Criança exemplar (adulto traumatizado)
Às vezes, a quietude infantil nos traz uma falsa sensação de tranquilidade. Passei minha infância sem causar alvoroços, sem perturbar a calma ao meu redor. Era aquele ser que parecia serenidade personificada, contemplando o mundo com olhos ávidos e silêncio profundo. Não nego que pude evitar muitos dissabores, mas agora eu me pergunto: será que o preço a pagar não foi alto demais?
Enquanto meus colegas aproveitavam festas e se perdiam na efervescência da adolescência, eu preferia os meus cantos, as minhas leituras solitárias. Não me permitia extravasar, temia os excessos que podiam ser cometidos nas madrugadas etílicas. Assim, mantive-me afastado de caminhos incertos, das opções perigosas que me tentavam com suas promessas fugazes de euforia. Mas hoje me pergunto se a verdadeira aventura não estava nesse mesmo perigo que tanto fugi.
Aos poucos, o medo se transformou em peso, em inquietação que se manifestava dentro de mim. A mente, outrora quieta, se tornou uma cidade infestada de pensamentos barulhentos. As memórias não vividas, as emoções caladas, tudo encontra eco nessa mente inquietante. A tranquilidade foi substituída pela ansiedade, pelo incessante questionar das escolhas feitas e das não feitas.
De que adiantou evitar tumultos e problemas quando tudo o que isso trouxe foi um caos interno? Talvez o segredo estivesse em equilibrar as experiências, em experimentar um pouco as curvas da vida, mesmo que com cautela. Talvez minha busca por paz tenha sido tão voraz que acabei aprisionando a mim mesmo.
Agora, como adulto traumatizado, sinto o peso do que não vivi, os arrependimentos migrando de minhas costas para as trevas desse labirinto mental. De uma criança obediente e um adolescente quieto, tornei-me um adulto que dá muito trabalho para si mesmo.