João Pedro encontrava na presença da morena muito mais do que se deixava partilhar. Dois polos opostos de um imã que outrora atraíram-se, hoje faziam-se mais unidos do que na época em que tentaram manter um relacionamento. Era engraçado para ele pensar, na verdade, sobre quanto tempo conhecia a garota, engraçado pensar nas tantas vezes que correram ao redor da casa de praia nas quais os pais dos dois se encontravam para passar as férias, nas frustrações poucos divididas, nos choros partilhados sem que mais explicações fossem dadas, nos primeiros beijos e nas primeiras brigas. Ela era parte da história de João e, carinhosamente, ele observava ambos agora e orgulhava-se parcialmente do quão longe haviam andado. Conhecia-a tão bem quanto a palma de sua mão e por isso mesmo muito pouco surpreendeu-se com suas palavras, meramente franzindo o cenho e deixando que o nariz se enrugasse um pouquinho na ação ao se sentar. “É claro que é, eu lá sou doido de atrasar com você sem motivo?” Ele disse, seu sorriso pequeno e discreto, particular para a morena. João normalmente era dado a extravagâncias e sorrisos amplos, mas ali, com ela, ele era ele mesmo e o sorriso pequeno e extremamente honesto fazia parte disso. Em sua distração, por óbvio, não notou o intento da outra, acabando por sujar-se no processo. Mas diante disso João apenas piscou, tentando alcançar com a língua o sorvete que lhe sujara o rosto. “Véi, você é muito vingativa, isso aí num faz bem pra saúde.” Ele decretou, usando das costas da mão pra limpar aquilo que não conseguiu antes de focar sua atenção no doce, lambendo-o. Sua maior reação diante da observação alheia, então, foi o mero enviesar das esquinas da boca, olhando pro céu estrelado. “Maldito seja o dia que te confessei meu crush, na moral. E eu num preciso te conquistar, eu já te conquistei com meu jeitinho, mas eu nem quero nada não, só te agradar um teco mesmo.” Os ombros encolheram-se, então, mas a leveza na conversa se preservava e, inegavelmente, João sentia um friozinho na barriga. Ele tinha coisa pra contar, afinal. “A gente beijou na funkásia.” Curto e grosso, com Barbie era sempre melhor não fazer rodeios.
muitas coisas mudaram do tempo que se conheceram para cá, o que se mantinha intacto durante todos os anos, porém, era o fato de que um poderia contar com o outro sempre. o ex namorado a conhecia, entendia e a aceitava do jeitinho que ela era, por si só, esses já eram motivos o suficiente para querê-lo por perto. ao perceber o amigo se sentando ao seu lado, permitiu que o corpo se virasse em noventa graus para que a morena conseguisse fitar com perfeição do perfil do rapaz. — a intimidade é uma vadia, era tão engraçado você tentando explicar os motivos de cada atraso no começo do nosso namoro. — forçou um suspiro dramático a sair pela boca, antes de deixar que o sorriso alheio lhe contagiasse, começando a se formar no canto dos lábios ao que apontava o celular para o rosto do amigo, que ainda tentava se limpar sem usar as mãos, e em poucos segundos aquele momento estava sendo compartilhado com as várias pessoas que a seguiam no snapchat. — eu sei que você vai cuidar de mim se algo acontecer, doutor. — provou, logo se aproximando para deixar um beijinho no rosto do amigo em agradecimento, finalizando ao murmurar um “você é o melhor” antes de se afastar. — cê ia explodir se não contasse, faz um tempinho que você já não consegue esconder as coisas de mim. não tem como não acreditar nesse seu ato de bondade, quando eu sei que você é um bebê. aliás, quem foi que te iludiu, hein? vai precisar comer muito arroz e feijão pra conseguir me conquistar. — empurrou o ombro do amigo de leve ao que revirava os olhos de maneira teatral, estranhando um pouco o fato do moreno ainda continuar olhando incansavelmente para o céu estrelado naquela noite, mesmo que estivesse realmente bonito. antes de perguntar qualquer coisa que a notícia chegou, como uma bola de vólei caindo em sua cabeça, foi nesse exato momento que percebeu a força que segurava a casquinha e que agora infelizmente toda a massa do sorvete se encontrava perto de seus pés. — O QUE? caralho, você tá falando da mesma pessoa que eu? você beijou o lucas? tipo, o meu melhor amigo, que te faz soltar suspiros por ai? você conseguiu melhorar ainda mais minha semana! me conta essa história direito. jota pê, meu sorvete até caiu, o mínimo que mereço é uma explicação pra não ficar tão triste... anda garoto, desembucha! — o olhar permaneceu vidrado no rosto de joão pedro, ela precisava de respostas, precisava dos detalhes.