Laura acordou tarde como de costume. Sem sair da cama, refletiu sobre a noite passada e se valeu a pena chorar até a exaustão.
Sentou na cama e se sentiu a mulher mais fraca do mundo, pois chorara por horas por motivos descabidos. Colocou os pés descalços no piso frio e foi até o espelho.
A imagem que via não a agradara: uma mulher de vinte anos com os olhos castanhos cercados por olheiras marcantes e pálpebras inchadas. Seu rosto pálido com uma aparência doentia era emoldurado por cabelos escuros que davam uma aparência obscura e um tanto sem vida.
Sem jeito devido a falta de prática, passou blush nas maçãs do rosto. Seu batom rosa claro deu vida a sua face. E com algum esforço, contornou os olhos para disfarçar os sinais uma noite mal dormida.
Caminhou até a casa de uma amiga antiga que raramente via.
Conversaram sobre coisas fúteis que geralmente não importavam Laura, mas com esforço, prestou atenção nos lamentos comumente infantis da amiga.
- Você está bem? – sua amiga questionou ao perceber que Laura estava desligada.
- Estou bem. – disse Laura, como de costume.
- Laura esta bem. Como sempre – disse a amiga com tom irônico.
Laura não costumava contar de seus problemas. Sempre achava que não eram importantes o suficiente pra serem contados e lamentados a outras pessoas.
Voltou para a casa na hora do jantar.
Como sempre, sua mãe havia feito uma comida que abre o apetite de todos somente com o cheiro que exala. Exceto Laura.
Ela não costumava sentir muita vontade de comer. Não era de propósito, somente não conseguia comer com toda a vontade que seus pais e seus dois irmãos mais novos. Muitas vezes nem sentia o gosto da comida.
Sentou a mesa e conversou com a família como nunca faziam. Raramente todos se juntavam a mesa, porque sempre acabava em discussão ou alguém chamando a atenção dos meninos e isso fez com que não sentissem mais necessidade de se unir nas horas das refeições.
Desta vez foi diferente, tudo parecia bem e calmo como jamais fora. Todos riram e contaram do seu dia. Menos Laura, que, como sempre, não falara e somente ria baixo das histórias engraçadas que seu pai contara.
Mastigava lentamente e em porções pequenas, com os olhos baixos e longe.
- Está tudo bem, La? – perguntou sua mãe, com um tom preocupado, mas de um modo que não aparentava realmente que ela queria saber.
- Sim – respondeu rápido com um sorriso forçado e desanimado que mostrava os dentes.
- Laura está bem. Tudo está bem com a Laura. Tudo está sempre perfeitamente bem para Laura – disse seu pai com um tom irônico.
Ela já havia se acostumado com as ironias das pessoas ao seu redor. Eles a conheciam, desde sempre foi assim e já haviam se acostumado a não questionar de verdade.
Laura recolheu a louça suja e começou a lavar desatenta, ate que um copo escorregou de suas mãos ensaboadas e se transformou em vários pedaços ao quicar na pia e ir direto para o chão.
Respirou fundo, desanimada e juntou os cacos com as mãos, abrindo pequenos cortes que fizeram seu sangue escorrer pelos seus dedos e pingar no chão. Sem vontade alguma e devagar, enrolou os cacos em uma folha de jornal e pôs no lixo.
Conforme a água caía sobre seus ferimentos, ela analisava e via o sangue misturado com a água escorrendo pelo ralo. Lembrou dos motivos das lágrimas da noite passada e do dia que passou hoje.
Sempre com os olhos caídos e sem ânimo, foi até o quarto arrastando os pés lentamente. Sentou na cama com os braços abraçando os joelhos e os pés juntos.
Como na noite passada, olhou na direção da janela aos pés da cama e refletiu na vida.
Lembrou novamente da noite passada. Lembrou das amigas que mesmo se esforçando, nunca conseguiam entender os problemas dela, de modo que a fizeram não falar mais. Lembrou que sempre que tentava falar um pouco da vida para as amigas ou para a família, usavam a palavra “drama” pra definir tudo o que ela estava desabafando. Com o tempo ela não tentou mais se abrir, parou de contar coisas que aconteciam na sua vida.
Lembrou dos motivos que a fizeram ser demitida do último emprego. Lembrou do ex-namorado e dos motivos que o fizeram se tornar “ex”. Lembrou dos amigos que perdeu na adolescência. Sentiu saudade dos velhos tempos em que não sentia nada. Dos tempos em que sua vida não era coberta por uma névoa de desânimo e tristeza sem motivo.
Pensou em todas as vezes que os pais foram injustos com ela e nas vezes que apanhava por algo que os irmãos mais novos fizeram. Será que seus pais realmente tentaram entender ela alguma vez?
Encarava fixamente seus cortes nas mãos, agora com o sangue seco ao redor.
Quanto tempo já havia se passado desde que foi para a cama? De minutos? Quinze?
Com muito esforço olhou para o relógio na mesa da televisão empoeirada e nunca utilizada. Haviam se passado mais de três horas.
Como sempre, ela nunca percebia o tempo passar, somente quando sentia o corpo dolorido de ficar tanto tempo sem ser movimentado.
Laura, sem motivo algum, desabou em lágrimas. Exatamente como na noite anterior.
Seu corpo cansado e dolorido não estava tão exausto quanto o seu interior. Ela estava cansada. Cansada de tudo. Da tristeza, da indiferença das pessoas, do seu quarto, da sua casa, de tudo dar errado... da sua vida.
Em um curto período de tempo, ela refletiu sobre quem iria se importar se ela sumisse. O que isso causaria nessas pessoas?
Provavelmente seriam mais felizes.
Ela estava cansada de se sentir culpada de tudo. De dar trabalho aos seus pais, de não ser uma boa filha e boa amiga, de ter perdido o único amor da sua vida, de não dar atenção aos irmãos...
Seu pranto ecoava no quarto branco, sua maquiagem escorria pelas bochechas.
Nem mesmo chorar ela conseguia fazer com vontade.
Laura estava cansada de chorar. Estava cansada de lutar por algo que não valia à pena. Por algo que só atrapalhava mais a vida dos outros ao seu redor.
Sem ver o que fazia, em um desespero desmedido, ela levantou e pegou seus remédios que foram prescritos para a doença.
A psicóloga havia dito que para dormir, bastava um comprimido.
Mas seu cansaço era tanto que um não seria o bastante pra um sono rápido. Ela sabia o que queria.
Abriu a tampa do vidro de comprimidos e ingeriu todos que tinha misturados com as lágrimas que escorriam pelo seu rosto.
Seus gritos silenciosos eram comuns, mas hoje ela não tinha força pra liberar sua dor.
Seus braços escorrendo sangue novamente faziam com que ela ficasse menos triste. Só sentia a dor dos cortes recentes.
Sua visão foi ficando turva e lenta. O cérebro já não raciocinava mais normalmente.
Gritou em silêncio. Mas pareceu não ser tão em silêncio quanto imaginara.
Sentada no chão ao lado da cama, foi assim que seus pais a encontraram ao ouvir o grito e irem ver o que estava acontecendo.
Não era culpa deles, não era culpa de mais ninguém alem da própria Laura. Ela era culpada. Ela se sentia culpada.
Ao perceber que não estava mais sozinha, sussurrou com um sorriso fraco no rosto sem cor:
Olhou, tonta, para seus pais. Seus olhos sem vida.
Um barulho ensurdecedor tampou seus ouvidos. Igual aquele som que sai da televisão quando sai de sintonia.
Laura estava feliz. Enfim estava feliz. Enfim achou a paz.