Contraditória
Uma vez, alguém que eu ousava chamar de amiga me cuspiu na cara que eu era contraditória, como se fosse insulto. Como se ser um só, ser previsível, ser fácil de engolir, fosse algum tipo de mérito. E por muito tempo eu entendi isso como uma ofensa. Hoje? Hoje eu visto essa contradição como armadura.
Sou sim contraditória. Sou abismo e sou céu. Sou inferno e paraíso. Sou calmaria e fúria. E não devo satisfação a ninguém por isso. Não moldo minha existência pra caber em rótulo, não disfarço meu caos pra ser palatável. Eu não existo pra caber no seu entendimento raso. Se minha profundidade te afoga, então talvez você nunca tenha aprendido a nadar.
Mudo de opinião como quem muda de pele. Me recuso a ser estática só pra caber na ideia idiota que alguém tem sobre mim. Porque só os mortos permanecem iguais. Quem eu fui ontem, talvez seja a antítese de quem sou hoje. E isso não é fraqueza, é movimento. Eu sou metamorfose. Sou o incômodo que denuncia sua estagnação.
Sim, eu corto pessoas da minha vida como quem arranca farpas da pele. Sem remorso. Me magoou? Adeus. Não me tratou com respeito? Some. Não sou feita pra suportar por educação o que me esmaga por dentro. Eu discuto comigo mesma, sou tribunal interno, caos em deliberação. Nem eu entendo tudo o que sou, então como é que você — que vive à margem da minha alma — quer ter a audácia de me rotular?
Quer entender? Tente. Eu não sou linguagem simples. Sou dialeto próprio. Sou cheia de arestas, sou ferida que sorri, sou amor e desdém, sou a contradição do abraço quente com a palavra cortante. E sim, sou problemática. Mas não da maneira rasa com que costumam usar essa palavra. Sou problema pra quem quer controle. Sou incômodo pra quem exige submissão.
Sou a brisa que acaricia seu rosto no fim da tarde, mas também sou o vento que arranca as telhas do seu teto. Sou o mar sereno que convida você a mergulhar, mas também sou a onda que te arrasta pro fundo e te faz engolir água salgada até você entender que nem tudo é pra ser controlado. Eu sou a paz que você busca e a guerra que você teme.
Sou a mulher que acende velas pra iluminar o quarto e, no mesmo dia, coloca fogo em pontes que não levam a lugar nenhum. Sou a que acalenta seus medos com palavras suaves, mas também a que joga álcool suas feridas só pra você sentir que está vivo.
Eu sou a calmaria que te faz acreditar que tudo vai ficar bem, mas também sou o caos que te lembra que a vida não é um conto de fadas. Sou a que segura sua mão no escuro, mas também a que apaga a luz pra você aprender a andar sozinho. Sou a que te acolhe e a que te expulsa. Sou a que constrói e a que destrói.
Eu sou o desafio que você não esperava, a pergunta que não tem resposta, o labirinto que não tem saída. Eu sou o que você não consegue controlar, e é por isso que eu te assusto.
Não espero que fiquem. A permanência me soa como promessa frágil demais pra confiar. Eu me basto. E se um dia eu mudar, não será pra me encaixar no seu molde, será porque meu próprio corpo, minha própria alma, pediu mudança. Evolução não se explica. Se sente. E eu sinto tudo. Em excesso. Em desordem. Em fúria.
Já fui a garota que silenciava pra não incomodar. Já fui a que se diminuía pra caber nos espaços alheios. Hoje? Hoje sou vasta. Hoje me recuso a me curvar. Se meu "egoísmo" te fere, talvez você esteja mal acostumado com o quanto me doei pra te manter confortável. Não é egoísmo querer-se inteira.
Pode me achar exagero, tempestade, caos. Pode achar que sou contraditória pra caralho. Tudo bem. Eu sou mesmo. Mas sou justa com quem é justo. Sou leal até o osso com quem me oferece verdade. Só jogo sujo com quem primeiro trapaceou comigo. Sou espelho. Me trate com escuridão e devolvo a sombra. Me trate com luz e verá brilho.
Não sou vilã. Não sou mocinha. Sou o roteiro inteiro. E mesmo quando pareço confusão, há uma coerência íntima em mim, uma lógica que talvez só minha alma entenda. Sou tudo e sou nada. E me recuso a ser menos por medo de assustar você.
Se te deixo desconfortável, ótimo. Que isso te sirva como espelho, como alerta, como chamado. Porque eu não vim ao mundo pra ser pacífica. Vim pra ser real. E a realidade raramente é delicada.
Eu sou completa. Com todas as minhas partes. Mesmo as que te assustam. E se isso é ser contraditória e problemática, então que assim seja. Porque nessa contradição, finalmente, me reconheço. Me pertenço.
@desmotivacional @souamorte











