Não parecíamos pai e filho, ele dizia às vezes com orgulho, e sim amigos do peito. Creio que meu pai às vezes chegava mesmo a acreditar no que dizia. Eu, não. Nunca quis ser amigo do peito dele; queria era ser seu filho. Nossa relação, de aparente franqueza masculina, me desgastava e horrorizava. Os pais não devem ficar inteiramente nus diante dos filhos. Eu não queria saber — pelo menos não através dele mesmo — que sua carne era tão incorrigível quanto a minha. Aquilo não me fazia me sentir mais seu filho — nem seu amigo do peito —, e sim sentir-me como um intruso, e um intruso assustado. Ele achava que nós dois éramos parecidos. Essa ideia eu não queria aceitar. Não queria pensar que minha vida seria como a dele, nem que a minha mente ia se tornar tão pálida, tão desprovida de lugares duros, de ribanceiras íngremes. Ele não queria que houvesse distância entre nós; queria que eu o visse como um homem semelhante a mim. Eu, porém, ansiava por aquela abençoada distância entre pai e filho que me teria permitido amá-lo.
James Baldwin. O quarto de Giovanni.
















