Jô por sua vez não fazia qualquer menção de esconder seus hábitos ruins, os quais, por igual, tratava com total displicência. Para ele fumar, beber e usar um baseado não era nada de errado e, na verdade, a faceta construída de pessoa que não se importava muito com nada e que era tranquila lhe vinha muito bem a calhar. Mas bastava morar com ele pra notar que nada não era tão bem assim. Os sorrisos fáceis que dava na rua eram mais diminutos por entre as quatro paredes da república e se fingir alegria com a faculdade já era uma tarefa meio árdua no dia a dia, em semana de provas piorava ainda mais. Não bastasse o estresse com os estudos, juntava-se à complicação a situação de Lucas. João Pedro estava cansado, infinitamente cansado e tão cansado que, em determinado momento, simplesmente desistiu de ler mais qualquer linha do livro de anatomia. O mesmo foi fechado e a pressão auto-imposta pelas expectativas do pai deixadas de lado momentaneamente, só pra sair do quarto e vagar pra sala sem saber o que iria fazer, mas que precisava fazer alguma coisa. Sentia-se sendo devorado devagar pela ansiedade e, tão distraído, sequer notou Felipe ali perto, do lado de fora. Foi com alívio e surpresa que recebeu as palavras dele, então, sua sobrancelha arqueando-se. “… ‘Cê cuspiu nela?” O questionamento tinha uma dose pequeníssima de humor que não sabia se o outro ia notar, mas no estado mental de Jota Pê, formular o que iria dizer parecia bem difícil e bom, se Felipe estava de boa, não era ele quem iria procurar motivos pra discutir; não tinha energia pra isso. O corpo caiu pesado na cadeira da sala depois de buscar um pedaço de pizza para si na geladeira, não se dando ao trabalho de esquentar, seus pares castanhos direcionando-se mais uma vez à figura esguia do moreno, então. “… ‘Cê por acaso tem mais um?” Disse, seus pares descendo para os lábios alheios no qual o cigarro se mantinha só pra subirem aos olhos mais uma vez, buscando se fazer entender. Se estivessem bêbados, conversar seria muito mais fácil.
O diálogo entre eles nunca foi fácil, nem mesmo quando embriagados. Era melhor falar com gestos, com as mãos e com os corpos do que botar as duas mentes conflitantes de encontro uma com a outra. Naquela noite que parecia suspensa no tempo, nem tudo estava tão diferente assim. Ao mesmo tempo em que João estranhou sua oferta - e com razão, ele também teria estranhado caso os papéis se invertessem - Felipe também não se estendeu para explicar a própria generosidade. Aliás, a frase esperta do colega de curso só foi replicada com o ergueu do dedo médio, voltado às próprias costas porque o Cavalcanti não se viraria tão cedo. Ele se distraía com o céu que ia, aos poucos, se fechando e prometendo outra chuva daquelas que durava a noite toda até que João lhe chamasse a atenção outra vez. Agora Felipe voltava o rosto sobre o ombro e encarava os olhos do outro por um segundo, tempo o bastante para notar para onde o olhar do outro estava voltado. E eles se conheciam, essa era a grande ironia de tudo aquilo. Sabia o que a frase do outro podia dizer, mas não era de ceder tão fácil. Não, Felipe gostava de arrastar as situações um pouco, de fazer sofrer. E ninguém até aquele dia havia tido coragem o suficiente pra reclamar, então porque mudar agora? — Folgado pra caralho, hein? — A despeito da frase, ele tirou o maço de cigarros do bolso traseiro do jeans e o deixou sobre o parapeito da janela na qual se debruçava. — Eu não vou te servir, né? Levanta o rabo dai. — As palavras eram ríspidas, como sempre, mas o tom não passava de um murmurinho. Não iria acordar nenhuma das meninas por conta daquela provocação toda entre eles.