você sabe que no tempo da minha memória poucas coisas se perdem, sempre brinquei que fui amaldiçoada com uma memória que não esquece nunca. nunca. e hoje eu tava lembrando de uma frase da Matilde que fala sobre a tristeza de retas paralelas que nunca se cruzam, apenas se encontram no infinito. e sinto que mesmo que a gente tenha se cruzado, sempre fomos duas retas paralelas, sem a parte do infinito.
os números nunca me interessaram tanto quanto as palavras, mas sobre a gente eu guardo uma série deles. por você eu me reinventei em muita coisa, essa é a verdade. enfim, dividimos mais de mil dias, da pra acreditar? falando assim parece tanto [e tão pouco]. as viagens eu fiz questão de perder a conta, não porque foram tantas assim, mas porque eu acreditei que viriam muitas outras. e esse é o tipo de coisa que a gente espera fazer tanto até esquecer mesmo. os shows eu consigo contar, mas não quero. não faz mais sentido. mas teve o do Coldplay, o Chris Martin cantou Yellow, a minha favorita da banda, e você a dedicou pra mim. eu te dediquei o show inteiro, só não disse, mas acho que você sentiu.
lembra de quando fomos ao Rio? foi a sua primeira vez vendo o mar. nessa viagem, você também me disse que eu fui a sua primeira vez vendo o amor materializado em pessoa. foi a minha primeira vez no Rio também. depois de você eu já estive lá, ainda era a cidade maravilhosa, mas de um jeito diferente, será que você entende? acho que tivemos muitas primeiras vezes juntas, nosso amor foi um mar de descobertas. mas também foi uma ponte, e pontes são sempre atravessadas. algumas travessias custam mais que outras. alguns caminhos a gente só faz uma vez, sem retorno. por isso digo que a ponte que me levou a você não foi a mesma que me trouxe de volta pra mim. eu acho que não teria coragem de fazer de volta um caminho que sempre torci para ser só de ida. faz sentido? sobre as retas eu já nem sei mais, sobre o infinito: nunca nos interessou.
P.s: esse texto só existe porque fui ouvir Interestelar, música que te dediquei, e quando chegou no trecho que diz “te amo como quem acende uma vela no espaço. te amo desde a dificuldade de se acender uma vela no espaço. na dimensão infinita de um universo sem esquecimentos. aqui, cheia de som, canto teu codinome” a vontade de escrever me inundou como se a matéria do meu corpo fosse constituída por palavras. sem células, sangue ou sonho. só ficaram as palavras. elas sempre ficam.















