The past is creeping up my throat
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The past is creeping up my throat
A vida não é tão curta
Se pensar bem, a vida não é tão curta como dizem...
Não falta tempo — muitas vezes falta presença.
A vida não é tão curta como dizem...
Curtos são os instantes em que realmente estamos nela.
— Shandy Crispim
Saudade
Sinto falta de existir. É uma maresia incomoda no peito, que muitas vezes, na calada da noite, quando minhas praias já estão desertas e turistas presunçosos não usufruem das minhas águas, quando a maré dos pensamentos é alta e a sonolência baixa, insiste em tentar escalar as dunas do meu olhar, escorrer pelas ruas e declividades do meu rosto.
Saudade que pinica o ego, de ser além da utilidade, da função. Não mais humana, máquina, robô, só sirvo para o propósito de ser personagem secundário, figurante no filme da vida alheia. Sou colega, amiga, aluna, funcionária, filha, ouvido, saco de pancada, mapa, informação, plano de fundo. Quem eu sou? Um nada. Sou aquilo que serve ao outro, o vento que muda com as estações, com os dias. Sou desembocar de um rio no oceano, em que as águas fluviais perdem seu rumo, seu sentido, ao se deparar com a imensidão das possibilidades da linha do horizonte, se misturando e desaparecendo com a paisagem aquática do ônibus lotado pelas sardinhas do alvorecer.
Sinto saudade de ter significado além da obrigação. Vivo em eternos deveres, constantemente devendo para o próximo o que não tenho e devendo para mim o eu que um dia tive, mas que vendi por mixaria de aprovações e sorrisos rasos. Derrubei o tempo da mesa dos afazeres, tão ´pequeno, microscópico, não consegui encontrá-lo no piso do meu desespero, sempre correndo atrás de mais, alucinada, como o Coelho Branco, pés em carne viva sangrando a alma pelo asfalto implacável da luta pela sobrevivência.
A vida já se foi, perdida no País das Maravilhas, não importa quantas rosas brancas pinte de vermelho, o fogo alaranjado da minha consciência continuará me queimando e consumindo pela incapacidade de ser além de minha eficiência.
my love language is wanting to talk to you every day
Eu tô aprendendo a conviver com o medo de perder quem me construiu.
A mulher que foi casa, foi abrigo, foi voz.
A que me cuidou antes mesmo de eu saber existir.
Dói ver uma força inteira virando esquecimento.
Dói perceber que a memória falha, que os dias se embaralham,
que o tempo começa a apagar nomes — inclusive o meu.
O que mais me assusta não é a morte.
É a possibilidade de ela ir embora sem saber quem eu sou,
quando tudo em mim é prova de quem ela foi.
Se um dia ela não lembrar de mim,
eu lembro por nós duas.
Eu carrego a história, o amor, o jeito, a coragem.
Porque quem nos faz não some.
Ela vive na voz que herdamos,
no cuidado que repetimos,
e no amor que insiste em ficar
mesmo quando a memória vai.
como pode essa solidão se acomodar no meu peito na mesma velocidade avassaladora de um amor que um dia o possuiu?
me sinto tão pequena e tola. sinto que fui incapaz de proteger os meus próprios sentimentos e interesses quando mais urgia. sinto que fui atacada e só soube ficar parada. a dor de aceitar as feridas é o que mais dói.
correntemente, tudo dói.
Donato Giancola, Do Androids Dream of Electric Sheep: The Lovers (detail), 2009
morro
me vejo pensando em você
de novo
minto
te sinto
“Foi uma cena até bonita. Eu sentada no banco de um ônibus qualquer, pensando sobre a vida e segurando as lágrimas. Por que, caramba, o que eu fiz com a minha vida?”
— August 1997.
A maior obviedade que cerca a minha existência é que eu não me encaixo.
"Stop the Bombs," a 2019 artwork by Japanese artist Yoshitomo Nara
as vezes as coisas doem mais, as vezes menos
mas de certa forma estão sempre assentadas no peito
quiescentes
cruentas
friáveis
prontas pra serem reativadas
o menor toque é capaz de provocar um sangramento
(não posso curar a mim mesmo)