Inundação
Eu sou uma árvore. Sou uma árvore em um terreno todo alagado. Inundado. Um tsunami passou por aqui. Mas tudo bem, eu sobrevivi. Ao meu redor, é tudo terra, barro e água. A solidão me envolve. Mas o solo é todo fértil. ALS 11/09/2021
Lint Roller? I Barely Know Her
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he wasn't even looking at me and he found me
Aqua Utopia|海の底で記憶を紡ぐ
Alisa U Zemlji Chuda
will byers stan first human second

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titsay
Three Goblin Art
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Inundação
Eu sou uma árvore. Sou uma árvore em um terreno todo alagado. Inundado. Um tsunami passou por aqui. Mas tudo bem, eu sobrevivi. Ao meu redor, é tudo terra, barro e água. A solidão me envolve. Mas o solo é todo fértil. ALS 11/09/2021
A fiel amizade
"A fiel amizade de Lou e Rilke lhes proporcionará raras vezes, no entanto, a ocasião de se verem. Por pouco não se encontram em 1904, na Suécia, e em novembro de 1910: Lou passava por Sistiano, perto de Trieste; mas Rilke acabava de sair do castelo de Duíno, bem perto, onde começava a encontrar e inspiração para suas famosas Elegias. Em Minha vida, Lou explica que esses longos períodos de separação física nunca modificaram a intimidade da relação deles: 'Porém muito mais importante parecia-nos o fato quase estranho de nós, por maior que fosse o tempo que passássemos sem nos avistar, ao nos reencontrarmos - seja em nossa casa ou na dele, em Munique, ou em qualquer outro lugar - sentíamo-nos como se, nesse ínterim, tivéssemos percorrido os mesmos caminhos, aproximando-nos dos mesmos objetivos, ou quase como se a separação tivesse sido anulada por uma secreta correspondência que absolutamente não tinha existido. Quaisquer que tivessem sido os acontecimentos exteriores, o ponto de encontro era sempre alcançado em comum e o próprio reencontro pessoal uma celebração desta circunstância, que transformava tristeza e preocupação em alegria transbordante'". Lou Andreas-Salomé Dorian Astor
Meu algoz
Suas vozes, rostos e formas são diversos. Já sei que por muito tempo eu dificilmente o reconhecia.
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Dezenas de cenas de sonhos de situações de conflitos sem voz. Não somente sonhos, porém. Sonhos de cenas reais de uma história de um rei autoritário de uma pequena família. A revolta presente. A raiva presente. A indignação. A vontade de lutar presente. Mas a boca abre e nenhum som sai. Uma boca aberta, uma garganta que se move. A visão de aflição de uma boca que grita muda. Anos se passam. Distâncias se acumulam. E a boca gritante muda permanece. O silêncio ensurdecedor e terrível da boca que grita sem gritar. Enfim, entretanto, surge algum som. Algum não, muitos, na verdade. Cheios de verdades, cheios de mentiras, todo desorganização. Mas é som. E agora a boca grita como nunca antes falou. A boca grita sem fim. Segue o algoz para falar, sem dó da mais completa exposição. Ela afirma o seu lugar e afirma a sua partida. Ela grita, grita, grita e, então, enfim, vira-se e vai embora. Porque sabe de si.
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O algoz se disfarça. Se disfarça de pai, amigo, namorado, professor. E, pasme, até de bom moço. O pior é que geralmente ele não é nada além de mim. Lutando fora, luto contra fantasmas de gás. Luto em vão. Agora não, gritando dentro, comunico ao algoz. Hoje sou eu, não você. Fantasma de gás não mais. Algoz, cada vez menor. O grito, cada vez mais voz. Não é preciso gritar quando se tem par a par. Logo, o caminho se abre para a voz natural para sempre passar. ALS 25/08/2021
A mulher que assombra
Muitas vozes em mim falam.
Muitas vozes falam em nós.
De algumas delas já conheço cada ruga. Outras são mais obscuras e sorrateiras.
Lá estava eu. Na verdade, lá estávamos eu e ele.
Eu estava animada porque finalmente estávamos saindo do apartamento que eu tanto desgostava. Chega de mofo, rinite e frio dilacerante.
Entrei no quarto do imóvel "novo" com algumas de minhas coisas. Surpreendi-me ao ver que o quarto estava cheio de pertences e rastros inequívocos de alguém. "Nossa, o pessoal da imobiliária nem se preocupou em desocupar e limpar o apartamento antes", pensei, um pouco perplexa.
Comecei a explorar o quarto, claramente conhecendo-o pela primeira vez. Era um quarto grande, mas parecia pequeno, de tantas coisas que nele havia. Uma cama de casal muito grande estava no centro. As paredes eram inteiras armários de madeira com portas de correr. O canto das paredes era arredondado, de madeira. Era tudo de uma madeira escura, mas ainda com tons de caramelo, muito elegante e aconchegante.
Do lado esquerdo da cama (como quem olha da cabeceira), havia um frigobar e alguns armários baixos com comidas dentro. “Devem ter estragado ou estar estragando”, pensei. Dei-me conta, então, de alguma maneira que não sei dizer, e com uma certeza que não poderia explicar, de que a inquilina anterior era uma mulher e havia falecido.
Segui olhando os pertences do quarto, que era para mim muito lindo. Curiosamente misturava muitas decorações e objetos antigos com outros bastante modernos.
Do outro lado da cama, havia um teclado de música, uma estante com diversas coisas. Na estante, visualizei um porta-retrato com uma foto da mulher que morava ali. Uma mulher de pele morena clara, cabelo ondulado não muito comprido e muito bonita, com três cachorros “yorkshires”, todos de tons de preto com caramelo, mas diferentes manchas e composições.
Então, quando eu estava passando em frente ao teclado, algumas teclas começaram a tocar sozinhas. Eu me assustei instantâneamente. Não demorou mais que um segundo para eu reagir perguntando: “Alguém aqui quer se comunicar comigo?”, ou alguma coisa do tipo. Surpreendi-me, apesar do susto, com a minha prontidão e calma ao fazê-lo.
Assim que perguntei, as teclas pararam de tocar. Então eu continuei: “Se sim, toque as teclas novamente”. E as teclas voltaram a tocar. Lembro-me de fazer mais perguntas, mas não lembro quais, buscando compreender porque a inquilina anterior estava tentando me contatar. Queria ela me assombrar? Qual era a sua intenção?
“Assombração”, eu de fato temi. Mas, embora tenha racionalmente temido, eu estava tranquila. Como quem sabe que não há uma ameaça de fato. Eu sentia uma proximidade com a mulher. Se ela quisesse me assombrar, era como se fosse para um bem. Era como se ela fosse uma amiga ou uma parente, uma prima, uma irmã talvez, embora eu não a conhecesse.
E por alguma razão eu a admirava. Eu sabia que ela tinha uma vida independente. Ela morava sozinha ali, naquele apartamento, quarto e/ou estúdio, que possuía coisas tão diversas, o teclado de música, uma estante de livros, um cenário antigo e moderno ao mesmo tempo. Tinha comida, tinha uma decoração linda, um cheiro bom, era gostoso.
Era inevitável, no entanto: eu estava mudando para lá com ele. E eu soube, de novo com a certeza que eu não poderia explicar, que ela iria me assombrar até que eu finalmente me libertasse. ALS 21/08/2021
Criança, criança de mim
Quando eu era criança, até hoje meu pai me lembra, algumas das minhas falas mais frequentes eram: "eu hein, eu não quero nunca crescer, não quero fazer aniversário, não quero nunca ser adulta!". E a verdade, ao meu olhar de hoje, é que nos adultos que eu observava era muito comum enxergar muito cansaço, reclamação, tédio, alienação, insatisfação, preocupação, seriedades rígidas, amargura. Não era como as casas coloridas que eu pintava. Uma das memórias mais felizes da minha infância foi quando minha mãe me deixou colar meus muitos desenhos de casas - eu era fissurada por desenhá-las e pintá-las - nas paredes do meu quarto. Casas e mais casas. De tinta, lápis de cor, giz de cera. Céus de todas as cores e também as paredes e flores, cada uma "numa folha qualquer". Na faculdade, nos meus 22 anos, meus colegas escreveram várias vezes nas minhas costas em uma dinâmica "séria, muito séria, reservada, parece mandona". Parece-me translúcido atualmente como eu realizei, por algum tempo, o que eu mais temia, na compreensão equivocada do que eu deveria me tornar para crescer, crescer para me tornar. Hoje, na beirada dos 30 anos, alegro-me ao ver em mim todas aquelas casas e bagunças coloridas. Minha criança aparecendo, quebrando coisas, esbarrando-se, "passando vergonha", pintando, criando, rindo, sendo, trazendo alegrias, descontrações e levando a vida com um pouco mais de leveza, vendo que a vida adulta não precisa ser terrível nem amarga. Ou, melhor, não só. Nenhum desenho existe mais. Tudo se descoloriu, toda folha se desfez. Mas não a alma. 07/08/2021 ALS
Soneto do Amor Total
Amo-te tanto, meu amor... não cante O humano coração com mais verdade... Amo-te como amigo e como amante Numa sempre diversa realidade. Amo-te afim, de um calmo amor prestante E te amo além, presente na saudade. Amo-te, enfim, com grande liberdade Dentro da eternidade e a cada instante. Amo-te como um bicho, simplesmente De um amor sem mistério e sem virtude Com um desejo maciço e permanente. E de te amar assim, muito e amiúde É que um dia em teu corpo de repente Hei de morrer de amar mais do que pude. Vinicius de Moraes
The Riverbed - Madrugada
“ Moon, how it falls on the field down among us. Rain, falls on the king, and his men on the riverbed. Now, now we meet after all these years” A repetição de músicas me encanta. Parece que elas sempre têm alguma mensagem ou representam algo do momento em que vivemos. Se não sua letra, sua melodia - se não sua melodia, sua letra - ou, ainda, ambas. Nos últimos meses, esta é uma música que não sai de mim e eu não saio dela. É impossível não relacioná-la com o meu cenário atual. Contaminada ou não, ao ouvi-la, vejo um cenário cinza e azul, muita poeira, uma espécie de fim de tarde caótico, lamacento, com cheiro de morte, inseto e putrefação. Mas não ela inteira. E não um caótico “barulhento”, mas um caótico silencioso. Um silêncio ora pesadíssimo, ora um melancólico belo, ora um melancólico orgulhoso, ora uma história de vida como qualquer outra, ora um renascimento divino e mudo. Um ciclo que se encerra, se inicia, se inicia, se encerra. Não é possível visualizar com clareza, porque onde há muita morte, deve haver muita criação. No entanto, na canção, a leitura da minha emoção é a de uma transição que se inicia. A luz sinaliza. A chuva vem soltar as lágrimas ao mesmo tempo em que inunda e limpa todas as impurezas, sujeiras, machucados. Nutre a terra. Mesmo o rei, que é rei, deverá ter a graça - a dádiva e maldição-dádiva - de receber a chuva. “Do you my king, do you remember me? Yeah, I see your face before me now. And I'm telling you tonight, that I know we belong, beyond this life. The war has taken it's turn, and it ain't ever turning back”. Ainda, nenhum rei é só trono. Quem está do outro lado da coroa? O que precisa fazer um rei para se mostrar rei? Para sê-lo? É certo que ele deverá reinar. Supõe-se que reine. Não reinará sozinho, todavia. Aquela face relegada para trás de seu robe eventualmente virá para a luz pedindo contemplação. Ambos, a face real e a face obscura pertencem uma à outra, para além da vida. Esse reencontro determina um momento crucial em toda a guerra. Em todo o cenário cinzenta e azulado que se desdobra por detrás de uma névoa. Esse reencontro muda o curso da guerra que ali se instalou. Muda o curso da história. O rei nunca será o mesmo, nem deverá ser. Vemos um momento de potencial transmutação, presente ou futura, ou presente e futura. “I grew to be a man A man who grew to be a king. Got a job at the mill, And when the war came I signed up for you”. A história fala por si. O rumo da vida, a construção do homem, a construção do rei. O moinho roda. O moinho gira. A vida se transforma, se desconstrói e se constrói. Se faz e se desfaz. Em algum ponto, talvez no sol do meio-dia, contudo, faz-se necessário sair das origens para ir em rumo à guerra, embora a saída não seja geralmente tão concreta nem tão efetiva quanto ingenuamente se espera a princípio. O homem vai à guerra. O homem vai à luta. Ele vai por si mesmo. E vai por aquele seu igual que se camufla na escuridão. “Every day now, I send a letter to the people back home. Oh, I bet you long for the life that you lived. Me and myself I got nothing to lose but this war. And I'm telling you the war that I fought It was wrong, And we must die. Well, now the shells are hammering down on the riverbed”. A conexão permanece. As raízes nunca desaparecem. E assim deve ser. Todo rei já foi homem, todo homem já foi menino. E todos eles não somente foram, mas são. Assim coexistem. Talvez algum deles seja nostálgico e anseia literalmente por aquela vida antiga. Mas o rei e o homem não. Eles lutam. Eles anseiam por um futuro, através de sua luta presente, futuro esse que não lhes pertence. Eles não tem o que perder fora a guerra. Em algum ponto, porém, prostra-se a constatação de que a guerra não era exatamente o que se havia idealizado. Guerra para quê? Guerra para onde? Tanta morte para qual criação? Tanta morte para quê? Mas é preciso morrer. É preciso constatar a dubiedade desse confronto. A destruição pelas bombas é necessária. O rio continuará sendo, apesar disso, rio. Nunca será o mesmo, entretanto. A guerra próxima ao rio garante a morte, o nascimento, a destruição, a manutenção e, ao mesmo tempo, a renovação e transformação. “Drums roll, And we must go. We must go, the enemy is upon us. Rise from your knee, And now, pull to the bridge”. Os tambores ditam o ritmo e eles demandam que o clímax se consuma. Eles demandam que o reencontro ocorra, que a morte se faça presente, que a guerra seja despida de sentido, para enfim o rio renascer em outra roupagem. A união diante de um inimigo se faz imprescindível. A ressurreição em vida, a lucidez em desespero, surge frente à ameaça, surge como a única opção. Tamanho inimigo só poderia gerar muito medo. Não mais “eu e eu”, mas um nós que se une frente à um estranho. Uma ponte entra na cena, para uma surpresa não tão surpreende. Caminhos existem, caminhos sempre existirão. E tudo coabita. Todas as cenas coexistem. “ Oh, brother don't turn, cause I'm right behind you now. Go on, go on, on up from the riverbed. For I'm telling you the war that I fought It was wrong, And we must die. It doesn't matter much now anyway, Tonight we unite”. Não mais “eu e eu”, nem “nós”, mas irmãos. Irmãos que morrem e, ao mesmo tempo, tornam-se um nesta morte que precisa ocorrer. Rio acima, sobem, sobem. Mas o rio não os protege da mudança. A mudança deve ocorrer. O rio movimenta. O rio é mover. Subi-lo significa ir contra seu sentido. No entanto, sobe-se o vale e se torna possível ver com maior amplitude. À beira da morte, à beira do precipício, vemos. Simplesmente vemos. Ainda assim, permanecemos no dito cenário cinzenta e azulado, onde o cheiro de morte é constante. “And when we're pushing through, I turn around one last time, And through the fire and the rain I see the king's white flag. The king lives on, But everyone Everybody dies”. Eis que parece ocorrer, como toda reviravolta de uma grande história, uma traição do rei para com o homem, do rei para com o seu povo. Ou, por outra perspectiva, a necessária rendição. O rei se rende, deixando de sê-lo para, ao mesmo tempo, tornar-se um rei transformado. Rei ressurgido da guerra e das trevas, rei reformado. Somente o rei sobrevive. Mas, assim como o leito do rio, ele jamais será o mesmo. Em verdade, todos morreram, inclusive o rei, posto que todos estavam conectados “para além da vida”. Um novo protagonista, resultado de toda a narrativa anterior, a soma transcendente de todas elas, é produto da jornada. Como afirmei, uma música que não sai de mim e eu não saio dela. É impossível não relacioná-la com o meu cenário atual. Não um rei, mas um ser protagonista que está subindo o leito de um rio, vendo cada vez de mais longe, esse cenário dolorido, que demanda renascimento. Chocando-se cada vez mais com uma realidade de morte, mas teimando em seu orgulho na esperança ilusória de uma vitória do homem sobre aquilo que não pode controlar. O rei teme e ele sacrifica seus iguais, iguais esses de onde veio. Das raízes que nunca cortou e que nunca poderia cortar. Mas eventualmente - a música nos ensina - será necessário hastear a bandeira branca e, enfim, operar o fim e deixar acontecer. Não poderia ser diferente, a perspectiva dessa música que não sai de mim e eu não saio dela. A perspectiva de uma história de transformação cinza e azul pela bandeira-branca do homem-rei, vivida por uma mulher que quer se fazer não rainha, mas também rainha-mulher, rainha pela união consigo e pelo corajoso reconhecimento e, portanto, união com as forças que são maiores que si mesma. Forças “para além da vida”. Forças-rainha, já que “para além” de si-mesma. ALS 28/07/2021
O velho, igual, diferente, atual
Texto escrito em 08 de fevereiro de 2011: “Desejo Eu preciso de um ponto de partida. Eu preciso de um rumo. Eu quero viver. Eu quero me apaixonar e escrever coisas lindas sobre o amor. Eu quero me decepcionar, escrever palavras de raiva e depois me conformar. Eu quero aceitar que não sou perfeita e que nunca fui, mesmo querendo ser. Quero aceitar que ninguém é perfeito, mas que isso não significa nada. Quero aceitar que eu posso errar, não precisando, então, punir-me. Porque tudo que eu estou vivendo eu nunca vivi. E os fatos não se repetem. Sempre existem muitos caminhos a se escolher. Nem todos resultam somente em coisas boas. Nem tudo são flores. Eu posso errar, se eu quiser. Eu posso magoar alguém, se for inevitável. Pensar em si mesmo nem sempre é egoísmo. Eu posso não saber, posso não descobrir. Eu quero aceitar que não se pode ser melhor em tudo. Quero aceitar que não existem contos de fada. E quero mergulhar na vida mesmo assim. Não quero ter medo do futuro. Quero crescer e fazer o que puder. Quero aprender e usar o que estiver ao meu alcance. Quero concluir meus objetivos. Aliás, quero ter objetivos. Eu preciso de um ponto de partida".
Hoje: Nesse momento, acredito, ainda não estava convencida de que tratam-se de milhares de pontos de partida. De milhares de partidas, de milhares de chegadas. Eu percorri tantos. Escolhi, machuquei, magoei, fui magoada, fui machucada. Nada nunca se repetiu e, ainda assim, sempre foi repetição. A vida me parece cada vez um pouco mais paradoxal. Círculos que se repetem parcialmente, mas, ao mesmo tempo, conduzem sempre para algo novo. Momentos em que todo o resto que veio antes pareceu determinado para aquele novo momento emergir. Ás vezes, mesmo escolhendo, parece que a vida nos conduz sozinha a achar nossas pedras preciosas necessárias para nosso bem viver. Ou, melhor, para nosso “bem desenvolver”. O medo está sempre presente. Mas, de fato, parece que o reconhecimento da vida-morte de todos esses círculos tornam-nos mais resilientes. O racional, a teoria, já ensinam toda essa vivência. Mas, assim como Mary não sente a cor do vermelho só ao saber tudo sobre sua frequência de onda, emociona-me toda essa conjunção de vida de um jeito que não sei dizer. Dez anos depois parece que mudei tanto, cresci tanto e, simultaneamente, permaneço a mesma, mas mais ampliada, mais eu, mais sedenta pela vida e [um pouquinho] menos medrosa. Sinto-me genuína, ao mesmo tempo que encurralada em mim mesma. De todo modo, o mistério da vida me chama e eu quero explorá-lo.
ALS 23/07/2021
Meu espelho de reflexos
Um dia, janeiro de 2011, me descrevi como opostos. Hoje me olho, como em um grande espelho que reflete outro espelho. As imagens infinitas dos meus eus passados, presentes e futuros. Vejo-me não tão oposta assim. Vejo-me sempre inteira dentro de mim, descobrindo-me, levantando os véus que escondiam partes de mim e vejo algumas delas hoje com muito mais clareza. Na época, me coloquei:
Sou opostos O tempo passa muito devagar. Todas as cores desbotaram. Todos os meus sentimentos endureceram. Meus desejos se tornaram todos, e nenhum. Quero dor, quero alegria. Quero ter, e quero o que não me quer. Se me quisesse, não me seria interessante. Quero noite, quero dia. Quero casa, quero rua. Quero sono, quero vigília. Quero possuir, mas nunca ser propriedade. Quero desvendar, mas nunca ser vista. Quero música sem poema, quero poema sem voz nem letra.
Um eu meu, passado, ingênuo, buscando, mas perdido, desorientado. E sigo em um barco sem destino certo, mas com maiores convicções, com uma lamparina, com alimento e água doce. Não quero mais desvendar sem ser vista, nem mais aquilo que não me quer. Quero abundância e vida. Quero me despir e contemplar o despido. Quero possuir, ser possuída e, ao mesmo tempo, ser livre. Dor e alegria, quero-os, mas são consequências. Me é interessante tudo aquilo que me traz vida e aquilo que não me quer, não mais me interessa. Se nosso desejo mora no desejo do outro, quero que o mundo seja nosso. Não só meu, nem só do outro.
Já ouvi tantos julgamentos em tão pouco tempo. Tantas arrogâncias e apontamentos de dedos. Mas essas pessoas “inteligentes”, que se colocam à vista, no palco do saber, e buscam seduzir com críticas aos outros e endeusamentos de si, já não os aprecio mais.
Sinto que aqueles que não enxergam, não percebem, não apreciam as entregas de alma nas pequenas e simples coisas, simplesmente não enxergam a alma. Enxergam apenas números e dicionários. Consideram-se anjos que podem avaliar e dar notas às almas. Não estão fazendo o que acreditam. Estão sucumbindo à própria mesquinhez. Estão tão imersos no domínio dos “likes” como estão aqueles que consideram extremo opostos, massificados e incorporados no mundo digital. O mundo dos mesquinhos intelectuais e poetizados pode ser muito cruel e ilusório. Dele não quero participar. Quero os verdadeiros, “anima’dos”, vulneráveis, “pequenos”, que transbordam alma. Esses sim são ricos. Ricos de vida, de sentimentos, de alma, de sabedoria.
Olho-me no passado e é isso que vejo: a ingenuidade, no sentido mais pejorativo da palavra, em grande parte diminuiu consideravelmente. Mas não aquela ingenuidade que deseja amor e vida. Ela me emociona mais a cada dia. E é ela que me faz querer revisitar meus eus, enriquecendo-me no presente e continuando a me ensinar e construir para um futuro. É ela que me aponta a direção que devo seguir.
É bom não se sentir tão oposta, e sim mais DISposta. Disposta a amar, a conhecer, a me conectar, a me despir. Desejante de viver ouvindo a prudência do medo, mas apenas ela. E não mais aquilo que me prendia na caixinha do “quero desvendar, mas nunca ser vista”. Agora não mais. Cansei de ficar apenas na caverna. Agora quero respirar vida. ALS 19/07/2021
Westworld
F – Ford
R – Robert
R: Entendo do que sou feito e como sou codificado, mas eu não entendo as coisas que eu sinto.
São reais..... as coisas que vivenciei? Minha esposa, a perda do meu filho.
F: Todo anfitrião precisa de um passado, você sabe disso.
O si mesmo é como uma ficção para anfitriões e convidados. Ë a história que nós contamos. Toda história precisa de um começo. O sofrimento que você imagina faz com que você tenha mais vida.
R: Tenha mais vida... mas não “vivo”?
A dor só existe na mente, é sempre imaginada. Então qual é a diferença entre a minha dor e a sua? Entre você e eu?
F: Esta foi precisamente a mesma pergunta que consumiu Arnold. Encheu-o de culpa e acabou enlouquecendo-o.
A resposta sempre foi óbvia para mim. Não há um limiar após o qual nos tornemos mais do que a soma de nossas partes, um ponto de inflexão onde nos tornamos totalmente vivos. Não podemos definir consciência, porque a consciência não existe. Os humanos gostam de crer que há algo especial no modo como nós percebemos o mundo. Mesmo assim, vivemos em ciclos tão rígidos e fechados como os dos anfitriões. Raramente questionando as nossas escolhas. Em geral, satisfeitos que nos digam o que fazer em seguida.
Não, meu amigo, realmente não está faltando nada em você.
Pedaços de devaneios [Bits of daydreams]
“(...) Adorei saber mais sobre ele, contudo, esse homem agora adicionado a esse caldeirão, a essa bagunça. O tempo que ele está passando por tudo isso também não é pouco. Ele ter me mostrado suas sombras, me confidenciado tanta coisa secreta, também mexeu comigo. Tornamo-nos uma espécie de cúmplices sem igual. E isso me assusta. (...)” [“(...) I loved to know more about him, however, this man now added to this cauldron, this mess. The time he's been going through all this isn't short either. He showed me his shadows, confiding in me so much secret, this also messed with me. We became a kind of unparalleled accomplices. And it scares me. (...)”] ALS 04/07/2021 Sombras, que unem Tragédias internas que aguardam Emudecidas na espera, em adiamento Prelúdio não de romance nem de insensatez Mas, quem sabe, de libertação e liberdade Não de quem me acompanha e me ama Dessa face amorosa e amiga do redemoinho Nem daquela firme e sólida que encontrei E sim de mim mesma e das escolhas que não fiz A tragédia que busca tomar posse do volante de mim Lançar-me a encontros que prevejo, mas ainda não sei [Shadows, that unite Internal tragedies awaiting Dumbfounded in waiting, in adjournment Prelude not to romance or nonsense But, who knows, of liberation and freedom Not from someone who accompanies and loves me From that loving and friendly face of the swirl Nor the firm and solid one I found It's about myself and the choices I didn't make The tragedy that seeks to take over the wheel of me Launch me on encounters that I foresee but don't know yet] ALS 16/07/2021
Redemoinho [Swirl]
Um redemoinho de nomes De vultos, de rostos sem semblante, acredite se quiser Esse é agora meu cenário e minha sina Minha jornada de aventura é encontrar o rosto real Aquele meu, dentro de mim Mas também aquele que mora fora, meu tu Estou nesse redemoinho silencioso, de névoa, emoções e ventania Redemoinho que me excita e emudece, que me anima e me derruba Esse é meu eu agora, mistura de neblina e rostos [A swirl of names With shapes, faces without countenance, believe it or not This is now my scenario and my fate My adventurous journey is to find the real face Mine, inside me But also the one who lives abroad, my you I'm in this silent swirl, of fog, emotions and wind Swirl that excites and mutes me, that encourages and knocks me down That's me now, a mix of mist and faces] ALS 02/07/2021
Waking up too soon The pale blue light of your hotel room The restless city air Blends with the traces of your perfume I need to know You and me go where we want to go A hesitant first kiss The only memory I'll be keeping As I see the way While you pretend to be sleeping I need to know You and me go Where we want to go Don't tell on me Be still my thieving heart Breaking down every door Is nothing holy no more? I think I know just What you're longing for You're so much colder Than you were before Oh, my thieving heart Oh, my thieving heart I may be undone But nothing seems to undo you You're the lucky one It seems to pass right on through you Oh, be rich no more We both know what we've got ourselves into Oh, don't you start Be still my thieving heart Breaking down every door Is nothing holy no more? I think I know just What you're longing for You're so much colder Than you were before You're so much colder Than you were before Oh, my thieving heart Oh, my thieving heart [Acordando cedo demais A luz azul clara do seu quarto de hotel o ar inquieto da cidade Mistura-se com os traços do seu perfume Eu preciso saber Você e eu vamos para onde quisermos ir O primeiro beijo hesitante A única memória que guardarei Como eu vejo o caminho Enquanto você pretende dormir Eu preciso saber Você e eu vamos para onde quisermos ir Não me diga Seja ainda meu coração ladrão Quebrando todas as portas Nada é mais sagrado? Eu acho que sei exatamente o que você está desejando Você está muito mais frio do que você era antes oh meu coração ladrão oh meu coração ladrão Eu posso ser desmanchado Mas nada parece te desmanchar Você é o sortudo Parece passar direto por você Oh não seja enriqueça por fora Nós dois sabemos no que nos metemos Oh não comece Seja ainda meu coração ladrão Quebrando todas as portas Nada é mais sagrado? Eu acho que sei exatamente o que você está desejando Você está muito mais frio do que você era antes Você está muito mais frio do que você era antes oh meu coração ladrão oh meu coração ladrão] Sivert Høyem - My Thieving Heart (feat. Marie Munroe)
Quem? [Who?]
Desejo sem rosto, fantasma sem gosto. Mas a textura, vívida, marca-me até a obsessão. Textura viva no meu corpo, no toque, na intensidade, na intenção. Quem sou eu agora, se não esse vulcão?
[Desire without a face, ghost without a taste. But the texture, vivid, marks me to obsession. Living texture in my body, in touch, in intensity, in intention. Who am I now, if not this volcano?]
ALS 30/06/2021