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@dearsuckerdaily
“Procure alguém que também te procure.”
— Circunflexo.
As pessoas dizem que o tempo cura tudo, mas ninguém fala sobre como ele também ensina a gente a esconder melhor aquilo que nunca deixou de doer.
Escriturias
Diário de Leitura - Conto 10
Estão Apenas Ensaiando - Bernardo Carvalho
A arte imita a vida. É isso que o conto de Carvalho me remete. O conto traz a situação de um ensaio de peça, onde um ator não cumpre a entonação que seu texto pede, segundo o diretor, e ao fim do ensaio o ator se encontra com o personagem ao passar pela mesma situação.
Muitos dizem que nossa vida é uma peça que não permite ensaios. Devemos agir sempre sem pensar muito se estamos entonando corretamente as falas. Nossos erros podem ser corrigidos nos próximos atos, nas próximas cenas. Nunca teremos chance de refazer uma cena, por maior que seja nosso erro.
Temos o costume de ver situações difíceis em outras pessoas e raramente nos imaginar em seus lugares. Quando menos esperamos somos submetidos a situações semelhantes.
Lembro-me de ver notícias sobre assaltos. Pessoas sendo atingidas. Achava que tal atrocidade acontecia apenas longe. Brincava de polícia e ladrão, atirando em bandidos de mentirinha. Nunca pensamos que estamos vulneráveis. Até o dia em que a notícia era minha família. “Homem é baleado em tentativa de assalto no dia 31 de dezembro.”. Homem. Eu prefiro pai. Combina mais com ele. Na melhor das intenções ele agiu, e teve parte de seus movimentos essenciais levados para longe. Para sempre. Morreu? Não, graças a deus. As vezes contamos e as pessoas acham que sim. Temos a alegria em dizer que o homem apenas tornou-se paraplégico. Morreu apenas parte de seus movimentos. O drama era diário, a não aceitação vinha de todas as partes. Agradecíamos pela vida, mas custávamos a crer que aquele homem que nunca parava quieto teria de passar o resto de sua vida preso em um acento, por não conseguir mais se manter em pé. Cenas que não podem ser interrompidas e começadas novamente. Temos que esperar as próximas falas, próximas cenas, próximos atos.
Onde todo esse drama que não é trazido a tona há tanto tempo quer chegar? Não há ensaios que nos prepare para mudança alguma. Nem para negativas, nem para positivas.
Diário de Leitura - Conto 9
Amor - Clarice Lispector
O mundo não é perfeito. Há quem custe a acreditar. No confuso conto de Clarice, a prestativa personagem Ana programa sua vida diariamente para encobrir o sentimento de piedade, trazendo aos seus dias uma ideia de mundo ideal. Ao se deparar com um cego, traz a tona toda sua piedade, tornando seu hábito de querer ajudar sempre que pode inviável. Começa a pensar em todos os problemas sem solução que podem surgir em uma sociedade, e como ela poderia ser afetada por todos eles.
Por seguir uma rotina igual, todos os dias, Ana me remete a alguém com TEA - Transtorno do Espectro Autista-. A frustração e curiosidade ao ver algo que não se encaixe aos seus dias corriqueiros retrata bem isso. Como conheço alguns aspectos do transtorno, diria a Ana respirar fundo e pensar em algo que a passe segurança. O que acontece ao longo do conto não passa de uma crise, onde o que alguém assim mais precisa é de conforto e segurança. Para crianças, como as que eu trabalho com, é mais simples. Você cria uma relação, já sabendo da condição e se torna alguém que passa segurança. Aprende os gostos e os acompanha durante o tempo. Se for necessário, em momentos de dificuldade é preciso conter seus movimentos para que se acalme sem correr maiores riscos. No caso de Ana, sendo uma adulta, o que torna a situação difícil é a falta do elemento de segurança e conforto desde nova. É um hábito ou um conhecimento que auxilia em momentos de tensão. Se a moça pensasse em seu filho ou em seu marido, amados muito por ela, talvez se acalmasse mais rapidamente.
“Se fora um estouro do fogão, o fogo já teria pegado em toda a casa!
Pensou correndo para a cozinha e deparando com o seu marido diante do café derramado.
— O que foi?! gritou vibrando toda.
Ele se assustou com o medo da mulher. E de repente riu entendendo: — Não foi nada, disse, sou um desajeitado. Ele parecia cansado, com olheiras.
Mas diante do estranho rosto de Ana, espiou-a com maior atenção. Depois atraiu-a a si, em rápido afago. — Não quero que lhe aconteça nada, nunca! disse ela.“
Diário de Leitura - Conto 8
Confraria dos Espadas - Rubem Fonseca
Prazer. Quantos mistérios e curiosidades por trás desta simples palavra? No conto de Fonseca, um grupo seleto de homens se juntam de forma secreta para desvendar um mistério do universo masculino. Ejaculação. A ideia de gozar sem liberar o sêmen. Desvendar o mundo do prazer másculo e suas possibilidades, além de repensar sua função de reprodutor no meio natural. A busca porém é frustrada pois, após encontrar o tão esperado objetivo, não conseguem mais retornar a gozar, frustrando assim seus relacionamentos e suas vidas.
“ Então qual foi o objetivo da fundação da Confraria? Muito simples, descobrir como atingir, plenamente,o orgasmo sem ejaculação.”
O prazer masculino é tão delicado quanto o feminino. Incentivados e pressionados desde cedo, meninos tendem a desenvolver uma insegurança acerca do sexo, mesmo que nunca evidenciado. Comentários acerca do tamanho do instrumento, assim como o tempo que deve “funcionar” e quantas vezes provocam tais sentimentos. A busca dos personagem do conto é compreensível e interessantíssima, visto que vai além de tais preocupações. O foco em sentir o prazer, assim como proporcioná-lo, mesmo que se frustrando ao fim.
Explorar além da ejaculação. Se a mulher tem várias maneiras de expor o master alcançado, por que motivo o homem não teria? Isso, assim como maneiras de alcançar o clímax juntamente da companhia é algo que deveria ser estimulado a todo e qualquer ser humano que pratique o sexo. De todas as sensações durante o ato, não tem qual se compare com a de deixar o parceiro, ou parceira, delirando de prazer.
“... aqui vem o mais grave, se ela não sentia prazer o nosso confrade também não o sentia, pois nós, da Confraria dos Espadas,queremos (necessitamos) que nossas mulheres gozem também. Esse é o nosso moto (não o cito em latim para não parecer pernóstico, já usei latim antes): Gozar Fazendo Gozar.”
Diário de Leitura - Conto 7
As Mãos De Meu Filho - Érico Veríssimo
Palavras ditar por pais ou mães marcam. As boas. As ruins. Todas. O mesmo vale para as atitudes. Mesmo quando não direcionadas aos filhos, quase sempre os atingiram também.
Na relação de Gilberto com seus pais, de acordo com Veríssimo em seu conto, a figura materna sempre se sobrepôs a paterna. Com o pai bêbado e sem emprego, a mãe se submete a ambos papeis. Betinho, como o chamam, vê esse desequilíbrio e reconhece que o pai nada faz para seu crescimento, deixando claro seu descontentamento. Creio que, se não todos, quase todos, já foram um pouco Betinho. Quase todo mundo já sofreu o reflexo de alguma descompensação paterna ou materna.
Eu fui Betinho por muitos anos. Após o acidente que tirou o movimento das pernas do meu pai, o rancor e a indignação tomaram conta dele. Eu, sendo a filha que passava mais tempo em casa, tinha um tempo de convívio diário maior que o restante da família. Quanto mais tempo passávamos juntos, mais distantes ficávamos. Me tornei o alvo do mau humor e rancor do meu pai. Não o julgo, jamais poderei. Sua situação era delicada e para seu bem era necessário canalizar seus sentimentos. O problema foi que para cada detalhe que não o agradava, assim como cada decepção minha, comigo mesma, eu era apedrejada com palavras cada vez mais cruéis. O ápice chegou quando em um momento de desespero, após ouvir muitos dizeres negativos, chorando mais uma vez pedindo apelo a minha mãe, questionei onde estava o meu pai. aquele homem a gritar comigo a cada olhar que dava não era ele. Meu pai era uma figura alegre, que não se entregava, que não se deixava abalar. Sempre com bom humor, levantava o astral de quem precisava sem nem pensar.
O questionamento chegou aos seus ouvidos, tarde, pois estavam a se mudar para um estado diferente. A separação lhe doeu. Deixar que a filha, ainda menor de idade, abalada por lidar com tanta coisa tão nova, ouvindo o que ouvia todos dias. E foi o que nos salvou. A distância. Se não fosse sua atitude de retornar ao estado vizinho, já estaríamos tão abalados a ponto de não nos chamarmos de pai, e filha.
Diário de Leitura - Conto(s) 6
Passeio Noturno - Partes I e II - Rubem Fonseca
Somos movidos por impulsos. As vezes bons, as vezes ruins. Os que controlam o personagem do conto de Fonseca, são mais perversos do que deveriam.
Alguns chegam em casa estressados e tomam banhos longos, gelados ou bem quentes, para acalmar. Outros dão atenção aos filhos, aos cônjuges. Tem quem goste de praticar esportes para desestressar e tem quem, assim como eu, que goste de não fazer nada, dando um tempo para a cabeça e corpo perceberem que não estão mais na correria. E tem alguns talvez nem tão poucos, que gostam de praticar o mal para espairecer. É o caso do personagem do autor, em que após chegar em casa na primeira parte do conto, se enrola em casa e decide sair para uma volta de carro. Pode parecer comum, um passeio inocente. Até avistar uma vítima. Uma mulher aleatória. De uma forma que transmita algo rotineiro, atropela a inocente mulher, a fim de matá-la. No dia seguinte, já na segunda parte da história, uma mulher aleatória o encontra na rua, e através das janelas dos automóveis passa seu contato. Saem para um jantar, ele se abre e no fim da noite outra vítima se encontra morta. Pelo impulso do risco de ser descoberto.
Quais seriam os melhores impulsos que temos em nossas vidas? Diferente do impulso de matar alguém, que vira uma bola de neve como no conto, alguns de meus maiores impulsos me trazem coisas boas e positivas, e apenas isso. Como o primeiro beijo em uma noite de desabafos, que me traz o amor verdadeiro. A coragem de aprender a dirigir, que me levará a lugares desconhecidos e adoráveis.
Em contrapartida, tive impulsos negativos como todo ser humano. Por exemplo, me entregar a pensamentos que faziam sentido apenas em minha cabeça na adolescência e chegar pertíssimo da minha própria morte por vergonha de pedir ajuda. Ou ainda, bem menos negativo, cortar a franja quase rente ao couro cabeludo por tê-lo enrolado em um pente. Cômico. Saber lidar com esses impulsos é fundamental, sendo ele positivo ou não.
Diário de Leitura - Conto 5
Viver outra vez - Mário Barbosa
Como o amor muda a vida de alguém? Até que ponto a idade é um impasse para que dois indivíduos se relacionem verdadeiramente?
Todo mundo pode dizer que o amor mudou sua vida. Se não pode, é por que ainda não pode. No conto, um senhor negro que lutou pela igualdade e perdeu suas esperanças não podia afirmar. Ainda. Foi quando uma moça de mesma etnia o encontra para pesquisar o passado. Ele rabugento, desejando a morte. Ela cheia de vida e cativante. Se apaixona por ele e ele por ela. Neste caso, a idade é um mero detalhe. Apesar de não achar certo, a história dos dois é algo que aquece o coração por mostrar a volta da paixão dele pela vida. Todos merecem esse tipo de animo, nem que seja a última coisa que aconteça na nossa trajetória pela vida.
Penso nos relacionamentos que já vi e vivi. Meus pais, sendo os primeiros amores que se estendem de forma linda e terna até hoje, quase quarenta anos depois do início. Penso no meu namoro. Como eu me vejo feliz e transbordando. O tanto que ouvi de familiares dele o quão bem eu o faço. Não tem, no mundo, sensação melhor do fazer bem pra quem faz a gente bem. A gente aprende, a gente ensina. A gente luta junto. A gente cai junto. Falo de mim e de meu amor. Meu amor. Abrange tanto, meus pais, meus irmãos e irmãs, meu até então namorado. Quando falo de amor, falo de pessoas, de sensações, de ocasiões. Levo comigo um trecho que já é até considerado clichê, de Oswaldo Montenegro: “metade de mim é amor e a outra metade, também”.
É essa a ideia que o conto passa. A entrada da moça na vida no senhor enche não só os dias, mas a casa e o coração de cor e alegria. Isso é o amor. É sobre amar, independente dos impasses, dos julgamentos. Sempre ter o amor como principal atuante na nossa vida.