo.
Cego, procurou os óculos com as mãos desnudas. Entretanto, por forças inexplicáveis, braços o levantaram, ajeitaram suas roupas e enfiaram um óculos molhado contra o peito. Isso tudo numa trilha sonora de risadas bêbadas – e meio roucas de esportistas sob influência de esteróides. Colegas de faculdade, por assim dizer, que ficaram para trás por conta das notas (ou das festas ou do título de veteranos. Vai entender). Anthony olhou ao redor, feliz por não ter mais espectadores além daqueles idiotas. As pessoas estavam ocupadas com a própria festa e status para terem notado o garoto imberbe tropeçar e cair para o fracasso. Quando seus olhos vasculharam o andar de cima o sangue gelou. Outra pessoa tinha testemunhado a vergonha. O moreno fez a coisa mais sensata que se podia esperar de alguém de posse de intelecto rápido e inteligência bem alta na escala de QI. Correu para dentro e se escondeu num nicho obscuro.
Era covardia até certo ponto. Avestruzes e… outros animais tendiam a se esconder dos problemas na primeira possibilidade. Não que os problemas deixassem de vê-lo, isso é outra clausula desse contrato. Também não era maduro de sua parte. Todo mundo estava sujeito a um tropeção uma vez da vida. Alguns com maior probabilidade que outros. Anthony olhou para o teto, respirando profundamente, no dilema de sua vida. Subia ou não subia? Bebia ou não bebia? Qual é o sentido da vida? A manchinha loira do segundo andar estava claramente olhando para baixo. Tinha visto com certeza. Droga. O moreno pegou um copo plástico de cima da mesa e subiu as escadas. Rápido, antes que mudasse de idéia, avançou até a varanda e se expôs ao ridículo. Risadas, pode vir. Esperou por um segundo, o olhar perdido no horizonte borrado. Uma cor avermelhada espalhou pelas bochechas pálidas de susto. “Você viu isso.” Falou decidido, sem espaço para dúvidas. E se ela não tivesse visto? O mini-eu perguntou alarmado. Então, respondeu a si mesmo, você conta a história e dá umas risadas para a moça. Moça. Moça. A mancha amarronzada era uma garota, sem dúvida. Ou um garoto muito… Foi com essa indecisão que percebeu a sujeira não limpa das lentes de correção. Tirou-a do rosto e passou a esfregar na camisa, isso depois de pedir permissão para se sentar num banco próximo da garota.
“Foi friamente calculada e precisa, a queda. Passei a tarde toda ensaiando e programando. Tenho os arquivos com os bonequinhos de palito para corrobar a minha história.” Quanto mais esfregava, mais apreensivo ficava. Se ela fosse remotamente próxima de bonito, Anthony estava em sérios apuros. Dos mais graves. Sofreria de gagueira e suor descontrolados por partes do corpo que não sabia serem possíveis de suar. Quando pareciam razoavelmente limpas, o moreno encaixou os óculos nas orelhas e ajustou na ponte do nariz. Como um personagem de filme de terror pronto para ter sua cena final de morte dolorosa, ele virou o rosto em câmera lenta. “Caramba, você é bonita.” QUAL É A PRÓXIMA DO REPERTÓRIO, ANIMAL? DESCREVÊ-LA COMO A MONALISA. “Quero dizer, oi pra você, moça.” Estendeu a mão para logo recolhê-la apressado. Estava suja de terra seca. Passou no jeans surrado, limpou-a e voltou a estender. “Anthony Green. Animador de festas. Desastrado nas horas vagas.”
Não completava muito tempo desde que havia sucumbido ao apelo alcoólico e solitário que as festas costumavam ter e mesmo dali, àquela distância, conseguia escutar o burburinho das conversas embriagas e da música alta. Atrás outras alternativas para a distração (além de claro, daquela maniazinha de inventar histórias ou remoer-se quanto a fatos do passado), viu-se buscando no ambiente logo abaixo de si, algo que pudesse lhe manter realmente entretida.. não demorou muito para avistar, ao longe, uma figura -- que, peculiarmente, parecia mover-se com toda a concentração do mundo, estudando cada passo dado. Aquilo era mais que o suficiente para Alina. A atenção visual da loira permaneceu inteiramente imposta àquela personalidade, embora distante o suficiente para não conseguir deduzir mais que o fato do vulto se tratar, na realidade, de um homem; não mais velho do que todos ali.
Devidamente interessada no maneirismo do rapaz ao longe, ela pôs-se a observá-lo por mais tempo que o apropriado. Tinha essa mania. Bem, a questão é que ainda o seguia com os olhos quando aquela sucessão alarmante de acontecimentos deu-se: a queda certeira na poça de lama, a jocosidade de todos tornando-se mais evidente por conta do álcool em sua corrente sanguínea, o levantar trôpego que só aconteceu com ajuda de um daqueles brutamontes... até o momento quer em seus olhos encontraram-se e pura confusão de espectadora tornou-se presente em seu olhar, quando percebeu que o moreno (conseguira finalmente distinguir sua feição àquela altura) notara sua presença e feito isso, saiu correndo para dentro. Escondendo-se na festa. Esses acontecimentos todos, deixaram-na um tanto atordoada; não obstante para fazê-la deixar de rir daquela situação toda. A curiosidade que formava-se em seu âmago, a fez olhar no mar de gente que estavam no andar abaixo em sua procura. Quando finalmente encontrou -- aquele tufo de cabelos rebeldes e escuros próximo à mesa de bebidas --, tentou emitir algo próximo de um sorriso; mesmo que soubesse que com tantos metros os separando, jamais seria capaz de identificar o que Alina classificaria como riso tranquilizante.
Desistira, por poucos segundos, de manter qualquer contato com o rapaz e assim, logo estava prontíssima para sair dali, enfim, dando continuidade nos planos que tinha para o resto da noite. Terminava sua bebida quando escutou os primeiros passos na escada, os quais não dera real importância mesmo que se mostrassem hesitantes; sendo assim, a confirmação de que a pessoa que estava no mesmo ambiente era aquele rapaz, quando escutou sua voz em um tom acusatório que a fez rir. "E alguém não?", disse após o sonoro riso tomado de troça atenuar-se o bastante; isso, ao mesmo tempo que abria espaço no banquinho onde sentava para ele juntar-se a ela. Finalmente conseguia vê-lo: era mais alto do que pensara, além de bem mais bonito de perto, apesar de ainda estar sujo por conta da famigerada queda.
"Não duvido muito que tenha sido. Foi um bom show, no final das contas. Aposto que demorou bastante tempo ensaiando, hein?". Os olhos azuis delas voltados a ele com mais avidez que nunca enquanto, nos lábios, um sorrisinho ainda com caráter puramente divertido permanecia como resquício do riso anterior. O afago no ego que se seguiu, fez com que ela (mais do que nunca) sentisse certo apreço pela figura do rapaz e, outra vez rindo, ela assentiu; seguindo esta ação, um agradecimento modesto. Deuses, eles mal haviam conversado e lá estava ela, sendo totalmente indelicado e rindo do embaraço dele. "Olá, Anthony.", respondeu enfim. "Sou Alina. Alina Braun. Menor ilegalmente munida de cerveja e estudante entediada do ensino médio de Jefferson High em todas as horas.", completou em mesmo tom, quando apertava a mão que ele estendera à ela. “O que o trás aqui, afinal? Não me parece que esses garotos tenham condição de pagar um bom cachê a um tão dedicado animador.”














